Titane

 Titane

Há poucas obras que possuem o poder de tirar o espectador da realidade de forma tão instantânea quanto Titane. Com poucos minutos, a diretora Julia Ducournau — que já havia dado um gostinho do seu cinema no já interessante Raw — cria uma sequência tão intrigante e impactante que é difícil pensar em como a obra irá se desenrolar a seguir. Não suficiente, logo após os créditos iniciais, Ducournau emenda um momento que apenas através da música e da performance física de sua protagonista, diz o suficiente sobre o filme para que o mais indiferente dos espectadores seja pego pelo seu magnetismo. É praticamente um golpe duplo que desarma o espectador para logo depois hipnotizá-lo, de forma simples, mas muito eficaz.

Ducournau consegue surpreender até mesmo o espectador que irá embarcar na obra já imaginando que irá encontrar algo estranho e surrealista. Entretanto, se Raw já apontava a direção para onde as obras da diretora poderiam ir, Titane consegue ir muito além do esperado, trazendo em sua narrativa tons do cinema de David Lynch e, principalmente, David Cronenberg, o que pode ser um choque para o público mais sensível, já que apresenta-se como um brilhante exemplar do body horror, subgênero muito marcante por suas cenas mais explícitas. Ainda assim, resumi-lo desta forma acaba por ser um exercício supérfluo, já que Ducournau cria tantos subtextos que seu filme se torna muitas coisas em uma só, indo do drama ao terror com extrema facilidade.

No centro deste surrealista body horror está Alexia, uma garota que sofreu um acidente ainda criança que lhe conferiu uma placa de titânio junto ao crânio. Já adulta, a dançarina com uma fixação específica por carros e metais é interpretada com intensidade por Agatha Rousselle, que carrega um misto de dureza e fragilidade raramente visto. Rousselle consegue ser assustadora sem criar uma interpretação vilanesca, ao mesmo tempo que cativa uma empatia bastante específica, fazendo o espectador torcer por seu bem nos vários momentos em que Alexia aparenta correr quaisquer perigos. É uma construção peculiar que apresenta uma personagem moldada por um mundo violento, introduzida para o espectador em um cenário abusivo — e dominado por homens — e que, aos poucos, lhe atribui mais e mais humanidade, ainda que nunca a mostre como alguém desumana, monstruosa.

Isso se dá principalmente pela forma como a diretora constrói a narrativa, jamais escondendo para onde está carregando a história, mas utilizando uma atmosfera tão insana que é quase como se o espectador se recusasse a acreditar no que está vendo. Para tanto, vale apontar o bom uso das cores que vestem Titane como se fosse um sonho esquisito, daqueles em que tomamos consciência de que estamos sonhando, mas ao mesmo tempo não sabemos como acordar. Tons exagerados, com amarelo, rosa ou azul banham os personagens nos momentos mais extremos, construindo o inacreditável diante dos olhos do público que precisa digerir tudo aquilo sem parar de assistir. Muito bem escolhidas, as cores do diretor de fotografia Ruben Impens — que também trabalhara em Raw — extrapolam o efeito “rave” da sequência inicial, dando à obra um tom semelhante ao de um videoclipe em que mesmo alguns momentos mais “sóbrios” pincelam a viagem de ácido da primeira dança de Alexia. É como sair da festa para uma realidade de tons frios, mas ainda sentindo os efeitos do que quer que tenha sido ingerido.

Titane solta a mão do surrealismo por algum tempo no segundo ato antes de retomá-lo com força total em seu clímax de sangue e óleo. Nestas sequências, tão contrastantes entre si, Ducournau mostra um grande talento no que tange à escrita mais sensível de personagens, transformando a obra em um drama bastante crível mesmo em momentos menos verossímeis. Sua câmera opta pelo desconfortável, transformando o espectador em um tipo de voyeur junto a diretora, que observa os segredos dispostos em cena, mas nunca compartilhados entre os personagens. Com isso, algumas cenas são levadas ao ápice do desconforto, criando uma sensação de terror mesmo que o público não entenda bem os motivos de estar aterrorizado por elas. É doloroso assistir a construção, bastante meticulosa, das consequências físicas destes segredos, tanto em Alexia quanto em Vincent (Vincent Lindon), ao passo que sua catarse é não menos que brilhante, optando por um viés mais emocional, envolvendo uma dança e um caminhão de bombeiros.

Titane passa por outras temáticas que não são tão aproveitadas pelo filme, mas isso não é bem um demérito. Violência, abuso/assédio sexual, masculinidade tóxica, etc, são pontos que permeiam a narrativa, mas nunca tomam o foco, o que poderia fazer com que a obra se perdesse ao abraçar muitos temas que não seriam tão relevantes para a jornada da protagonista. Entretanto, estes pontos são bem utilizados por Ducournau para enriquecer a trama, seja para aumentar a tensão ou para reforçar a complexidade dos personagens. Além disso, há um debate que pode ser levantado sobre identidade de gênero dentro da obra, mas que talvez seja subaproveitado pela forma como esta é introduzida no filme, já que a temática está pouco atrelada com a questão do gênero em si.

Ainda mais insano que RawTitane não receberá bem aqueles que buscarem uma lógica na obra, racionalizando cada virada. Os que abraçarem o surrealismo proposto, entretanto, encontrarão uma fascinante obra de horror, que permeará a mente do espectador por dias até que ele esteja pronto para digerir o que ver. Isso se, eventualmente, conseguir digeri-lo. No mais, Julia Ducournau consegue criar um filme de tons bastante distintos, resultando em uma experiência única que poucos autores conseguiriam oferecer ao público. Com certeza um divisor de águas, que é completamente magnético, fascinante, estranho e marcante, concluindo ao passo que praticamente convida o espectador mais corajoso a embarcar novamente nesta loucura de viagem. Com Ducournau no volante — ou melhor, por trás das câmeras — eu embarco sem pensar duas vezes. E você?

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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