Sem Tempo Para Morrer

 Sem Tempo Para Morrer

Engana-me uma vez, engana-me duas vezes. Você é a morte ou o paraíso? Agora nunca mais me verá chorar, pois não há tempo para morrer.

No Time to Die, Billie Eilish

É divertido analisar cada uma das fases de James Bond observando a influência exercida sobre o cinema da época. Se na década de 90, o sexismo inerente do personagem já era reconhecido dentro da própria franquia, a era de Daniel Craig no papel trouxe uma autonomia inédita para a obra, além de reformular toda sua identidade enquanto filme de ação e enquanto franquia em si, pois pela primeira vez o espectador não iria acompanhar o agente britânico de forma episódica, já que os produtores e diretores dos filmes se propuseram a construir devidamente um arco dramático para o personagem. Desde Cassino Royale, James Bond foi apresentado como um personagem muito mais humano, de várias camadas, inclusive exibindo um lado frágil que nunca havia sido explorado tão a fundo. E com Sem Tempo Para Morrer (No Time to Die), a era de Craig no papel chega ao fim e traz consigo algo inédito para a franquia em seus quase 60 anos: uma conclusão.

Após Martin CampbellMarc Forster e Sam Mendes passarem pela era Craig, coube à Cary Fukunaga a tarefa relativamente árdua de concluir a atual saga do agente britânico, que fora construída à medida que as obras iam ocorrendo, ou seja, sem necessariamente uma intenção de terminar em Sem Tempo Para Morrer. Com isso, embora apresente-se como um fechamento satisfatório, a obra traz uma sensação de alguns improvisos, com algumas conclusões apressadas e elementos que, introduzidos a esta altura na história, não possuem o devido espaço para se desenvolverem. E ironicamente, se escolheram terminar a história com um dos filmes menos “filme de James Bond” da franquia — em diversos aspectos —, são estas mesmas características que fazem com que o vigésimo-quinto Bond estabeleça a si próprio como uma parte reconhecível da franquia, já que traz em sua estrutura o mesmo sentimento passado por uma aventura clássica do agente, onde existe um planejamento, mas também espaço para contornar adversidades, requerendo uma boa dose de improviso para fazer dar certo ao final.

Sem Tempo Para Morrer

Há, portanto, um grande espaço dedicado à costurar tramas do passado, o que justifica em partes a longa duração do filme — 163 minutos, o mais longo até então —, trazendo detalhes diversos que farão sentido para tanto os fãs mais recentes — que embarcaram na franquia junto de Daniel Craig — quanto para os mais antigos, que irão se divertir com uma ou outra referência esperta. Diferente de outros fechamentos recentes no cinema, entretanto, Sem Tempo Para Morrer depende menos de easter-eggs e mais do apego para funcionar, devido sua construção ser desde os primeiros minutos até a cena final — e passando pela belíssima canção de abertura da vez, entoada por Billie Eilish — uma despedida carinhosa à seu ator principal, ao passo que celebra estes anos dedicados ao personagem. Algo à altura da entrega realizada por ele, já que não apenas Craig precisou lidar com uma rejeição imediata dos fãs à sua escalação como 007 — e surpreendendo muito positivamente a estes — como também fora pelas suas mãos que Bond alcançou seu meio século, comemorando 50 anos com o lançamento de Skyfall em 2012.

Sem Tempo Para Morrer retoma a jornada do agente continuando de forma imediata o final da obra anterior. Assim, sua sequência inicial — pré-créditos, como sempre — leva o espectador para a Itália, onde Bond e Madeleine (Léa Seydoux) estão vivendo um momento à dois. Não tarda, é claro, para que o passado bata à porta e arraste o agente de volta ao jogo, colocando-o no caminho de um antagonista que possui ligações com o passado de Madeleine, mas também com a organização Spectre. Este início já deixa claro o peso emocional buscado pelo roteiro, escrito e revisado por diversos roteiristas — incluindo o próprio Fukunaga e também Phoebe Waller-Bridge —, transformando a trama da vez em algo muito mais pessoal do que as aventuras padrão do agente. Isso, somado ao desenvolvimento dos personagens secundários, dá um tom um tanto “intimista” para a obra, que recebe com carinho coadjuvantes icônicos — o Q de Ben Whishaw e a Moneypenny de Naomie Harris, por exemplo —, ao passo que os novos personagens pincelam a narrativa sem tomar o espaço para si. Afinal de contas, como já dito, o palco é todo de James.

