Viagem ao Topo da Terra

 Viagem ao Topo da Terra

Com exceção de 127 Horas e do documentário Free Solo, é difícil lembrar de filmes que tenham alpinismo como sua temática central. Talvez pela prática esportiva não possuir tanto apelo cinematográfico para além das belas imagens de montanhas que são possíveis de capturar, mas para criar uma curva dramática efetiva, no entanto, talvez histórias de alpinistas não sejam tão eficientes. O diretor Patrick Imbert, portanto, tem em suas mãos certa “vantagem” ao realizar a animação Viagem ao Topo da Terra (Le Sommet des Dieux), já que o espectador dificilmente sentirá que já assistiu uma obra semelhante. E não apenas pela temática da obra, mas também pela forma singela com que Imbert decide abordá-la.

Isso porque Imbert não parece tão interessado em criar uma narrativa esportiva, daquelas cujos conflitos giram em torno de superar obstáculos — internos ou externos — focados, quase sempre, no esporte em si. Embora sua obra gire em torno da prática do alpinismo, com isso sendo o gatilho para a história, o texto de Viagem ao Topo da Terra parece escrito com uma intenção mais voltada ao contemplativo, tratando o espectador como tal, colocando-o como observador externo aos eventos em vez de conduzi-lo para o cerne da história. Em uma comparação simples, se 127 Horas traz o público para junto do protagonista, focado em transmitir seus anseios e sensações através de uma boa edição de som e montagem, a animação francesa busca afastá-los de seus personagens. A própria natureza de sua trama, que escolhe um fotojornalista — e não um alpinista — como protagonista, deixa isso claro.

Viagem ao Topo da Terra

Essa intenção de criar uma trajetória contemplativa é interessante por conseguir aproveitar a ideia esportiva do alpinismo — que basicamente se resume a escalar uma montanha — narrativamente, expondo o antigo princípio do “Não é sobre o destino, mas sobre a jornada”. Se o objetivo principal do alpinista é atingir o cume da montanha, apenas para retornar em seguida, toda sua jornada de subida — e descida — torna-se tão relevante quanto o destino, afinal. Imbert injeta esta ideia no roteiro ao fazer com que Viagem ao Topo da Terra seja, também, sobre sua jornada. O protagonista tem um objetivo em mente, mas a obra usa isso como um macguffin para colocá-lo em busca de um alpinista desaparecido, e mal aproxima o público das montanhas em si até o terceiro ato, ainda que momentos escalando as montanhas estejam presentes em toda narrativa, através de flashbacks que buscam contextualizar as intenções e motivações dos personagens.

Tais momentos, entretanto, acabam por revelar a fragilidade do roteiro da animação, já que sempre que Imbert decide trabalhar sua narrativa através de diálogos ou dos flashbacks, a obra vai aos poucos tornando-se mais cansativa. É um mal necessário — do contrário, estaríamos apenas contemplando belas paisagens em 2D —, mas que não conseguem se mesclar bem ao restante do filme. Além do mais, o excesso de flashbacks traz uma certa não-linearidade que prejudica a montagem e o ritmo do filme, algo bastante prejudicial considerando que a obra possui pouco mais de 90 minutos. Além disso, por ser adaptação francesa de um mangá, carrega consigo uma característica que também pode gerar estranhamento por parte do público: é uma obra com personagens japoneses e que se passa no Himalaia, mas que é totalmente falada em francês.

Viagem ao Topo da Terra

Apesar destes detalhes que podem prejudicar a experiência, Viagem ao Topo da Terra surpreende com uma animação 2D muito bonita. Com um traço limpo, mas com certos ruídos que lhe concedem uma atmosfera vintage, como se tivesse saído dos anos 80 ou 90. Seu estilo lembra o da animação — também francesa — Perdi Meu Corpo e assim como o texto, são nos momentos que a obra se volta às montanhas que a animação ganha mais força, pois entregam quadros incrivelmente belos, além de fazer um uso muito bom dos tons para compor uma fotografia interessante, com um uso meticuloso das luzes e das sombras nos cenários montanhosos. É quase estranho apontar que a obra entrega um belíssimo momento de nascer do sol, por exemplo.

Visualmente interessante, mas com falhas narrativas que dificultam a experiência, Viagem ao Topo da Terra resulta em uma animação que até encanta, mas dificilmente será memorável. Ao espectador que não possui prévio fascínio pelo alpinismo, talvez não se mostre tão interessante, mas deve agradar a parcela do público que tenha interesse pela prática esportiva ou por sua história. Sua história tem bons momentos e demonstra espaço para ser explorada mais a fundo, mas a abordagem de Patrick Imbert acaba por dificultar tal aprofundamento. Ao final, a animação permanece como uma aventura esteticamente impressionante, mas que prova que não importa que não seja sobre o destino quando a jornada soa tão indiferente.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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