The House

 The House

É curioso que pouco se fale sobre a arquitetura das casas dos filmes quando o assunto é direção de arte. Geralmente se presta muita atenção em como um ambiente é adornado e como aquilo se comunica com a narrativa, mas a menos que o ambiente em si tenha um papel direto na trama — como em O Iluminado —, tal característica não costuma ganhar tanta atenção do espectador. Eis então, que The House, antologia composta por três segmentos em stop-motion, conectando-as através da ambientação — a mesma casa em épocas diferentes —, praticamente obriga o espectador a prestar atenção neste aspecto, ainda que não seja algo diretamente ligado às três narrativas presentes na obra.

Isso porque, à primeira vista, a ambientação não parece ter alguma interferência dentro das três narrativas contadas, mas sendo o aspecto que conecta os três contos, conduz seus diretores — e o espectador — a imaginar como cada história pode tirar o máximo do cenário. E ainda que cada história tenha um tom levemente macabro, usando elementos do terror e do humor ácido, é justo dizer que apenas o primeiro dos três segmentos é realmente uma obra de terror, conversando mais diretamente com o gênero, enquanto o segundo segmento tem uma atmosfera mais fundamentada no suspense psicológico, e o terceiro em um drama particular. Os quatro diretores — Emma De Swaef e Marc James Roels, responsáveis pela primeira história, Niki Lindroth von Bahr pela segunda e Paloma Baeza pela terceira — dividem-se, então, para contar suas próprias histórias, cada qual com sua própria personalidade, conectadas apenas pelo tom e pelo cenário.

The House

O exercício proposto, então, encontra no incômodo — potencializado pelo ar macabro concebido pelo stop-motion — a chave para despertar o interesse. Como é comum em antologias, há altos e baixos, mas felizmente The House não apresenta uma curva de qualidade tão forte assim, com as três histórias bem equilibradas entre si. Isso ajuda na transição e também faz com que a obra remeta diretamente a livros infantis, encaixando-se no visual animado, mas ao mesmo tempo contrastando com o tom sombrio adotado na obra. O resultado é uma atmosfera bastante peculiar, comparável ao que foi realizado em Coraline e ParaNorman, mas ainda suficientemente distinto graças ao desenvolver de suas narrativas que o trazem para um lugar menos comum.

A primeira história aborda uma família pobre que ganha a chance de ficar na casa do título por um tempo, a convite de um rico arquiteto. Ainda que a filha mais velha da família (dublada por Mia Goth) se sinta desconfortável no local, os pais acabam deslumbrados demais para perceberem as verdadeiras intenções por trás do convite. Já o segundo e terceiro são protagonizados por animais, o segundo por um rato corretor que tenta vender a casa até que um casal interessado aparece, criando uma narrativa com ares “Aronofskyanos”, enquanto o terceiro introduz a gata Rose (voz de Susan Wokoma), dona da casa — agora usada como um hotel — que tenta reformá-la em meio a problemas financeiros e um cenário pós-apocalíptico. Evitando ligações diretas, os diretores podem ser bem criativos em suas respectivas histórias sem preocupar-se em afetar o conjunto da obra.

The House

A liberdade criativa é sentida no decorrer da obra, não apenas no tom particular de cada conto, mas pela sensação de que cada diretor está mais interessado em injetar seu próprio estilo autoral do que, necessariamente construir um conjunto, mas ainda respeitando a locação, cada um à sua maneira. Assim, a casa do título, apesar de ser a mesma em todas as histórias — é o mais próximo que temos de um protagonista em si —, ganha contornos distintos dependendo da sensação que o diretor quer passar — um lugar misterioso e cheio de segredos, ou claustrofóbico, ou esperançoso —, o que atribui à The House um charme próprio em cada uma de suas histórias, mas também evitando que estas soem episódicas ou cíclicas, um problema comum quanto o assunto são antologias.

Além disso, cada segmento evoca sensações diferentes, trabalhando muito bem o lado sensorial do espectador: basta notar como o segundo segmento usa o trabalho de som para provocar uma agonia crescente, que veste perfeitamente sua conclusão antes de partirmos para o terceiro conto. É também este segundo segmento que conta com uma curva mais intensa, representando quase uma descida pela espiral da loucura. Seu final é de arrepiar de tão desesperador e — fazendo jus a história contada — bastante desconfortável. Todas as três histórias, entretanto, poderão mexer com o público de formas diferentes, já que cada uma tem sua própria atmosfera ao passo que cada espectador pode ter sua leitura da obra, o que torna a experiência de The House ainda mais interessante.

O surrealismo de The House explícita que há uma intenção maior de despertar emoções do que necessariamente contar uma história, o que pode ser positivo ou negativo dependendo do espectador. É um exercício válido, que bebe de fontes diversas para apresentar um resultado que, se não é inovador, ao menos soa como um bem-vindo respiro entre tantas outras animações parecem seguir a mesma receita. E neste aspecto, funciona muito bem, já que a assinatura dos diretores que passam pela obra, agradando ou não ao público, não permitirão que este permaneça indiferente com narrativas tão cheias de metáforas e simbolismos. E ao espectador, cabe escolher embarcar — ou não — nessa viagem.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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