Sem Tempo Para Morrer

Esse tom mais pessoal, mais intimista, perpetua a obra mesmo quando esta flerta com seu lado mais megalomaníaco, faceta comum de 007 que geralmente é trazida pelos vilões e seus planos de dominação global, extinção global, etc. Isso graças ao texto que amarra bem o antagonista — vivido pelo fraco Rami Malek — à outros personagens, compensando uma performance que falha em impor a ameaça necessária para o escopo construído. Tanto Malek quanto os capangas que surgem na narrativa, ou possuem ligações ou infligem consequências diretas a Bond ou seus aliados, sendo impossível desassociar suas ações dos personagens, mesmo que em grande parte da obra fique uma sensação de que Bond está correndo contra uma ameaça sem rosto, como se não existisse um personagem em si para personificar o antagonismo da vez. O mesmo pode-se dizer da Spectre, cuja função narrativa parece ser apenas surgir em cena para ter sua história encerrada, não apresentando grande importância para a obra e arriscando até mesmo a criar uma incômoda barriga de roteiro. Felizmente, a montagem da dupla Elliot Graham e Tom Cross e a presença de Ana de Armas tornam palatável toda a sequência envolvendo a organização, dando-lhe um ótimos ritmo e tom. Inclusive, uma pena que a cubana não faça a vez como a Bondgirl principal da obra, já que rouba a cena em seus poucos minutos como a carismática Paloma.

Se Rami Malek ao menos tem alguns aspectos para apoiar sua presença — a linguagem corporal e figurino, e também a forma como bota seu plano em prática, remetem ao vilão Dr. No, primeiro a ser enfrentado por Bond na franquia —, o mesmo não se pode dizer de Nomi, personagem Lashana Lynch. Infelizmente, a nova agente 00 que gerou grande expectativa em parte do público acaba não sendo tão marcante quanto Paloma, mesmo com muito mais tempo de tela quando comparada à personagem de Ana de Armas. O fato é de que foi escolhido um momento não muito propício para a introdução de Nomi, que embora esbanje potencial, tem seu desenvolvimento muito atrelado ao do protagonista, nunca mostrando realmente a que veio, embora tenha relevância em diversos pontos da narrativa, incluindo o clímax. Sem conseguir uma “independência” e com as atenções voltadas à James, Lynch é demais para ser chamada “apenas” de Bondgirl, mas não o suficiente para sair da sombra de 007, o que é uma pena por todo o contexto que a atriz carrega, sendo a primeira agente 00 mulher — e negra! — a aparecer em 25 filmes da franquia.

Sem Tempo Para Morrer

Como já dito, apesar de sua duração extensa, Sem Tempo Para Morrer faz bom uso da montagem, conseguindo não apenas ditar um bom ritmo — há poucos momentos que a obra parece descansar para recuperar fôlego, embora estes sejam relativamente importantes na narrativa para o desenvolvimento do núcleo Bond-Madeleine —, mas delinear cautelosamente o segundo e terceiro atos, atribuindo um efeito de previsibilidade do desfecho, visto que algumas decisões — relativamente ousadas — limitam os cenários no qual a obra possa se encerrar, sendo que todas as possíveis conclusões levariam Bond a um status-quo inédito. São nestas decisões mais ousadas que é possível sentir a presença de uma roteirista na obra, norteando o desenvolvimento e conclusão pela presença de Madeleine, mas — ainda — ecoando a presença de Vesper Lynd (Eva Green). Sem estas duas personagens e a devida importância de ambas nesta história, tal desenvolvimento poderia soar brusco, forçado. Felizmente, é o inverso, já que a construção dada ao personagem não apenas muda o tom de suas aventuras como tem força o suficiente para dar o tom do futuro da franquia, construindo coadjuvantes femininas muito mais interessantes que as de outrora e que funcionem na narrativa sem serem meros artifícios, mas potencializando a obra como um todo.

Sem Tempo Para Morrer é uma obra distinta para a franquia 007. Não poderia ser diferente, pois finaliza uma fase que desde seu primeiro minuto subverte mais aspectos do que se esperaria de um filme de James Bond. Bond 25 fecha com louvor uma narrativa iniciada em 2006 — a primeira a ter início pós-Torres Gêmeas — e traz com êxito o “dinossauro sexista e misógino” para novos tempos, sob novos olhares e com ameaças que seriam inimagináveis há 20, 30, 40 anos atrás. Essa hábil mistura de presente e passado cria um contraste divertido, que os melhores filmes da fase — Cassino Royale, Skyfall e este último — sabem utilizar para evitar que os filmes sejam resumidos a boas cenas de ação — por sinal, algo que Fukunaga faz muito bem, criando momentos épicos de ação, sempre pontuados pela excelente trilha de Hans Zimmer, em sua primeira contribuição para a franquia —, mas sim olhando com carinho para um lado narrativo que muitas vezes ficou em segundo plano. Uma conclusão distinta para uma narrativa distinta que se destaca dentro da própria história da franquia como uma trama com começo, meio e fim. E um desfecho mais que digno, que deixará saudades do atual Bond. James Bond.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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