Rua do Medo: 1994 — Parte 1

 Rua do Medo: 1994 — Parte 1

A busca incessante pela originalidade é uma armadilha tola para qualquer cineasta hoje em dia. Em uma época que todas as boas ideias aparentemente já foram trabalhadas, buscar por uma premissa revolucionária e inédita acaba por ser um exercício fútil. Não é incomum, portanto, surgirem obras totalmente competentes em criar boas histórias, sabendo misturar referências anteriores com o desenvolvimento de personagens carismáticos. Rua do Medo: 1994 — Parte 1 (Fear Street Part One: 1994), primeiro de uma trilogia baseada nos livros de R. L. Stine — autor da série Goosebumps —, é um desses casos.

De certo modo, o que a diretora Leigh Janiak realiza aqui é uma colagem de clichês retirados de filmes de terror dos anos 90 — como evidenciado pelo título —, mais especificamente do subgênero slasher, em uma trama um tanto quanto familiar, mas que ao mesmo tempo subverte um ou outro clichê. Temos os protagonistas adolescentes e inconsequentes, assassinos mascarados e uma dose generosa de sangue, mas também um casal lésbico no centro da história e elementos sobrenaturais utilizados para embasar uma mitologia logo de cara. Afinal, diferente dos slashers de outrora que criavam sua mitologia com os anos — e infindáveis continuações —, aqui a obra já nasce com franquia pronta.

Rua do Medo: 1994

Ou seja, se Rua do Medo: 1994 tem acertos suficientes para ser divertido — e é, bastante —, o roteiro acaba se auto sabotando em pontos distintos da narrativa para distribuir informações relevantes para a trilogia. Não basta, por exemplo, citar a história de Sarah Fier, a bruxa de Shadyside que foi enforcada e busca vingança, é necessário que o ritmo cesse para que um personagem explique — mais de uma vez — sobre isso. Nesta fixação de deixar tudo muito explicado, a obra chega a contradizer a própria narrativa, vide a sequência de introdução que perde sentido diante das informações obtidas na virada para o ato final. Ou mesmo a quantidade de músicas que tocam nos primeiros 30 minutos do filme, como que tentando evitar que o espectador esqueça da época em que o filme se passa.

Ironicamente, nenhum desses problemas chega a prejudicar o filme de fato, pois felizmente Rua do Medo está longe de querer se levar a sério. Provavelmente por consciência das limitações de sua produção, Janiak opta por abraçar as inconsistências — que tantas outras obras do gênero também possuem — e transformá-las em parte da identidade do filme. Isso permite que a diretora se concentre nos pontos fortes, como os arquétipos do gênero que podem ser utilizados de forma clichê — uma homenagem pura e simples — ou subvertidos, de modo a se adaptar aos tempos atuais e também surpreender o público, como é o caso do assassino com trejeitos humanos — como tropeçar ao correr atrás das vítimas —, tal qual Ghostface, da franquia Pânico. A referência é clara, mas permite espaço para surpresas conforme a ameaça principal é desenvolvida.

Rua do Medo: 1994

Outro aspecto que joga a favor do filme é a atmosfera construída, muito mais inocente do que os exemplares atuais do gênero. Em tempos que a grande maioria dos filmes de terror usam o horror como catarse para um tema mais profundo, uma obra que traz o medo pelo medo é, curiosamente, bastante acolhedora. É um tipo de nostalgia diferente daquela evocada pela trilha sonora ou pelo design de produção e que veste muito bem o filme, tornando-o devidamente datado, mas de forma positiva, como se tivéssemos o escolhido em uma prateleira de locadora e não na vitrine de um streaming. E ao mesmo tempo, entrega tudo isso nas mãos de uma geração mais nova, que possivelmente não teve um contato tão próximo com o cinema de gênero da época, e pode acabar se interessando em buscar a origem das toneladas de referências.

Muitíssimo divertido, Rua do Medo: 1994 — Parte 1 sabiamente evita tentar equiparar-se aos slashers clássicos, preferindo assumi-los como inspiração e abraçar os vícios que marcaram alguns dos melhores títulos dentro do subgênero. Infelizmente abre mão de consolidar uma identidade própria já nos minutos finais, optando por um desfecho exagerado e cafona — e que beira a um episódio de série — que incomoda, mas não antes de cativar atenção suficiente para a segunda parte. É uma mudança de prioridade na hora errada, desvalorizando a imersão e tornando a experiência incompleta. Uma aposta alta, que condiciona seu valor à qualidade de outras duas obras, pois alguns minutos a menos e o resultado aqui teria sido muito mais marcante. E agora, nos resta aguardar.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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