Shiva Baby

 Shiva Baby

Interessantíssimo durante cada minuto de sua curta duração, é curioso como Shiva Baby mostra-se um exercício de gênero logo antes do término de seu primeiro ato. Transitando entre a comédia e o drama, a diretora Emma Seligman filma tudo como se fosse, de fato, um filme de terror psicológico com uma bem construída atmosfera claustrofóbica. E se a câmera de Sligman que trata de percorrer os rostos das pessoas enquanto encolhe cada vez mais sua protagonista, a trilha sonora composta por Ariel Marx — que remete ao Corra de Jordan Peele, apenas para citar uma produção recente — não deixa dúvidas quanto ao gênero da obra.

Não há um ser humano que não vá se identificar com a narrativa de Danielle (Rachel Sennott). Não necessariamente por sua personalidade e experiências, mas pelo fato de que o processo de adolescência é praticamente universal. Isso inclui sentir-se desconfortável, deslocado e com medo do futuro, além de precisar lidar com questões pessoais como relacionamentos e a pressão dos pais — e da sociedade — para amadurecer e construir uma carreira, mesmo que a pessoa ainda não tenha em mente tudo que é necessário para tomar uma decisão concreta tão importante quanto esta. E no caso de Danielle, ela e sua família ainda são parte de uma comunidade judaica, onde não é incomum haver pessoas mais conservadoras e que, neste caso, acabam funcionando como uma extensão na família da garota, induzindo uma pressão ainda maior.

É divertido e desesperador assistir como Seligman constrói camada a camada o cenário da obra. Primeiramente introduzindo os pais da protagonista (vividos por Polly Draper e Fred Melamed) em um verborrágico momento e em seguida trazendo aos poucos outros personagens ou situações que acumulam-se sobre a Danielle em um curto período de tempo durante um shivá, período de luto no judaísmo. É curioso atestar que embora o espaço em que Shiva Baby se passa é consideravelmente grande, a claustrofobia se estabelece rapidamente de forma que Danielle encontra-se presa no ambiente sem estar confinada de forma literal. O que chega a ser assustador já que a câmera de Seligman está constantemente contemplando portas e janelas que apesar de tão perto, soam inalcançáveis.

Não fosse assustador, seria tragicômico. Muito disso pela forma como Seligman estrutura os diálogos do filme, criando uma decadente espiral de desespero que arrasta a protagonista consigo. Há poucos minutos do filme em que Danielle não esteja se defendendo de algum comentário ou encoberta por uma ou mais pessoas no plano, de forma que o espectador possa senti-la sendo sufocada e diminuída em cena. Existe o riso, sim, mas é um riso incômodo, daqueles que surgem quando a pessoa não sabe para onde olhar em uma situação desagradável. É o suprassumo da vergonha-alheia em que mesmo os pequenos porto-seguros estabelecidos pela diretora são tirados de cena em momentos-chave, tornando tudo ainda mais desesperador e estabelecendo um clímax onde parecia impossível, já que a tensão permeia a obra do começo ao fim.

Esses conflitos são trabalhados muito bem através do suspense, que torna-se mais delicado a medida conforme algumas interações ocorrem naquele microcosmos, principalmente as que ocorrem com Maya (a incrível Molly Gordon) e com Max (Danny Deferrari). Pequenos diálogos mergulhados em subtextos e intensificados pela direção, ora pela câmera instável, ora pela trilha sonora e mixagem de som — uma jogada de mestre trazer para dentro da história um bebê, pois se sua presença já não fosse elemento-chave para a narrativa, ainda há poucos sons mais torturantes do que o choro de uma criança — que dão a sensação de estar assistindo a um elástico sendo esticado ao máximo: sabemos que uma hora ele vai ceder e arrebentar. E assistir o “não-arrebentar” enquanto o limite parece estar sendo ultrapassado mais e mais é o que mais enlouquece.

Shiva Baby

Para não levar sua obra aos limites e consumir muito rápido todo o potencial, Seligman distribui momentos de respiro bem colocados no decorrer dos 77 minutos que compõem Shiva Baby, como o momento em que Danielle e Maya conversam fora da casa por alguns instantes. São pausas que funcionam para que o próprio espectador possa se recuperar antes de ser levado por mais uma sequência de momentos que desafiam os limites anteriores, empurrando a narrativa para um campo quase fantasioso, mas com cuidado em sua construção para não destruir a tão bem construída atmosfera. Não à toa a diretora consegue surpreender o espectador ao subverter um momento em que um novo respiro parece se aproximar, com destaque para um jogo de câmera esperto e uma atuação assustadora de Molly Gordon, que fortalecem a virada para o intenso e ácido ato final.

Para uma diretora praticamente estreante — antes do longa, ela havia dirigido apenas dois curtas, sendo um deles o precursor homônimo de Shiva Baby —, Seligman surpreende por demonstrar um controle tão interessante sobre sua técnica sem perder-se em suas intenções. Ainda que pincele algumas subtramas, a diretora não perde de vista a narrativa que a interessa e evita por em xeque o desenvolvimento de sua protagonista. Não há espaço para lidar com personagens secundários e suas motivações para decisões estúpidas, pois o foco é Danielle e sua angustiante passagem pelas horas em que a acompanhamos, algo que a diretora faz com um deleite inacreditável, resultando em um filme de terror travestido de tragicomédia. Ou o inverso.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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