Uma Noite em Miami…

 Uma Noite em Miami…

É fato que mesmo que tenhamos diversos bons roteiros sendo filmados em Hollywood, poucos filmes conseguem verdadeiramente se sustentar apenas através de seus diálogos. E em dias como os atuais, onde discordar da opinião alheia é quase um pecado capital, Uma Noite em Miami… (One Night in Miami…) surge quase como uma catarse ao trabalhar sua narrativa por meio de argumentos e contra-argumentos vindos de seus quatro protagonistas. Baseada na peça de Kemp Powers, aqui responsável pelo roteiro — que roteirizou e co-dirigiu Soul, da Pixar —, e sendo a estréia de Regina King como diretora, a obra surge como uma grata surpresa, principalmente para aqueles que forem assistir sem conhecer o enredo.

Uma Noite em Miami… é um filme sobre luta, crenças e ideais. Passando-se na noite de 25 de fevereiro de 1964, logo após a vitória de Cassius Clay (Eli Goree) — o Muhammad Ali, nome que assumiria para si posteriormente — sobre Sonny Liston. Para comemorar, o pugilista reuniu-se com alguns amigos: o jogador da NFL Jim Brown (Aldis Hodge), o músico Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) e o ativista Malcolm X (Kingsley Ben-Adir) — que viria a ser assassinado quase um ano após a noite retratada no longa — em um quarto de hotel. Este evento real, entretanto, funciona apenas como ponto de partida para a obra, pois os diálogos contidos no filme são criações de Powers, que imaginou o que aqueles quatro teriam conversado naquela noite.

Uma Noite em Miami...

Apesar de uma direção mais contida — afinal, a obra se passa praticamente em um único cenário —, Regina King mostra um controle exímio sobre a construção da obra, principalmente pela cadência do ritmo do filme, que segura as quase duas horas de filme sem deixá-lo ficar cansativo. O debate acalorado com opiniões que, mesmo distintas, não se antagonizam — mas sim se complementam — são empolgantes de assistir, ainda mais pela forma com que King utiliza os enquadramentos para intensificar as emoções dos personagens em cena. O mesmo quarto pode ser um ambiente acolhedor ou claustrofóbico, por exemplo, dependendo do teor do debate e do quão à flor da pele estão os personagens. Há também uma constante sensação de urgência que se instaura em momentos pontuais, deixando claro — sem nenhuma palavra ser dita explicitamente — o perigo constante que aqueles homens corriam apenas pela cor de sua pele ou pelo posicionamento que assumiam.

Ao trabalhar temas como racismo e luta pelos direitos, Uma Noite Em Miami… é efetivo em criar situações e momentos para que o espectador entenda como a sociedade enxergava e tratava personalidades negras que, mesmo conseguindo prestígio diante dos holofotes, ainda precisavam lidar com desprezo de muitos, ao passo que estas mesmas figuras — talvez ainda inconscientes disso, na época — passavam a se tornar figuras inspiradoras para outros. Daí surgem alguns dos momentos mais fortes do longa, como a cena em que Jim Brown conversa com um fã que tece diversos elogios, mas não o deixa entrar em casa por ele ser negro. Ou como Sam Cooke, após ser confrontado por Malcolm X, explica que mudou a vida de um compositor de sua gravadora, fazendo o rapaz ganhar bastante dinheiro com os royalties de uma música vendida para os Rolling Stones. Nas palavras de Cooke, “os brancos fazem turnês trabalhando para nós. Eu não quero uma fatia do bolo. Quero a receita”.

Uma Noite em Miami...

Essas sequências tornam-se ainda mais grandiosas pelo exemplar equilíbrio demonstrado pelo quarteto, facilmente um dos melhores elencos do ano. Com uma química palpável, que faz com que acreditemos na amizade vista na obra, os quatro atores entram em cena complementando um ao outro, sem que ninguém queira roubar os holofotes apenas para si, ainda que cada um tenha seu momento para brilhar. Goree esbanja carisma como Cassius, enquanto Hodge surge mais contido e apresentando a composição de personagem mais consistente ali dentre os quatro. Já Odom Jr. e Ben-Adir destacam-se, respectivamente, como Sam Cooke e Malcolm X por protagonizarem alguns dos momentos mais acalorados da obra, sem nunca deixar de mostrar a estima nutrida um pelo outro, mesmo ao divergirem.

Uma Noite em Miami… pode ser considerado um pouco raso, mas sabe a importância de seus quatro protagonistas e ainda que não se aprofunde tanto em suas histórias enquanto indivíduos, faz jus à influência que eles tiveram dentro da luta pelos ideais que pregavam. Tal exercício — ficcionalizar o que houve naquela noite, sem saber exatamente o que eles conversaram — funciona perfeitamente por reconhecer que aquele evento definiria os caminhos dos envolvidos, enquanto o faz mantendo um alto nível de entretenimento e grande qualidade enquanto cinema. Uma estreia mais do que digna para Regina King e um filme que merece ser visto, refletido e revisto de tempos em tempos. 

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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