Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

 Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Um dos aspectos mais interessantes da mitologia dos quadrinhos — principalmente ao nos referirmos ao eixo Marvel/DC, que possuem mais de 80 anos de histórias — é observar como aquele mundo fantástico se desenrola, criando suas próprias expansões e ramificações que constroem, a grosso modo, um universo criativo infinito. Cronologias extensas — e por vezes confusas —, localizações fictícias e regras que muitas vezes só fazem sentido para o leitor que visita estas narrativas há algum tempo, são parte intrínseca dessa mídia, que só consegue seguir desta forma por sua longevidade trabalhando com os mesmos personagens. Dito isso, é divertido notar o esforço que o Marvel Studios possui para não deixar sua narrativa se perder ao passo que, inevitavelmente, segue expandindo seu universo, cada vez com pouco mais liberdade criativa que antes.

O mais novo resultado desta empreitada é o épico Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings). Já que seus primeiros minutos carregam certa grandiosidade, coisa que tem sido cada vez mais comum aos filmes-solo do universo Marvel. Aqui, com ares de Pantera Negra, o diretor Destin Daniel Cretton abre sua obra contando a lenda de Xu Wenwu (Tony Leung) e seus dez anéis, artefatos místicos que lhe confere poderes, tornando-o uma ameaça milenar. Logo Cretton desenrola a lenda até encontrar seu protagonista, vivido por Simu Liu, na São Francisco dos tempos atuais.

Esse trabalho com a mitologia da obra é, possivelmente, o maior diferencial narrativo de Shang-Chi, não apenas funcionando como uma nova expansão do universo Marvel — as últimas vezes que vimos isso de forma significativa foi com o Wakanda no já citado Pantera Negra e com o reino quântico em Homem-Formiga e a Vespa —, mas também como o verdadeiro pontapé para a fase 4 nos cinemas. Sua ambientação funciona também para dar o tom necessário à obra, que não apenas conta com um elenco majoritariamente asiático, como presta homenagem para o cinema de artes marciais — hollywoodiano ou não — que com certeza o espectador já teve contato em algum momento.

Alguns dos confrontos, por exemplo, desafiam a física comum com movimentos leves, com os personagens praticamente flutuando no ar enquanto desferem os golpes, característica comum em obras conhecidas como “wire fu” — devido o uso de arames para possibilitar o movimento específico dos atores em cena — como O Tigre e o Dragão e outras que bebem desta fonte, como Matrix e Kill Bill, apenas para citar dois títulos mais óbvios. É também inspiração para o trabalho de Joel P West, cuja trilha evoca a cultura chinesa e seus filmes de artes marciais, ao mesmo tempo que encaixa tons de hip-hop na composição, encaixando-se perfeitamente em uma narrativa que traz ares de cinema wuxia ao passo que atualiza diversos de seus elementos, inclusive simbolizando a mútua influência entre a cultura hip hop — tipicamente americana — e a cultura asiática. Há até mesmo espaço para que o compositor insira notas que remetem ao tema dos Vingadores composto por Alan Silvestri, mas sem perder a identidade, criando algo único a partir da mistura de camadas.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Este cuidado na identidade é algo bastante relevante para que Shang-Chi possa alcançar o público sem ser somente mais um capítulo na longa narrativa proposta. E de fato, apesar da história possuir traços diegéticos usados à exaustão — quantas vezes mais a Marvel irá criar conflitos entre o herói e sua figura paterna? —, também há aspectos narrativos ou visuais que são suficientes para que a obra não soe como uma simples reciclagem do que já deu certo. Mesmo as necessárias incisões do MCU que estão presentes em todos os filmes são bastante comedidas aqui. De fato, talvez o único momento que Shang-Chi perca parte de seu brilho seja durante o clímax, que embora seja visualmente rico — principalmente no que tange à fauna folclórica que transita pelos cenários —, traz uma megalomania que vai de encontro ao desenvolvimento mais simples, mas mais interessante, da primeira metade.

Tal força da primeira hora do filme se dá principalmente por seus personagens. Simu Liu interpreta um protagonista suficientemente carismático, mas sem toda a caracterização iconográfica a qual estamos acostumados, aproximando-se mais de personagens que, embora poderosos, desejam viver o curso de sua vida de forma simples até que o chamado para a aventura se apresenta. É uma jornada do herói tradicional, mas que faz bem à obra por fugir ao padrão do MCU. Seu conflito surge com o passado do qual tenta fugir, personificado na figura de Xu Wenwu, seu pai e líder criminoso da organização Os Dez Anéis. Não sendo retratado como um vilão padrão, Wenwu é muito mais um homem assombrado por seus próprios demônios do que a figura antagônica esperada.

Sua presença oferece inclusive uma sutil releitura sobre o Mandarim de Ben Kingsley no polêmico Homem de Ferro 3 — que infelizmente não tarda para se tornar um problema na obra, através de um alívio cômico bastante destoante do tom do filme —, mas o que faz o vilão ser realmente intrigante é a interpretação de Leung. Com uma presença enorme em cena, é impossível permanecer indiferente à interpretação do ator, que traz no olhar, na voz e na linguagem corporal uma complexidade sem igual, que realmente convence de que sua existência e sabedoria são milenares. Sem dúvida, é uma das grandes atuações presentes em um dos filmes do estúdio. Além da dupla, a icônica Michelle Yeoh (de O Tigre e o Dragão) tem seu momento para brilhar como a tia e mestra do protagonista, enquanto Meng’er Zhang destaca-se como Xu Xialing por possuir um arco dramático próprio e tão interessante quanto ao de Shang-Chi. E é praticamente impossível descrever o acerto que é a presença de Awkwafina como Katy, melhor amiga do herói e que rouba todas as cenas em que aparece. Há algum tempo que um coadjuvante/alívio cômico não havia sido tão acertado na Marvel.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Cenas de ação incríveis de acompanhar — como uma sequência de luta bem dirigida faz diferença, não? —, uma boa narrativa com bons personagens e uma carga cultural riquíssima fazem de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis um filme introdutório bastante distinto, ainda que possua uma estrutura de roteiro e vícios narrativos familiares para quem acompanha a jornada dos heróis do estúdio. É uma obra divertida por si só, que não exige que o espectador lembre de cor todos os detalhes daquele universo, pois introduz novos elementos à medida que incorpora outros já apresentados de forma bastante natural, dando espaço para desenvolver algumas tramas para o futuro sem apelar para o óbvio — mesmo o público mais familiarizado com as produções Marvel Studios pode se surpreender — e sem perder de vista o mais importante: sua própria história.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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