44ª Mostra de SP | Uma Máquina para Habitar

 44ª Mostra de SP | Uma Máquina para Habitar

Para quem vai “despreparado”, os primeiros minutos de Uma Máquina para Habitar podem ser bem surpreendentes. A narração computadorizada que parece ter saído de um filme de ficção-científica em um primeiro momento não parece algo cabível a um documentário, mas logo faz sentido junto à atmosfera proposta pelos diretores Yoni Goldstein e Meredith Zielke. Afinal, o documentário fala sobre Brasília, mas não apenas do ponto de vista histórico, ou da arquitetura. A cidade sob a ótica da dupla é mostrada quase como um lugar de outro mundo. Um universo próprio, que a obra reafirma mais de uma vez que não nasceu, mas foi projetada.

Assim, a dupla de diretores cria uma obra bem diferente do habitual. Um documentário dotado de uma veia poética bela, quase utópica, que se reflete nas as narrações e na cinematografia. Não apenas isso, mas o filme surge trajado de ficção-científica, escolha acertadíssima dada a história do lugar — os diretores brincam, por exemplo, com a cidade compartilhar seu nome com um asteróide — e que dita boa parte da técnica utilizada na obra. Uma das sequências iniciais, por exemplo, utiliza efeitos de som que lembram aqueles usados para representar o vácuo do espaço, justamente quando vemos um grupo de trabalhadores usando trajes de proteção em um serviço de roçagem, que lembram o visual de viajantes espaciais de clássicos do gênero.

Da mesma forma, a cinematografia tem uma certa preferência pelo estranho, pelo psicodélico. Não apenas representando a arquitetura de Brasília desta forma, mas exaltando a geometria e numerologia da cidade. A praça dos três poderes que possui três prédios, todos arquitetados por Oscar Niemeyer. Um deles, o Palácio Nereu Ramos — o palácio do Congresso — é cheio de formas geométricas que formam diversos triângulos, cujo número de lados é três, mesmo número de linhas retas de uma letra “H”, que é o formato das torres do palácio em questão. Tais informações são apresentadas por Uma Máquina para Habitar como uma dose de misticismo, parte do charme de Brasília.

A voz da narração, apaixonada pelo lugar, fala conosco com certa sensualidade. Ao mesmo tempo, a fotografia é praticamente fetichista: tenta replicar, nos planos, a arquitetura da cidade, delineando triângulos em cena, realizando enquadramentos simétricos. Tudo para exaltar a beleza do lugar. E por vezes, age de forma rebelde, como um filho adolescente revoltado com os pais, mas que não pode negar para si mesmo a admiração que sente internamente. Da mesma forma, a referência da ficção-científica retorna em um plano que mostra um cinema a céu-aberto, cujo filme em exibição é 2001: Uma Odisséia no Espaço. É como se os diretores quisessem apontar que uma das maiores obras de sci-fi da história se encaixasse, quase naturalmente, na paisagem do lugar.

Há um sentimentalismo muito presente na obra, que delineia as diferentes “Brasílias” de acordo com as pessoas. Se os planos exaltam a cidade sob o olhar de Oscar Niemeyer, a narração traz à tona, mais de uma vez, a cidade sob a ótica de Clarice Lispector. O sentimentalismo também surge, é claro, em seus habitantes, como no momento em que vemos um motoqueiro orgulhoso de ser brasiliense, falando do local com uma boa dose de paixão e nostalgia. Na sequência, ele se envolve em uma discussão, onde a maior ofensa desferida a ele é quando o acusam de não ser de brasiliense, justamente no momento em que a câmera — não tão sutilmente — enquadra sua jaqueta, mostrando o bordado que diz “Brasília-DF”.

Praticamente um experimento, Uma Máquina para Habitar destaca-se não apenas pela sua forma poética de documentar a história da cidade, mas também por ser um interessante exercício de gênero, brincando com as limitações para realizar um documentário que vai além. A atmosfera onírica e espiritual do filme eleva o material base, e deve agradar até mesmo quem não é fã do gênero, além daqueles que nunca visitaram a cidade. Aliás, fica difícil não querer visitar depois de presenciar tamanha paixão.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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