Um Lugar Silencioso: Parte II

 Um Lugar Silencioso: Parte II

É curioso notar como, nos últimos anos, as continuações abdicaram do uso de dígitos em prol de subtítulos para se identificar como sequências, atribuindo a si próprias um caráter seriado. Por sua vez, Um Lugar Silencioso: Parte 2 (A Quiet Place: Part II) vai na contramão desse movimento, não apenas indicando ser uma sequência, mas evidenciando o fato de ser — literalmente — uma segunda parte da história que chegou aos cinemas em 2018. E uma vez que a obra, de muitas maneiras, conclui o arco narrativo iniciado no filme anterior, a decisão não poderia se mostrar mais acertada.

Logo após uma eficiente — e muito divertida — sequência inicial, o diretor e roteirista John Krasinski retoma a narrativa praticamente no exato ponto em que a deixamos. É interessante notar que não existe uma estrutura óbvia de roteiro aqui, o filme praticamente não possui um “primeiro ato” propriamente dito, pois sua trama já tem início com os protagonistas sem opção senão seguir em frente. Essa ideia é bem trabalhada pelo diretor através da direção e da criação da atmosfera — um dos grandes acertos do primeiro filme — que estabelecem grande desconforto em poucos minutos. A família, afinal, está deixando seu lar — um lugar até então seguro — para partir para o desconhecido em busca de sobrevivência.

Gastando um considerável tempo para estabelecer como a família Abbott se preparou para sobreviver ao apocalipse, é brilhante ver como Krasinski desconstrói tudo praticamente de forma instantânea. Isso contribui para a sensação de que esta segunda parte é mais um filme de terror e menos um drama familiar, pois apesar de ainda haver conflitos pessoais no centro da trama, eles funcionam para estimular os elementos de terror, e não de forma paralela a estes. E uma vez que o medo está devidamente associado com o desconhecido, todos os elementos estranhos aos personagens — e espectador — são potencializados, como a introdução de Emmett (Cillian Murphy) por exemplo.

Um Lugar Silencioso: Parte II

Com uma estrutura de roteiro bastante similar ao primeiro filme, é válido reconhecer o mérito de Krasinski não se repetir nem replicar momentos específicos da obra anterior, como é comum em continuações do gênero. Ao invés disso, cria situações que obrigam seus personagens a encararem o perigo de forma mais direta que anteriormente, enquanto o ato final não deixa dúvidas de que a continuação é, acima de tudo, uma obra sobre amadurecimento. Com isso, o diretor conclui de forma eficiente os arcos narrativos instaurados no primeiro filme, principalmente para o núcleo infantil representado por Millicent Simmonds e Noah Jupe.

A dupla, por sinal, surge muito bem em cena, com Simmonds puxando para si o protagonismo da obra e Jupe surpreendendo pela atuação emocional. Ambos funcionam muito bem em seus papéis e entregam uma performance firme, que eleva a qualidade do texto, sobretudo no terço final. Já Murphy complementa bem o restante do elenco sem ofuscar os protagonistas, mas também sem necessariamente desaparecer em cena. Sua dinâmica com Simmonds funciona tanto em momentos de tensão quanto nas sequências de ação, enquanto Emily Blunt segue muito bem, mas com menos espaço para brilhar do que antes.

Se as atuações são valorizadas pelo silêncio — devido ao incrível trabalho de linguagem corporal do elenco —, o trabalho para a construção da atmosfera curiosamente é valorizado pelo barulho. Isso porque a parte II tem, consideravelmente, um maior número de cenas de ação, elegantemente compostas pelo diretor para não desperdiçar a tensão, mas sim enriquecê-la. É uma solução arrojada, pois os personagens já não estão tão indefesos quanto no primeiro filme, o que tornaria mais difícil manter o sentimento de perigo constante de antes. Isso resulta em um clímax completamente contrastante com o anterior, mas tão — ou mais — efetivo. A cena final por sinal é engrandecida pela boa montagem que costura muito bem duas subtramas durante o segundo e terceiro atos.

Sendo uma experiência bastante distinta — até mesmo quando comparado ao primeiro filme — Um Lugar Silencioso: Parte II não apenas faz valer a espera após diversos adiamentos, mas também mostra-se uma boa expansão para a mitologia. John Krasinski acerta ao abraçar aspectos mais intrínsecos ao gênero, transformando a jornada da família Abbott em um terror mais puro, elevando a qualidade do conjunto — os dois filmes são, essencialmente, uma única obra — enquanto define uma conclusão mais definitiva — embora não menos abrupta — dessa vez.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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