Soul

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Para aqueles que cresceram acompanhando a Pixar, é interessante notar sua curva de qualidade — ou de aprendizado, como preferir —, que envolve alguns bons anos de ouro revolucionando a indústria de animação para, eventualmente, cair na mesma armadilha que qualquer outro estúdio de Hollywood cai em algum momento: a proeza das continuações sem o mesmo brilho de outrora. Ainda assim, na última década, o estúdio entregou uma boa dose de obras-primas — ainda que deixasse alguns patinhos feios pelo caminho — e chega, enfim, a um de seus filmes mais distintos: Soul, que representa muito bem a atual fase do estúdio, sendo um misto de boa animação, personagens carismáticos e uma história totalmente filosófica e emocional.

Soul, entretanto, está longe de ser a primeira empreitada da Pixar nesse cinema mais introspectivo. É até possível dizer que o estúdio sequer está fazendo filmes infantis, embora as crianças possam assistir e dar boas risadas com as desventuras vividas por Joe (voz original de Jamie Foxx) e 22 (Tina Fey). Não, este tipo de cinema é o mesmo que pode ser observado em obras como Toy Story 3, Divertida Mente e Viva: A Vida é uma Festa, filmes que trazem um bom entretenimento e uma dose de reflexão para os pequenos, mas que de fato irão tocar o público adulto, que poderá captar nuances que o público infantil talvez não tenha maturidade para enxergar. No caso de Soul, isso fica ainda mais evidente, pois são os adultos que lidam com as angústias mostradas no filme e, consequentemente, estes que irão sair impactados — talvez transformados — pela trama.

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Pete Docter, em sua quarta empreitada na Pixar — o diretor foi responsável por Monstros S.A., Up: Altas Aventuras e o já citado Divertida Mente — demonstra estar bastante à vontade no comando, co-dirigindo a obra ao lado do diretor Kemp Powers. Não à toa, Soul traz algumas semelhanças com Divertida Mente, principalmente ao abordar conceitos completamente abstratos — o filme anterior tem um momento específico apenas sobre o pensamento abstrato, que é uma das melhores cenas do filme — de forma lúdica e de fácil entendimento para o público — estamos falando de um entretenimento, afinal de contas —, algo realizado com o devido cuidado e sendo relativamente bem-sucedido em uma empreitada tão complexa. Não é fácil, afinal, encaixar questionamentos tão profundos quanto “qual o propósito da vida?” em uma animação de 90 minutos.

Ainda assim, cabe apontar que Soul nunca deixa o campo do abstrato verdadeiramente. Se a obra que trata das emoções humanas soube muito bem traduzir conceitos como a construção de uma personalidade, a criação das memórias e até como os sonhos acontecem, Soul opta por deixar mais para a imaginação/interpretação do espectador. É uma opção válida para a narrativa — que como dito, é bem mais complexa e filosófica neste caso —, mas ao permitir que suas “regras” sejam nebulosas, o roteiro escrito por Docter, Kemp e Mike Jones se prejudica, principalmente no terceiro ato, quando a resolução do conflito principal soa um tanto apressada e fácil demais. Entretanto, como tal resolução depende muito da interpretação do espectador — e sua própria perspectiva de vida após a morte —, essa impressão torna-se bastante subjetiva e deve variar de pessoa para pessoa.

Soul

Esse sentimento — de subjetividade — no geral é utilizado pelos diretores para beneficiar a narrativa, que usa e abusa das próprias expectativas geradas para criar uma experiência sensorial intrigante, que começa antes mesmo do filme iniciar propriamente, logo na intro da Disney com a trilha reinterpretada como a música jazz, mas totalmente desafinada. Da mesma forma, o primeiro ato gera algumas expectativas que são subvertidas em uma virada que não apenas é bem-vinda, mas super importante na questão de representatividade — uma vez que a maioria dos personagens são negros —, além da própria construção do universo das almas, que é bastante interessante e abre margem para os animadores trabalharem estilos de animação pouco ou nunca explorados no estúdio — basta dar uma olhada no design das “almas” e dos “Zé’s”. Fora todo o trabalho de som que é um dos mais incríveis do estúdio, tanto na trilha quanto nos efeitos sonoros.

É interessante observar como Soul compõe um bom conjunto ao lado de Divertida Mente e Viva: A Vida é uma Festa — quase uma “trilogia do ser”, explorando a mente, a morte e agora a alma —, sendo provavelmente o mais filosófico dos três, mas não menos emocionante. Pete Docter leva o público em uma jornada ao campo mais profundo do ser, não se contentando em realizar uma experiência super imersiva, mas oferecendo uma reflexão totalmente particular para o espectador. E se nenhum aspecto técnico — por melhor que seja — supera a força da mensagem apresentada, é ainda mais belo de se constatar que não haveria um título melhor para Soul, já que a palavra que não apenas traça um paralelo com o gênero musical, mas condiz muito bem com um filme que tem, acima de tudo, alma.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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