Tom & Jerry: O Filme

 Tom & Jerry: O Filme

Existe uma certa “busca pelo cinismo” que parece impedir o público atual de divertir-se com um humor mais simples ou mesmo bobo. Neste sentido, é fácil entender porque Tom & Jerry: O Filme (Tom & Jerry) foi recebido com certa dúvida. Misturando 2D e live-action — algo que não acontece há algum tempo desde que o 3D dominou o cinema —, a animação é tudo, menos cínica. E para falar a verdade, ainda bem. Se as desventuras clássicas do gato e rato perduram até hoje na memória afetiva do público, com certeza tem a ver com sua inocência e seu humor físico. Exigir mais de uma história desses personagens seria, em suma, querer ver uma obra que não Tom & Jerry.

Sem pensar muito em uma trama que justifique a ida dos personagens para Nova Iorque, o diretor Tim Story apenas coloca o gato e o rato na cidade com uma cena que estabelece de bate-pronto o humor nonsense, brincando aqui e ali com certa autoreferência — vale ficar de olho nos cenários da cidade que contam com referências à várias propriedades intelectuais da Warner —, para logo em seguida inserir Kayla, a protagonista humana da história interpretada por Chloë Grace Moretz. De fato, a premissa é o que menos importa aqui, já que é tudo um fio narrativo inofensivo, criado realmente para destacar o que importa: o humor físico da perseguições clássicas dos personagens, que aqui e ali reservam cenas que referenciam — ou simplesmente remontam em detalhes — momentos clássicos.

“Clássico” é, por sinal, uma palavra inesperada para descrever uma obra que parecia pautada em uma atualização, não necessariamente temática, mas também no sentido técnico. Além da dupla principal, outros personagens memoráveis do desenho marcam presença, como o cão Spike — que volta e meia aparecia para atrapalhar os planos de Tom, muitas vezes protegendo Jerry — e os gatos Butch e Toodles — no Brasil, chamada de Frufru —, sendo que o primeiro alternava entre um aliado e um rival do gato protagonista, enquanto Toodles era um interesse amoroso. Estes três personagens — e outros mais — marcam presença no novo filme, em versões atualizadas, no design ou no traço. E por falar no traço, a animação 2D utilizada no filme é realmente de encher os olhos, utilizando uma sobreposição de cores que lhe rende uma tridimensionalidade, mas mantendo-se dentro da animação tradicional. Sem dúvidas, a técnica de animação é um dos pontos altos do filme.

Tom & Jerry: O Filme

Entretanto, se há algo que tire o brilho de Tom & Jerry: O Filme é a necessidade de criar uma jornada para a personagem de Moretz, já que seu conflito com o personagem de Michael Peña não se mostra suficiente sem a adição de uma subtrama. Toda a narrativa voltada ao “casamento do século” tem lá suas boas ideias — a brincadeira que o hotel já recebeu eventos importantes com a presença de líderes mundiais e reis, mas nenhum desafio maior do que influencers —, mas não se sustenta dentro do conjunto, com o núcleo envolvendo o humorista Colin Jost e Pallavi Sharda soando à parte do restante da obra. Algo irônico, já que para um filme que mistura 2D com live-action, a tendência é que os personagens animados que soem deslocados do restante. Ledo engano, já que esses funcionam muito bem, graças a uma direção de arte esperta — a sequência de Tom entrando em um quarto do hotel e depois a briga dentro dele é sensacional — e um timing cômico acertado.

Entendidas as limitações do formato cinematográfico, é possível aproveitar Tom & Jerry: O Filme como se fosse um grande episódio de duas horas, mas fica claro que Tim Story se daria melhor ao abraçar com mais veemencia a atmosfera caótica de Tom e Jerry, já que acerta a mão ao evitar moralizar os personagens — diferente de tantas outras obras que trazem roupagens contemporâneas para animações clássicas —, mas perde muito na necessidade de embalar tudo com um desfecho que preza pela mensagem edificante da vez, como tantas outras obras infantis já fizeram. Ainda que mantendo seu humor físico como regra, se o diretor optasse por seguir o tom clássico do desenho, poderia fazer algo semelhante ao que foi feito em Uma Cilada Para Roger Rabbit — que permanece ainda hoje a obra definitiva dentre os filmes que misturaram 2D e 3D —, que consegue fundamentar sua própria personalidade enquanto cinema, mas sem descaracterizar os personagens já presentes no imaginário do público, ao mesmo tempo em que poderia reintroduzi-los para uma nova geração com um ar menos genérico. 

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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