Um Herói

 Um Herói

O universo tem uma forma engraçada — ou trágica — de mostrar que não há situação suficientemente ruim que não possa ser piorada. Seja por vivência própria ou por testemunhar algo do tipo com outras pessoas, o ser humano acostuma-se com a ideia de que as vezes, o melhor é aguardar — ou apenas aceitar —, porque tentar agir em algumas situações parece simplesmente ser o próximo passo na receita do desastre. De muitas formas, esta poderia ser a premissa do longa Um Herói (Ghahreman), do diretor Asghar Farhadi, conhecido — e querido — dos admiradores do cinema iraniano.

A narrativa apresenta Rahim (Amir Jadidi), prestes a conseguir 2 dias fora da prisão em uma saída temporária. Não fica claro os motivos que o levaram à prisão, tampouco como funciona o sistema jurídico do país para que ele consiga este benefício. O que importa, de fato, é que ele consegue seus dois dias de liberdade e durante este curto período, tentará encontrar uma forma de não precisar retornar à prisão, mas tudo dentro da lei, para a surpresa — ou não — do espectador. A narrativa, que começa com uma bolsa perdida com 17 moedas de ouro, não tarda a dar sua primeira reviravolta e rapidamente construir diversas camadas a ponto do público, assim como o protagonista, estarem completamente envolvidos em uma trama que beira uma “dramédia de erros”.

Um Herói

Intrigante, Um Herói funciona ainda melhor conforme o espectador souber menos sobre a história. É brilhante como Farhadi transforma um ponto de partida tão simples em algo tão instigante em tão pouco tempo. O filme mal finaliza seu primeiro ato sem conseguir o feito de amarrar o espectador pelo pescoço, já que é praticamente impossível desviar a atenção da obra. Ao mesmo tempo, cria-se uma sensação de complicação a cada nova virada, o que torna toda a jornada mais deliciosa. Afinal de contas, não dá para prever o desfecho da narrativa e ficamos cada vez mais curiosos pela próxima reviravolta. Felizmente, Farhadi é um diretor com tamanho domínio que seu filme nunca perde o fôlego e apenas se torna mais fascinante ao passo que fica também mais angustiante.

Tal construção funciona ainda melhor pelo desenvolvimento do protagonista e atuação de Jadidi, que transparece uma boa índole suficiente genuína para que o espectador compre suas intenções. Sem forçar na vitimização do personagem — o que poderia descaracterizá-lo, pondo em xeque sua personalidade gentil —, Farhadi estabelece um contexto prévio ao personagem que funciona para que o espectador tenha empatia por ele em um primeiro momento, mas é a performance de Jadidi que amarra tudo isso de forma natural, despertando a afeição do público da mesma forma que o faz com alguns coadjuvantes no decorrer da trama. Com um bom elenco de apoio que eleva o trabalho realizado por ele, o ator acerta no tom e transparece sentimentos muito verdadeiros conforme a obra avança. A sensação de estar vendo uma realidade é elevada pela câmera de Farhadi, que cria um viés intimista sem necessariamente recorrer a um estilo documental.

Um Herói

O diretor também pontua sua obra com diversas temáticas distintas que nunca ganham o centro do palco por simplesmente não serem o foco da trama, mas surgem de modo a movimentar a história ou simplesmente enriquecê-la. No decorrer da obra, testemunhamos um pouco da misoginia daquela cultura, assim como a força das redes sociais, que apesar de não ter um grande foco, são citadas constantemente como fonte de opiniões e até mesmo teorias da conspiração que influenciam a jornada de Rahim. Além disso, um outro aspecto inerente da sociedade, a hipocrisia, surge na obra de uma forma espetacular: vem à tona sempre que Farhadi cria situações de desvantagem para os personagens, como se o atrito dos conflitos descascasse aqueles exemplares seres humanos bem-intencionados até evidenciar suas verdadeiras faces. É incrível assisti-los mudando em questão de segundos, com uma montagem que atribui um efeito cômico bem interessante à obra sem transformá-la em uma comédia de fato.

Um Herói termina sendo um conto contemporâneo — que inclusive tarda a demonstrar-se contemporâneo, oferecendo um recorte quase anacrônico durante seu início — sobre a sociedade, na qual as pessoas seguem tão céticas que precisam constantemente de inspirações, motivações e modelos para carregarem seus ideais, ao passo que reflete sobre a efemeridade destas figuras quase angelicais, construídas com certa facilidade — ou até mesmo ao acaso —, mas também derrubadas da mesma forma. Uma obra fascinante conduzida com maestria por Farhadi, que trabalha sua trama embebida em angústia, onde os tons de cinza misturam-se com frequência, abdicando de qualquer maniqueísmo e atribuindo a si própria uma característica particularmente humana. Um tipo de cinema que fala profundamente com seu público, ainda que sua mensagem deixe uma sensação agridoce ao fim.

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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