Relatos do Mundo

 Relatos do Mundo

A narrativa da figura paterna que precisa chegar em algum local levando consigo uma criança em segurança, tornou-se bastante comum nos últimos anos. É algo que pode ser visto, por exemplo, realizado de formas distintas no filme Logan, na série O Mandaloriano ou mesmo nos games, em The Last of Us. E mesmo sendo tão repetida em tão pouco tempo, essa narrativa não soa batida quando assistimos a Relatos do Mundo (News of the World), mais recente obra de Paul Greengrass baseado no livro homônimo de Paulette Jiles. Primeiramente porque Greengrass concede ao seu western um tom urbano bastante distinto, que deixa o filme mais próximo de sua filmografia — Ultimato Bourne, 22 de Julho — do que dos faroestes que já estão no imaginário popular. E também por outro fator bastante marcante na obra: o protagonista, vivido por Tom Hanks.

Hanks interpreta o Capitão Kidd, um veterano de guerra que vai de cidade em cidade para ler as notícias, impressas em jornais que carrega consigo. Nessas viagens, o personagem encontra Johanna (Helena Zengel), uma jovem órfã que não fala sua língua. Apesar disso, Kidd decide levá-la até seus parentes mais próximos. Desta forma simples, Greengrass vai trabalhando seus dois personagens dentro da temática do filme, que aborda o poder e universalidade de boas histórias. Narrativas, como a ‘jornada do herói’, são universais e compreensíveis por pessoas de diferentes origens, que vivem em épocas e falam línguas distintas. Não por coincidência, “história” é a primeira palavra dita por Kidd que cria uma “ponte” entre ele e Johanna, criando a primeira conexão genuína entre a dupla.

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O poder da história é também importante para delimitar a diferença de Kidd para outros protagonistas dos faroestes clássicos. Enquanto personagens como o homem sem nome de Clint Eastwood são conhecidos pelo estereótipo do homem bruto, com olhar matador e que resolve tudo na base da força — ou dos tiros —, o capitão vivido por Tom Hanks é o oposto. Com sua voz calma e olhar levemente cansado, carregando o peso da idade e de suas vivências na guerra, o personagem recorre à força apenas como recurso final. Em mais de uma vez durante o filme, é possível ver que a principal habilidade do personagem é mesmo sua capacidade de contar histórias e envolver aqueles ao seu redor com elas, sendo capaz até mesmo de incitar uma revolução apenas através de suas palavras. A retórica impecável de Kidd é também sua maior arma.

Com isso, Greengrass também delimita a jornada de Kidd como alguém que busca ideais utópicos de união carregando consigo a informação, a verdade. Assim, o diretor constrói um paralelo ligeiro da obra — que se passa em 1870 — com os dias atuais, onde a desinformação é uma ameaça constante à democracia e às bases da sociedade, muitas vezes evitando diálogos e separando cada vez mais as pessoas. Algo notável também em uma das melhores sequências do filme, onde Kidd se recusa a ler um “jornal” cheio de desinformação, claramente criado como uma tentativa de controlar uma pequena sociedade por onde o personagem passa com Johanna.

Relatos do Mundo

Como já dito, Greengrass e o diretor de fotografia Dariuz Wolski (Perdido em Marte, Piratas do Caribe) utilizam uma paleta de cores menos saturada, de tons acinzentados, fazendo com que Relatos do Mundo adquira um tom urbano e até contemporâneo, familiar à filmografia do diretor, mas distinguindo-o de outros faroestes clássicos, algo semelhante ao que John Maclean fizeram em sei Oeste Sem Lei, mas que aqui funciona ainda melhor por toda a atmosfera contemplativa que rege a jornada de Kidd e Johanna. Além disso, a dinâmica da dupla age neste sentido também, já que muitas vezes o laço entre ambos é construído através de poucas palavras e mais nuances, no olhar ou na linguagem corporal, por exemplo. Zengel, que já havia chamado atenção por sua performance em Transtorno Explosivo, destaca-se por manter-se à altura de um veterano como Tom Hanks, que apesar de contido, engrandece cada cena em que está presente.

Apesar de soar familiar, Relatos do Mundo mostra-se uma obra intrigante e até surpreendente, ao optar traçar os caminhos de sua jornada de forma muito mais sensível que tantos outros exemplares de seu gênero — e neste aspecto, a obra também distingue-se da filmografia de Greengrass —, mas também funcionando pela crítica à desinformação que permeia os dias de hoje. E ainda assim, é também um bom entretenimento, seja pelo nível de atuação da dupla principal ou mesmo pela jornada destes, ou mesmo pela simples — mas inestimável — oportunidade de ver Tom Hanks protagonizando um faroeste.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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