Um Príncipe em Nova Iorque 2

 Um Príncipe em Nova Iorque 2

Comédias — sejam elas contemporâneas ou clássicas — sempre são um terreno ingrato para continuações. Tal como o terror, o gênero possui na surpresa uma grande aliada, justamente por isso, sequências costumam ter um trabalho complexo em mãos: se manter na mesma fórmula pode acarretar em apenas uma piada repetida, que quase sempre falhará em tentar fazer rir como da primeira vez. Entretanto, caso se reinvente demais, pode descaracterizar a si mesma a ponto de não parecer mais uma continuação, beirando um material original que poderia ser vendido dessa forma, não fosse o receio de não conseguir capitalizar em cima de fãs já estabelecidos. E quando existe um intervalo tão grande quanto no caso de Um Príncipe em Nova Iorque 2 (Coming 2 America), este risco tende a ser acentuado.

No caso, 33 anos separam Um Príncipe em Nova Iorque 2 de seu original, e a sequência se presta a não realizar um puro copia-e-cola da narrativa do anterior, mas uma releitura que mantém a mesma estrutura do filme de 1988, dirigido por John Landis. No caso, a continuação apresenta o personagem original vivido por Eddie Murphy assumindo o trono de Zamunda como rei e descobrindo que possui um filho nos Estados Unidos que pode sucedê-lo no trono. Desta forma, o humor originado pelo choque cultural vem com o príncipe da vez — vivido por Jermaine Fowler — sendo um nova-iorquino que chega em Zamunda para ter seu primeiro contato com a cultura e história do lugar. E apesar de soar como uma piada repetida, o humor até funciona, com certas limitações que o diretor Craig Brewer — repetindo sua parceria com Murphy de Meu Nome é Dolemite — tenta encobrir na base da nostalgia.

Um Príncipe em Nova Iorque 2

E de fato, Um Príncipe em Nova Iorque 2 consegue trafegar bem entre a nostalgia e o novo, tanto pela reunião do elenco original quanto por apresentar novos personagens, que conseguem manter o tom cômico — destaque para a presença da sempre hilária Leslie Jones — e mantendo interesse com participações pontuais, como a de Morgan Freeman. Entretanto, nota-se que o roteiro tem dificuldades de manter uma lógica interna funcional, desenvolvendo a narrativa quase que por meio de sketches, o que torna a obra um tanto episódica e impede que os conflitos jogados pela história tenham o aprofundamento — aparentemente — pretendido. E se o clima descompromissado funciona para que o espectador possa embarcar na obra sem levar tudo a sério demais, ao mesmo tempo evidencia o cansaço da fórmula que busca emular.

É notável como Brewer utiliza um tom autocrítico e quase metalinguístico para ironizar o humor da obra que, após três décadas, não soa tão original — e sequer correto — como antes. Não é à toa, por exemplo, que na continuação, a sequência da barbearia seja quase uma condensação de todas as piadas mais “fora de tom” do filme, com os personagens já envelhecidos colocando-se como este retrato de uma geração que envelheceu, mas traz consigo os diversos preconceitos e/ou pensamentos machistas de forma intrínseca em sua maneira de pensar. Sendo um dos momentos mais icônicos do antecessor, a cena correspondente no novo filme funciona bem justamente por agir de forma isolada, como um recorte do tempo que permanece intocável e incorrigível. O mesmo se aplica aos diálogos que contrapõem o novo príncipe ao personagem original, utilizando o contraste cultural para tecer comentários ácidos sobre a indústria que sobrevive de “filmes de heróis e sequências de filmes antigos que ninguém pediu”.

Um Príncipe em Nova Iorque 2

Estes são momentos que se destacam por trazerem uma veia cômica que não poderia haver na obra anterior, justamente por se utilizarem do momento atual ou do tempo passado para estabelecer suas piadas. O mesmo não pode ser dito, entretanto, para a maioria das gags envolvendo o personagem de Tracy Morgan — que soa deslocado boa parte do tempo — ou do novo príncipe e sua relação com as irmãs, já que não há uma boa construção para tal relação, enfraquecendo a ideia do conflito entre eles envolvendo a sucessão do trono, embora este pudesse ser um dos aspectos mais interessantes da obra. Já Wesley Snipes surpreende com sua boa presença, esbanjando carisma e conseguindo encaixar um timing preciso para as cenas de humor, protagonizando alguns dos melhores momentos do filme.

Se Um Príncipe em Nova Iorque 2 não consegue soar original, é justamente por assumir um tom de auto-sátira que já fora utilizado antes. O erro de timing prejudica boa parte do tom, mostrando que o filme veio tarde demais mesmo quando comparado a outras sequências tardias e nem mesmo quando se mostra mais inspirado consegue encantar. Sem amarrar bem seus conflitos, a obra se desenrola de forma previsível e é difícil pensar que alcance o mesmo status icônico obtido pelo antecessor, muito mais ácido para a época que foi produzido. E enquanto Eddie Murphy ressurge sem o brilho de sua época de ouro, ao menos traz certo alívio que escolheu trazer de volta o príncipe Akeem em vez de um dos diversos personagens carregados de maquiagem a quem deu vida em sua carreira no humor. Algumas coisas, afinal, envelheceram mal demais, e neste aspecto, continuar o clássico de John Landis é, dos males, o menor.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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