Feels Good Man | Entrevista com Arthur Jones e Giorgio Angelini

 Feels Good Man | Entrevista com Arthur Jones e Giorgio Angelini

Feels Good Man é um dos filmes mais divertidos da 44ª Mostra de SP e nós tivemos a oportunidade de entrevistar o diretor Arthur Jones e o roteirista Giorgio Angelini, em um papo sobre política, arte, pandemia e mais! Confira abaixo.

Pepe, o sapo” veio de um simples personagem de desenho, e acabou se tornando um símbolo de ódio e até mesmo parte da campanha de Trump. O que exatamente atraiu vocês para essa história? Foi a parte política ou o fato dessa história ser praticamente inacreditável?

Arthur Jones: Creio que chegamos a isso de formas ligeiramente diferentes. Eu vim como um fã dos quadrinhos Boys Club, do Matt Furie. Eu já era fã antes de ver o meme do Pepe, já tinha comprado os quadrinhos e achado engraçado. E então eu vi essa coisa do meme começando em 2012 ou 2013 e fiquei surpreso de ver o Pepe fora do papel, no computador, e então como você sabe na campanha eleitoral para presidente em 2016, e foi muito confuso ver o Pepe usado assim naquela época. Eu senti que eu tinha entendido a história de uma forma um pouco diferente porque eu já era fã dos quadrinhos, mas Giorgio foi apresentado de outra forma ao personagem.

Giorgio Angelini: Sim, eu conheci o meme do Pepe quando ele foi lançado, então quando o Arthur me disse que era amigo do cara que criou eu fiquei um pouco envergonhado, eu não conhecia a história mas de cara comecei a pensar em todas as possibilidades que essa história oferecia. Meus tipos de documentários ou filmes favoritos são sobre algo específico, mas falam sobre algo maior sobre cultura. E há algo especial na história de Pepe e Matt que realmente vai no cerne de algo que, imagino, é muito confuso para muita gente. Eles sabem que algumas coisas são estranhas e que a internet tem essa influência no mundo, mas não conseguem fazer a ligação e Pepe oferece um ponto de vista bastante assustador e que entretém. 

Engraçado você comentar sobre o que gosta em documentários, por que eu vi um monte de documentários nos últimos tempos e acho que eles geralmente possuem um estilo específico, com entrevistas, filmagens de arquivo, mas Feels Good Man é diferente da maioria dos documentários, é um documentário cool, com uma vibe diferente. Qual foi a inspiração para esse estilo?

AJ: Eu acho que a inspiração para o estilo estava na minha vivência com animação e motion graphic. Eu senti que era isso que me faria conseguir levar a história de uma forma que outro cineasta não conseguiria. E então vimos essa história como tendo todo tipo de potencial artístico que empolgou tanto Giorgio quanto eu, Giorgio fez um filme chamado Owned: A Tale of Two Americas no qual eu tinha feito a animação. E naquele filme, ele falava sobre a política de habitação nos Estados Unidos, mas de uma forma divertida, envolvente e rápida, e queríamos fazer a mesma coisa com Feels Good Man, fazendo da internet parte do filme, como se tivesse um milhão de abas abertas no navegador e todas essas ideias indo de um lado pro outro na sala. Era isso que queríamos.

GA: Sim, as possibilidades criativas com a história e o jeito que queríamos fazer da internet um personagem. Sabe, existem vários filmes que falam sobre a internet, mas sempre tratam ela como uma caixa em branco que você fica olhando. Nós queríamos mesmo aproveitar a oportunidade de trazer a internet a vida, quase de forma vilanesca. Então, como você sabe, esse contexto nos interessou, como produtores de documentários, pensamos que essa história tinha essa qualidade única de não apenas ser uma ótima história para contar, mas também para podermos empurrar o meio do cinema documental em uma nova direção.

Sim! E hoje, não só os EUA, mas o mundo soa muito polarizado. Qual a sensação de realizar um documentário tão político, mesmo que o filme não seja apenas sobre isso?

AJ: Sim, quero dizer, nós decidimos começar a fazer o filme após a passeata Unite the Right em Charlottesville, na Virgínia, que foi basicamente uma passeata neo-nazista nos Estados Unidos. Foi um momento que muitos americanos sentiram que o país estava se afastando, e nós ficamos muito apaixonados pela chance de fazer um filme sobre esse momento da história americana. E Feels Good Man foi algo realmente único para nós falarmos disso, foi algo que nos entusiasmou porque estávamos ansiosos e muito bravos sobre tudo que estava acontecendo. E isso nos deu uma maneira produtiva de pegar esses sentimentos e transformá-los em algo com que nos importamos.

GA: Sim, minha família é da Venezuela por parte de mãe e Italiana por parte de pai, e nós vemos que esses problemas de política na América são muito importantes no mundo todo, e o que une todos eles é a forma como a política e as redes sociais e a internet conspiram para criar essas condições que acabam ajudando o facismo, dividem as pessoas e espalham mensagens de ódio e fomentam desinformação. Então estamos realmente motivados por isso, não apenas nos Estados Unidos, mas estamos passando por diversos festivais de cinema e conseguindo uma ótima recepção do público. Acho que é bom saber que as pessoas também compartilham esse medo de saber que é um fenômeno global, infelizmente, sim.

