Tempo

 Tempo

É curioso observar a necessidade que o ser humano possui de entender o mundo ao seu redor, desde a própria bolha social até a infinidade do universo em que vivemos, qual o nosso propósito, etc. Entretanto, quando nos referimos ao cinema — e arte, no geral —, essa necessidade pode ser tanto positiva quanto negativa, principalmente se tratando de obras que tocam em premissas tão abstratas e filosóficas quanto Tempo (Old), dirigido por M. Night Shyamalan e com roteiro baseado na história em quadrinhos francesa Castelo de Areia de Piérre-Oscar Lévy.

Conhecido por suas reviravoltas marcantes como as vistas em O Sexto Sentido A Vila, Shyamalan conduz seu mais recente terror com toques de fábula — ou seria o contrário? —, através de um interessante suspense que instiga a curiosidade desde os primeiros minutos. De forma bem construída, o diretor vai deixando algumas pistas para que os espectadores mais atentos — ou aqueles que decidam rever a obra já sabendo seu desfecho — possam juntar, criando uma detalhada, mas não óbvia, trilha de migalhas. Há inclusive o costumeiro cameo do diretor, quase indicando a partir de qual ponto o show de estranhezas irá começar.

Tempo

Pouco a pouco, portanto, o diretor constrói sua atmosfera, primeiro apresentando suas peças individuais — e características específicas e marcantes de cada um deles, para que o espectador memorize bem quem é quem — para, na sequência, isolá-los naquele que será o palco principal: a praia. Shyamalan o faz de maneira bastante efetiva, de forma que algumas estranhezas soem propositalmente como furos no decorrer da história. É interessante notar que Tempo nunca soa como algo verdadeiramente inédito — o conceito de tramas que encurralam personagens em um lugar isolado não são novidade —, mas isso está longe de ser um demérito. Pelo contrário, é um senso de estranheza bem-vindo para a peculiar experiência proposta pelo diretor.

Como um bom arquiteto da tensão — sua filmografia em si é prova da capacidade de Shyamalan ao trabalhar com suspense —, o diretor usa um jogo de câmera econômico, mas efetivo. Não é necessário apelar para o explícito para deixar o espectador ansioso, pois o senso de urgência se dá por coisas simples, como o enquadramento pelas costas das crianças enquanto elas falam suas idades — que já não condizem com o envelhecimento de seus corpos — diante de outros personagens que ainda não entenderam a situação. Ao mesmo tempo, há sequências que são potencializadas por linhas de diálogo, como a obsessão de um dos personagens por um filme de Marlon Brando e Jack Nicholson que surge em um momento bastante… Delicado, para dizer o mínimo.

Assim, Shyamalan transforma Tempo em um terror muito mais psicológico do que o esperado, abordando — dentre vários assuntos — a degradação. Degradação das coisas e das pessoas. Do corpo e da mente. O medo e a agonia vão se acentuando conforme fragilidades vêm à tona graças ao passar do tempo, com dois personagens bem inseridos ali para representarem tal paranóia de forma mais direta. O diretor aproveita esses momentos para pincelar algumas críticas que acabam não sendo aprofundadas, mas não soam completamente gratuitas pela forma acelerada que a obra trabalha o desenvolvimento de seus personagens. O enredo, afinal, é tão vítima do tempo quanto eles. 

Tempo

Reflexiva por si só — Tempo é basicamente um estudo sobre a fugacidade da vida humana —, a obra perde apenas no seu terço final, onde o diretor tropeça em uma necessidade questionável de explicar-se demais. Tal qual um ilusionista, Shyamalan parece demasiadamente ansioso para desvendar seu truque diante do público, inserindo uma sequência que soa deslocada do conjunto, como um extenso final alternativo. Uma mudança brusca de tom, que afeta a obra principalmente por tratar-se da conclusão, fazendo com que o encerramento se dê com um tom bastante racional — e expositivo —, em vez de prezar pela poesia construída momentos antes. Além disso, soa até conveniente demais, pois sacrifica um desfecho que seria muito mais ousado ao recusar-se a dar todas as respostas, mesmo que isso pudesse desagradar uma boa parte do público que ficaria sem entender a obra.

Com uma boa construção de atmosfera, Tempo potencializa seus momentos de horror enquanto Shyamalan brinca com o espectador. É uma obra intrigante e bastante memorável que só não faz jus à outros grandes trabalhos do diretor pela execução de sua conclusão, que abre mão dos maiores méritos obtidos em sua jornada. Ainda assim, o olhar único de Shyamalan sobre os temas abordados no filme fazem com que Tempo não seja apenas uma experiência singular, mas também devem fazer com que a obra, ironicamente ou não, envelheça muito bem.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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