Zona de Combate

 Zona de Combate

Muitas obras dentro do gênero de ficção-científica usam a realidade como uma base para extrapolar idéias a níveis distópicos e debater temas de alguma relevância. Não que isso seja exclusivo do gênero, mas é algo que sempre pode criar uma camada extra no roteiro, desde que seja bem trabalhada. Zona de Combate (Outside the Wire) é uma destes exemplos de uma produção que até tenta contextualizar seu enredo com aspectos políticos e debates interessantes, mas falha ao fazer isso em conjunto com um bom entretenimento enquanto sci-fi e ação. O resultado transparece a direção automática de Mikael Håfström (Rota de Fuga), inclusive cometendo um dos piores pecados para obras do seu gênero: tornar-se cansativo.

Zona de Combate

Entretanto, não é como se Zona de Combate fosse simplesmente ruim. A obra começa apresentando até certo potencial, embora indique que irá se desenvolver através de certos clichês do cinema de guerra americano — conflito entre EUA e Rússia, uma rivalidade tão antiga que sequer é necessário explicar por que os países estão brigando de novo —, o que atrapalha a imersão. Dessa forma, para cada vez que o roteiro indica que a obra irá introduzir e trabalhar uma ideia interessante — como a desumanização por causa da tecnologia utilizada na guerra —, há um bom número de clichês que reforçam a sensação de que já vimos aquilo antes. É um nivelamento por baixo que põe tudo a perder.

Esse aspecto que faz Zona de Combate soar como um algo genérico incomoda, inclusive, por tornar fútil a boa estilização criada no longa, pois de nada adianta um visual futurista se a impressão que fica ao final é que a obra poderia se passar tanto em um futuro próximo quanto no presente e passado distante. Uma vez que tal design não agrega para o enredo do filme, acaba soando uma decisão vazia, servindo apenas para dar um tom de cool ao visual da obra. O mesmo pode ser dito da ação do longa, que além de demorar para acontecer, não gera cenas marcantes, brindando o espectador com a sensação de que tudo realizado aqui, já foi feito ou maior, ou melhor. Vale destacar, porém, a fotografia obscura e “poluída” de Michael Bonvillain, que transmite para sua obra uma atmosfera que lembra o cinema de Neill Blomkamp, responsável por Distrito 9 e Chappie.

Zona de Combate

Há um bem-vindo cinismo contido no roteiro que toca em feridas abertas recentemente, seja pelas políticas americanas sobre os conflitos — promovendo fortemente certa adoração pelas guerras nos últimos anos — ou pelas polêmicas recentes sobre racismo e violência policial, como na cena em que o andróide Leo (Anthony Mackie) sugere que o governo escolheu a aparência de um homem negro para transmitir neutralidade em vez de soar ameaçador — justamente após tanta violência desmedida contra a população negra no país, tema que ganha mais relevância a cada dia. Diálogos divertidos de acompanhar, principalmente pela dinâmica de Mackie e Damson Idris, com quem divide a maioria das cenas. Novamente, nada que já não tenha sido visto antes, mas ao menos no que tange à dupla, as cenas são divertidas.

Seguindo uma cartilha bem delimitada do gênero e não permitindo-se sair do óbvio, Mikael Håfström faz de Zona de Combate um filme que aparenta ter muito a dizer, mas não sabe exatamente como fazê-lo. O resultado é uma trama rasa com personagens poucos inspirados — o soldado que prefere salvar vidas a cumprir ordens, o ser robótico com conflitos humanos, etc — e cujos acertos do primeiro ato são jogados fora em prol de uma tentativa de cinema de ação que nunca engaja verdadeiramente.

Avaliação: 2.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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