Crítica | Um Animal Amarelo

 Crítica | Um Animal Amarelo

Acho fascinante como Um Animal Amarelo usa de uma leve metalinguagem para estabelecer a jornada de seu protagonista, que por sua vez é um cineasta que passa boa parte do filme alheio à tudo que está a seu redor, vivendo em seu próprio mundo de fantasia. A obra de Felipe Bragança também é interessante por trazer para si elementos de terror fantástico que ilustram a jornada do cineasta, como por exemplo o tal animal amarelo do título, que surge como um protetor silencioso, mas também como uma herança incômoda do protagonista.

No filme, Fernando (Higor Campagnaro) é o já citado cineasta que deixa o Brasil, buscando entender um pouco melhor a formação de seu país-natal e, consequentemente, a sua própria. Nessa jornada que o leva à Moçambique e também Portugal, Fernando se depara com nações e pessoas bem diferentes do que ele espera. E estes, por sua vez, reavivam muitos dos fantasmas do passado, não apenas de Fernando e sua família, mas de uma nação que ainda tem sua dívida histórica.

O modo como Bragança entrelaça a história de Fernando à de Catarina (Isabél Zuaa), líder do grupo de moçambicanos que comercializam pedras preciosas — não extraída de suas terras, mas de seus corpos, metáfora clara — e de Susana (Catarina Wallenstein), a “rainha portuguesa do coração de pedra” é bem interessante, principalmente pelos coadjuvantes serem bem mais interessantes que o próprio Fernando, que constantemente soa inferiorizado, imaturo e ingênuo. O contraste entre os personagens não apenas reside no fato das mulheres serem mais donas de si — Fernando acaba submisso a elas —, mas pelo fato delas terem um domínio muito maior sobre suas histórias, enquanto ele mal entende suas raízes.

E o elenco passa isso de forma magistral. Zuaa tem o filme para si, com um ótimo domínio de cena. É impossível não prestar atenção nela sempre que ela está presente. Sua Catarina é imponente e intrigante. Já Wallenstein instiga curiosidade por sua voz doce, quase ácida e um olhar dissimulado, provocante. Quando juntas em cena, as duas criam tensão já que é impossível entender as intenções de ambas. E quando dividem a tela com Campagnaro, criam-se momentos ainda mais intrigantes, onde permanece a sensação de que Fernando é apenas um brinquedo a ser manipulado ou até mesmo quebrado, se necessário.

A já citada metalinguagem estende-se para uma metáfora inteligente para com o próprio espectador. Em tempos em que muitos negam — ou simplesmente preferem não recordar — de suas origens, optar por um personagem que parte em busca de suas origens, mas nem sempre gosta do que vê, é uma escolha ousada. A ignorância de Fernando quase soa como sorte, já que ele não parece consciente suficiente carregar consigo algum pesar, algo que vai mudando conforme ele avança em sua jornada. E a partir daí, Bragança cutuca o espectador brasileiro, que é obrigado a conviver em um país que parece determinado a cometer os mesmos erros de outrora. Entretanto, esse aspecto politizado não surge de forma explícita, cabendo mais ao subtexto da obra.

Um Animal Amarelo peca aqui e ali pelo ritmo por vezes inconstante, principalmente dada as viagens de seu protagonista que podem, à certa altura, confundir o espectador. Mas nada que se sobreponha à fascinante narrativa articulada por Bragança e João Nicolau, que co-roteiriza a obra. Pelo contrário, a obra segue fascinante, seja pelos seus personagens ou até pelo horror fantástico que permeia o filme — ainda que o filme não seja do gênero de horror — e principalmente por sua temática, que aborda as marcas carregadas por uma nação que ainda tem uma relação conturbada com sua própria história.

Filme visto online durante o 48º Festival de Cinema de Gramado em setembro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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