SIM! E isso é um sentimento ruim. E como está sendo a recepção do filme mundialmente, com o cenário de pandemia? Quão impactante tem sido para o lançamento?

AJ: Com certeza, esperávamos que nosso filme fosse visto nos cinemas, as pessoas sentadas lado a lado e tendo boas discussões sobre o filme depois de tudo. Mas tivemos sorte de poder fazer alguns festivais de cinema antes do fechamento da pandemia, onde pudemos assistir o filme com um grupo de pessoas e depois ver eles conversando sobre. E o filme foi muito bem recebido nos Estados Unidos e em outros lugares onde foi lançado também, como Austrália ou Escandinávia, ou no Reino Unido. Acho que muitas pessoas questionaram o quão importante era essa história enquanto estávamos fazendo o filme, mas estamos alcançando um público de pessoas que estão ansiosas para falar sobre a forma que as mídias sociais mudaram, a forma como nos comunicamos é um fenômeno global. E a história do Pepe realmente ressoa com pessoas de muitos lugares diferentes.

GA: Acho que é nossa primeira vez com o Brasil, é o nosso primeiro festival de cinema aqui. É a primeira vez na América latina e é muito bom saber dessa boa recepção.

AJ: Sim, recebemos muitas mensagens nas redes, de pessoas do Brasil. Parece ser o segundo ou terceiro maior grupo de pessoas que nos procuraram nas redes sociais querendo ver o filme. E isso faz sentido, dado o que está acontecendo no Brasil e as semelhanças com o que tem acontecido nos Estados Unidos agora.

Sim, sim! Eu acho que de fato temos esse mesmo sentimento, eu vejo vários jornalistas que viram o filme comentando sobre isso, como o Brasil está em um cenário semelhante e nos sentimos da mesma forma, de que precisamos retomar nossos símbolos e não deixá-los se tornarem símbolos de ódio, como é o caso da bandeira aqui. Um grande grupo de influenciadores, atores e atrizes falaram sobre isso meses atrás, de como precisamos tomar e limpar a bandeira dos significados negativos atrelados a ela. Então sim, acho que é o ponto principal, de termos cenários similares. E minha última pergunta é sobre vocês: quais são os próximos passos? Visando algo na próxima temporada com Feels Good Man, ou algum novo projeto em mente?

AJ: Estamos trabalhando bastante com Feels Good Man todos os dias. Nos Estados Unidos nós lançamos o filme de forma independente, então tem sido basicamente uma produtora de dois homens. E tem sido um trabalho de tempo integral. O futuro de Pepe é com Matt, no momento está com a gente e estamos espalhando a palavra de Pepe. Estamos muito empolgados em continuar trabalhando juntos para contar histórias sobre como arte e política convergem de diferentes formas. Ainda não temos certeza de como, mas esperamos continuar contando este tipo de história.

GA: E não necessariamente documentários, mas sabe, animações. Estamos trabalhando em uma série de TV animada agora e com diferentes roteiros para o cinema. Então, veremos.

AJ:  Sim, veremos. É um negócio arriscado.

Wow, ótimo! Como eu disse antes, eu realmente curti Feels Good Man, foi um dos meus filmes favoritos da Mostra. Eu saí com um sentimento otimista ao final. Como falamos, temos um cenário semelhante, então foi algo bastante pessoal e quando chegaram os créditos, eu fiquei realmente feliz, com um sorriso no rosto.

AJ: É ótimo ouvir isso! Foi o Giorgio que escreveu aquela música.

WOW! Que legal, eu fiquei ouvindo a música nos créditos porque quando o filme acabou eu não simplesmente “saí” do filme, eu fiquei ouvindo a música. 

GA: Sim, isso foi muito importante para nós, queríamos ter certeza de que as pessoas ficassem pelos créditos e que pudessem ficar sentadas com a emoção, em vez de cortar para a tela preta e os créditos finais subindo. É muito bom ouvir isso.

AJ: E é importante pra gente enquanto cineastas, sabe, que você apontou sobre outros filmes sobre a internet que tenha visto, nós sentimos que muitos desses filmes tem uma mensagem distópica. Sentimos que, como artistas, devíamos encerrar o filme com uma sensação mais poética. E torcemos que as pessoas possam se sentir inspiradas para combater o cinismo em qualquer área de suas próprias vidas depois de assistir ao filme. E isso foi algo muito, muito importante criativamente.

Bom, então saibam que funcionou! E eu só queria mesmo agradecer pelo tempo de vocês, foi ótimo.

AJ: [Em português] Muito Obrigado! Obrigado também! Estamos tão felizes que o filme tem sido bem recebido pelo público brasileiro e estamos muito tristes por não podermos estar aí no Brasil. Eu adoraria ir para o Brasil. Essa é a pior parte da pandemia, não poder encontrar as pessoas nestes lugares diferentes e assistir ao filme com elas, mas espero que possamos chegar ao Brasil em um momento que todos estejam se sentindo melhor.

Clique aqui para conferir nossa cobertura da 44ª Mostra de São Paulo.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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