Zalava

 Zalava

Dentre tantos clichês usados à exaustão dentro do cinema de horror, o personagem cético talvez seja um dos mais tradicionais, principalmente em obras com temática mais voltada ao sobrenatural. Sempre que uma ameaça invisível aos olhos surge para assombrar os personagens em filmes do tipo, há sempre alguém que bota em xeque sua existência e, na maioria das vezes, esse ceticismo custa sua vida. Eis então que Arsalan Amiri, em sua estreia como diretor, utiliza este aspecto como pilar principal para toda uma narrativa de um filme de terror fora do padrão ao que estamos acostumados, tornando Zalava uma obra tão instigante quanto tensa.

A premissa aborda um vilarejo iraniano chamado Zalava, onde vive uma população de ciganos que possuem crenças bastante características quanto à ameaça de demônios no local. Amiri é eficiente ao utilizar os primeiros minutos da obra para explicar ao espectador como funcionam tais crenças, da mesma forma que estabelece alguns conflitos que serão importantes para o desenrolar da narrativa, principalmente no terceiro ato. Com isso, não tarda para que a trama encontre sua primeira virada, quando Armadan (Pouria Rahimi Sam), um tipo de exorcista local, captura — ou ao menos alega ter capturado — um demônio que aterroriza o povo de Zalava. Entretanto, se é fácil convencer o povo do vilarejo de que está tudo sob controle, o mesmo não pode ser dito do sargento Massoud (Navid Pourfaraj), militar que toma Armadan por um charlatão que está enganando aquelas pessoas.

Zalava

Deste embate de ideias e crenças, nasce o grande conflito da obra. Mas Amiri é um diretor inteligente e sabe que nenhuma resposta será tão interessante quanto a dúvida e, portanto, usa e abusa de sua maior aliada: a sugestão. Nunca fica claro para o público se existe uma ameaça sobrenatural real ou se é tudo charlatanismo, e Amiri brinca com a expectativa ao criar momentos verdadeiramente inspirados — toda a sequência da delegacia, envolvendo um pote de vidro e um gato, é muito divertida de se acompanhar —, intrigando o espectador que acaba envolto naquele mistério, ora tão cético quanto Massoud, ora tão convencido quanto os cidadãos de Zalava.

Com esta construção meticulosa, Amiri conduz o público pela obra que embora curta, é suficiente angustiante para que soe muito mais extensa — de uma forma positiva —, como por exemplo no decorrer de seu clímax, que parece durar uma eternidade, dada a aflição relativa ao conflito desenhado pelo diretor. A própria dualidade de interpretações contamina o centro da trama, fomentando tanto a interpretação cética quanto a sobrenatural. Sem tomar partido, o diretor confia ao espectador a decisão final, que independente de qual lado escolher, irá encontrar argumentos tanto contra quanto a favor de suas próprias opiniões e leituras sobre a obra.

Zalava

Ao abdicar de respostas prontas, Amiri evita fechar o filme em si mesmo e o eleva tanto enquanto cinema — convidando o espectador a rever e repensar a obra por dias — quanto como uma crítica a forma — cada vez mais comum — com que que as pessoas impõem às outras seu próprio conjunto de crenças e princípios. Afinal, de que importa a Massoud que o vilarejo siga acreditando que são assombrados por demônios, por exemplo? Evitando uma construção maniqueísta, o diretor elabora tais questões, já que embora existam certos riscos aos ciganos — decorrentes de sua fé —, os comportamentos do protagonista soam egoístas, como que motivados pela simples vontade de provar que está correto. Da mesma forma, expõe os perigos da fé cega, principalmente ao questionar quão longe uma pessoa sugestionável pode ir para seguir o que é correto de acordo com a própria fé.

Com estes conflitos no centro da trama, Zalava torna-se uma experiência bastante imersiva. É impossível assisti-lo sem elaborar uma visão própria sobre todos os acontecimentos, e isso por si só já faz com que o espectador tenha um papel ativo em todo aquele “impasse mexicano” que domina o clímax. O desfecho possui seus próprios subtextos — na briga entre a razão e a emoção, ciência e fé, quem acabará sofrendo as consequências? — diferenciando Zalava tanto do cinema Hollywoodiano como do cinema de terror no geral, já que ele próprio realiza uma conclusão um tanto pessimista, à sua própria maneira. Ao final, o próprio espectador sairá da obra condenado pela incerteza, sendo este o maior mérito de Amiri, que não precisa de uma narrativa mirabolante ou orçamentos milionários para intrigar o público a este ponto. O desafio, portanto, não é encontrar respostas para as perguntas da obra, mas evitar procurá-las. Afinal, por mais tentador que possa ser, é uma busca vazia, já que a experiência é muito maior do que tais resoluções.

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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