Writing With Fire

 Writing With Fire

Apesar de soar exageradamente motivacional, a frase “Uma pessoa pode fazer a diferença” conserva seu charme ainda hoje. Sem apostar que qualquer um consiga qualquer coisa, mas reforçando a importância individual para atingir um objetivo, tais palavras traduzem muito bem a vontade inflexível que muitas pessoas possuem em mudar o mundo, fazendo a diferença através de pequenos atos. E isso define muito bem toda a narrativa contada no documentário Writing With Fire, obra co-dirigida por Sushmit Ghosh e Rintu Thomas que aborda o exercício da jornalista Meera Devi, e como seus esforços criaram tendências e moldaram a profissão dentro do país. E, claro, as reações causadas pela influência de Devi e de seu veículo independente, o Khabar Lahariya.

Ghosh e Thomas, embora tenham como objetivo principal abordar o assunto do jornalismo, também expõem seu Writing With Fire como uma jornada feminina em uma sociedade machista — ainda mais do que a que estamos —, com diversos momentos específicos que servem para delinear esta jornada. Há alguns diálogos bastante incômodos por soarem tão retrógrados — que beiram o típico “lugar de mulher é cuidando da casa” —, e que poderiam estar facilmente em obras ficcionais de décadas atrás, mas que reforçam seu poder de angústia justamente por estarem presentes em uma obra cuja narrativa se pauta em uma realidade contemporânea. E ao mesmo tempo que tudo isso se torna um tanto sufocante, também acentua a jornada hercúlea das biografadas e a importância desse cabo de guerra que se prova como uma batalha política de muito mais formas do que aparenta.

Os co-diretores acertam também por costurarem dentro dessa narrativa a transição das mídias analógicas para o digital, com momentos dedicados a expor a preparação das jornalistas se adaptando com o uso de celulares para exercerem a função. E é interessante como essa costura evidencia a importância da tecnologia que funciona para pluralizar as vozes que contam as histórias. Assim, todo o primeiro ato de Writing With Fire ganha um aspecto bem especial ao mostrar a ascensão de Meera Devi enquanto ela, munida apenas do celular e da própria vontade, começa a expor pequenos problemas do dia-a-dia advindos da negligência do governo, mas que logo expande seu alcance e, consequentemente, sua influência. 

Writing With Fire

Este aspecto ganha um ar bastante dinâmico pela montagem das reportagens de Devi com um painel do YouTube onde o contador de visualizações segue aumentando — além de alguns momentos que o filme utiliza de escritas na tela para especificar o aumento de visualizações e inscritos da repórter, assim como a trajetória exercida por ela e algumas de suas companheiras —, ajudando no ritmo do documentário e deixando tudo claro ao espectador sem soar demasiadamente expositivo. Ao mesmo tempo, a montagem estabelece alguns momentos onde vemos o jornalismo sendo realizado, e a resistência que é oferecida à Mera, seja por ela exercer sua voz em uma sociedade machista, seja por essa voz ir de encontro aos interesses de outras pessoas, como na sequência da delegacia, que beira ao claustrofóbico.

Se existe alguma limitação em Writing With Fire, talvez seja justamente sua estrutura exageradamente convencional que acaba afetando como se dá o ritmo da obra, que a partir de certo momento ganha frequentes quebras para contextualizar o espectador do impacto do canal de Devi, uma escolha bastante positiva para evitar que a dinâmica se torne completamente cansativa. Com isso, muito da forma como a obra contextualiza o veículo e suas jornalistas se estabelecendo na imprensa suaviza boa parte dos conflitos mostrados no segundo ato, que estão lá de forma menos direta. No terceiro ato, entretanto, uma rejeição mais explícita para o trabalho delas — exibido em forma de misoginia pura nos comentários do YouTube — evidencia com mais força as barreiras que se impõem às mulheres no país, justamente quando elas já exercem uma influência maior no meio.

Inspirador, Writing With Fire é um documentário bastante relevante e praticamente necessário, que conversa universalmente com diversos países no contexto atual. Seja pela questão da comunicação e sua importância para a sociedade — é dito na obra que “o jornalismo é um pilar para a democracia”, uma frase bastante impactante quando temos governos antidemocráticos que atacam, diretamente, jornalistas — ou por reforçar a necessidade de mais mulheres exercendo suas vozes, principalmente em sociedades altamente machistas e misóginas, e que certamente influenciará um sem-número de mulheres a fazer o mesmo, a obra de Sushmit Ghosh e Rintu Thomas se mostra como uma das mais interessantes do ano. 

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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