44ª Mostra de SP | Suor

 44ª Mostra de SP | Suor

Por trás das vitrines da internet — seja ela no instagram, no youtube, ou qualquer outra rede social — existem pessoas de verdade, com suas inseguranças, medos, traumas. Claro que isso fica escondido, atrás de uma camada de “felicidade fabricada”, impulsionada pelos algoritmos nas redes e a busca por relevância, mas a problemática por trás da vida perfeita nas fotos e vídeos é real. E é justamente esse lado dos influenciadores que o diretor Magnus von Horn está interessado em abordar em Suor (Sweat).

A trama segue três dias da vida de Sylwia (Magdalena Koleśnik), uma influenciadora digital de exercícios e lifestyle fitness. Não tarda para que conheçamos um pouco mais de sua rotina no trabalho, que envolve postagens nas redes sociais e pequenos eventos onde seus seguidores se reúnem para praticar exercícios em conjunto — a personagem ressalta mais de uma vez que o exercício faz suar bastante, daí o título do filme. Nestes primeiros minutos, von Horn deixa claro sua intenção ao mostrar que a personagem está lidando com a repercussão de um vídeo ter viralizado, onde ela havia comentado se sentir sozinha. Ainda que tal atitude pudesse ser visto de forma positiva — admitir algo que lhe faz mal —, o ato é mal-visto justamente por ela mostrar que possui problemas. Em suma, ela sofre consequências por ser vista como uma pessoa comum.

A crítica é bem clara: em um mercado de aparências, a pressão para ser perfeito é grande demais. E partindo deste princípio, von Horn trabalha muito bem o ambiente e os coadjuvantes da obra — no caso, a falta de relevância destes coadjuvantes, já que Sylwia é realmente solitária. O diretor faz com que o espectador seja única pessoa próxima da influenciadora através de planos-detalhe que enquadram o rosto da personagem em mais de um momento do filme. Essa câmera mais intimista ressalta também o pesar da personagem, enquadrando sorrisos ao mesmo tempo em que seu olhar demonstra sua dor, transmitida de forma precisa por Koleśnik.

Perceber como Sylwia se sente é importante, principalmente ao notar como a obra evidencia que mesmo que ela tenha mais de 600 mil seguidores, ninguém realmente a enxerga de verdade. Distanciar o bem-estar da personagem do seu estilo de vida idealizado e aparentemente maravilhoso faz com que Suor abre margens para outros debates, como as consequências da exposição na internet. Há momentos reservados para deixar claro que Sylwia não faz o que faz apenas pela fama, mas sim acreditando em seu propósito de ser uma boa inspiração para as pessoas. Mesmo assim, não parece ser suficiente para criar vínculos verdadeiros, vide uma cena em que ela é abordada por uma seguidora que conversa com ela, desabafa parte de sua vida, mas rapidamente interrompe a influencer quando Sylwia está prestes a desabafar sobre seus próprios problemas.

Desta forma, diretor desconstrói sua protagonista, mostrando-a de acordo com o olhar dessas pessoas. Algumas a enxergam como um ídolo a ser adorado, outras veem apenas um produto ou até mesmo um objeto sexual. Há um acertado uso das cores para compor o desconfortável contraste entre os sentimentos de Sylwia e o que se passa a seu redor, já que a paleta sempre corresponde ao momento e nunca às emoções da personagem. Por exemplo, as cores vibrantes que a cercam enquanto ela mantém as aparências, ainda que claramente mal, são substituídas por cores neutras e mais sóbrias nas sequências mais intimistas — como a cena do jantar em família —, mesmo que Sylwia esteja em um estado de espírito muito mais pleno.

Suor é uma obra efetiva e bastante atual devido a sua temática, mas sua boa construção permite que ele saia da bolha que acompanha mais fielmente os influenciadores digitais de cada dia e converse com outros públicos. Um grande mérito, já que traz consigo boas reflexões, pontuadas pela direção inteligente de Magnus von Horn e pela atuação hipnotizante de Magdalena Koleśnik. Ao despir a digital influencer do mundo colorido e perfeito que a cerca e mostrá-la vulnerável, provoca o espectador que sabe quão fácil é estar na internet e esquecer do ser humano que está por trás daquela foto do instagram ou daquele vídeo no youtube.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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