Somente Para Seus Olhos

 Somente Para Seus Olhos

Se os filmes de Roger Moore já tinham praticamente assinado a declaração de que agora a franquia seria apenas uma autoparódia de si própria, Somente para Seus Olhos (For Your Eyes Only) veio para dizer o contrário. Ao menos é o que o diretor John Glen afirma através de usa obra, que começa com a mesma atmosfera cômica de outrora, mas aos poucos redireciona seu tom para algo que, se não totalmente sério, ao menos é mais próximo dos primeiros filmes da franquia. E já não era sem tempo, afinal, depois da megalomania espacial do chatinho 007 Contra o Foguete da Morte, a franquia precisava ajeitar seu rumo.

Glen, por sua vez, aproxima seu Somente para Seus Olhos do tom mais “aventuras de férias” do Bond, dessa vez com sequências na praia, na neve e nas montanhas. Felizmente, isso sequer chega a ser um problema, principalmente pela qualidade das cenas de ação — a perseguição dos carros é bem divertida, mas a sequência que insere o espião em uma “olimpíada de inverno” é a melhor do longa —, que traz consigo momentos cômicos pontuais que, diferente de tantos outros, cabem bem onde são inseridos. Tais momentos também funcionam para ditar o ritmo do filme, que funciona melhor que no anterior, ainda que o enfoque dado a personagens secundários prejudique o andamento da conclusão.

Este tom mais sóbrio, surpreendentemente, também acaba vestindo muito bem a personalidade recém-alcançada de Roger Moore no papel. Seu Bond, que já transitou entre o boneco Ken arrumadinho e o engraçadinho-sem-graça, agora encontra uma trama que abre espaço para suas tiradas, mas que ao mesmo tempo funciona bem quando o ator precisa dividir os holofotes com outros personagens e acaba em menor destaque. Desta forma, Moore não sofre tanto quanto em filmes anteriores em que sua presença é pouco sentida, mas também não precisa de diálogos verborrágicos para “forçar” sua marca.

Entretanto, Somente para Seus Olhos peca muito em matéria de coadjuvantes e antagonistas. Mesmo as mulheres que fazem companhia para Bond não são tão marcantes, ainda que a contextualização para a inserção de Melina (Carole Bouquet) na trama seja bastante interessante. Já o antagonista — não entrarei em detalhes sobre sua identidade aqui —, peca por manter a tradição do vilão que não impõe ameaça, possivelmente sendo um dos mais esquecíveis da franquia até aqui, já que não possui nenhum traço marcante, seja em sua aparência, em seus planos ou até mesmo em seu nome, que não tem a mesma sonoridade de um Dr. No ou Goldfinger.

Essa falta de características marcantes, inclusive, estende-se à trama, já que não existe uma narrativa realmente emblemática para ancorar as já citadas boas cenas de ação. De fato, não fosse por 007 Contra o Foguete da Morte ser um filme que chama tanto a atenção de forma negativa, talvez esse aspecto de Somente Para Seus Olhos soasse ainda pior, mas diante de seu predecessor, sua história ser tão contida é quase um mérito. Quase. Felizmente, indo na contramão de quase tudo no filme, está a canção entoada por Sheena Easton, com um ar mais romântico que combina bem com o desenvolvimento de Bond e Melina, que não puxa para um lado tão diretamente sexual como é com outras Bondgirls da franquia.

Ainda que não esteja mais próximo da ala inferior da franquia, Somente Para Seus Olhos ao menos se consagra por não se tornar uma obra marcante por fatores negativos e ostenta bons méritos, principalmente no que tange à direção de Glen nas sequências de ação. No mais, esta é uma obra divertida, com um tom mais sóbrio que é bem-vindo à franquia, mas cuja narrativa ainda deixa a desejar.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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