Rua do Medo: 1978 — Parte 2

 Rua do Medo: 1978 — Parte 2

Partes “do meio” costumeiramente sofrem ao ter que lidar com uma narrativa sem começo ou final propriamente ditos, principalmente quando se trata de uma obra já concebida enquanto trilogia. Curiosamente, após um primeiro filme que impõe limites a si próprio — para priorizar a narrativa em três partes —, este segundo “episódio” de Rua do Medo: 1978 — Parte 2 (Fear Street Part Two: 1978) até que lida bem com tais dificuldades. E faz até o que poderia ser impensável a princípio: se sobressai, em qualidade, ao trabalho realizado na parte 1.

Em 1978, somos apresentados à narrativa em flashback contada por C. Berman (Gillian Jacobs), personagem que teve um pequeno papel no desfecho da parte anterior e que sobreviveu ao massacre ocorrido no acampamento Nightwing. Com novos personagens e uma nova ambientação, a continuação estabelece uma identidade própria, ainda que atuando dentro do modus operandi do primeiro. Ou seja, apesar de possuir certa liberdade criativa, segue as regras do subgênero e época a que faz referência. Se antes, Fear Street cravava seus pés na homenagem à Pânico e outros slashers dos anos 90, agora a narrativa evoca ares de Sexta-Feira 13.

Talvez o grande acerto de Leigh Janiak — que retorna à cadeira de diretora e roteirista do projeto — seja oferecer uma obra menos dependente da narrativa maior e, portanto, menos limitada por esta. Além disso, se antes era necessário que a narrativa criasse certos respiros para explicar a mitologia, em 1978 tudo flui de forma melhor, mesmo quando o roteiro sente a necessidade de ser um pouco mais expositivo. O resultado não apenas possui um ritmo muito melhor, como rende uma narrativa mais divertida e urgente do que antes, ainda que — aparentemente — já saibamos o desfecho desta história.

Rua do Medo

Com uma menor preocupação em trabalhar a fundação da mitologia e situando a noite de terror em um espaço limitado, Janiak potencializa o sentimento de perigo que permeia a obra. Afinal, o espectador se vê confinado junto aos protagonistas e as inúmeras vítimas em potencial — que diferente de antes, estão em maior número — em um lugar só. É um interessante contraponto ao filme anterior, onde os protagonistas transitavam pela cidade com maior liberdade para fuga, enquanto aqui temos um cenário mais claustrofóbico. Estes elementos contribuem para manter a atmosfera atraente, não permitindo ao espectador focar-se em aspectos da trama que poderiam enfraquecê-la. A prioridade, afinal, é a sobrevivência.

Assim, 1978 também funciona bem na construção de sua própria identidade. Obras como O Massacre da Serra Elétrica e Sexta-Feira 13 emprestam à Fear Street uma paleta de cores quente e ambientação bastante leve, que sempre contrasta muito bem com o banho de sangue que irá ocorrer nessas obras. É, inclusive, mais uma “regra” que o filme abraça com louvor, já que os litros de sangue derramado aqui são bem maiores se comparado ao que vimos no anterior, além de haver também uma dose maior de cenas de sexo, remetendo imediatamente à regra do slasher que aponta que os personagens que transam em um filme de terror filme acabam mortos.

Nessa lógica, a diretora joga pelas regras de outrora, fazendo referências à slashers que fazem referência à slashers. É uma boneca-russa de alusões dentro do subgênero e que tornam Fear Street uma obra marcante à sua própria maneira, não por sua originalidade, mas como um herdeiro da essência dos filmes aos quais faz homenagem. Se o slasher já é um sucessor — do giallo, no cinema italiano — e, por anos, se retroalimentou com o próprio histórico, com os próprios clichês, Fear Street é o ápice desse comportamento em uma época onde boa parte do mercado é regido pela nostalgia.

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A dinâmica entre os personagens principais, com destaque para as irmãs Ziggy (Sadie Sink) e Cindy (Emily Rudd), funciona ainda melhor por se apoiarem nessas auto-referências. As duas atrizes estão ótimas no papel e possuem boa química, e a escrita de suas personagens cria uma expectativa interessante — com direito a um divertido e bem inserido easter-egg — com a ideia da sobrevivente final — a final girl — deste tipo de filme. A dinâmica entre elas também é utilizada para reforçar a ameaça principal do filme, que não só possui uma ligação mais próxima com a dupla, mas liga-se de forma intrínseca à mitologia da obra no que diz respeito aos residentes de Shadyside.

Apostando no certo ao manter-se dentro das expectativas, mas potencializando seu efeito narrativo ao apostar no terror puro e simples sem se preocupar demais com a mitologia por trás da obra, Rua do Medo: 1978 — Parte 2 vai além do que apenas ser o ‘filme do meio’ e diverte ainda mais que seu antecessor. Por sua vez, é também um obra menos limitada pelo todo, ainda que dependa, tal como a parte 1, de uma resultado efetivamente forte na vindoura conclusão. Mas a julgar pelo que foi apresentado aqui, restam apenas boas expectativas em mais um filme divertido e que sabe jogar a favor de sua proposta. Se o desfecho irá ousar dentro das próprias regras, não fica claro, mas com certeza há espaço para surpreender o espectador depois de dois bons slashers apresentados até aqui.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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