Raya e o Último Dragão

 Raya e o Último Dragão

De alguns anos para cá, é evidente a tentativa — bem sucedida, vale acrescentar — da Disney de pluralizar suas narrativas para que funcionem melhor com o público contemporâneo. Em vez de apenas ecoar vozes das aclamadas princesas de outrora, o estúdio tem trabalhado para ceder espaço para novas culturas e visões de mundo, sejam dentro ou fora de seus filmes. Raya e o Último Dragão (Raya and the Last Dragon) é o perfeito reflexo disso, trazendo duas descendentes de asiáticos como as vozes principais, a obra não apenas constrói uma mitologia claramente inspirada na cultura oriental como também introduz não uma, mas duas personagens que devem entrar para o “hall da fama” do estúdio, tanto por serem mulheres fortes e independentes, como por protagonizarem uma história que foge completamente dos padrões seguidos pelo próprio estúdio até poucos anos atrás.

Raya (dublada por Kelly Marie Tran) é dotada de um grande espírito guerreiro e ainda criança é incumbida da responsabilidade de proteger uma jóia mística que permanece escondida em Coração, uma das cinco regiões de um mundo outrora unido e cheio de magia, conhecido como Kumandra. Entretanto, após ser traída e ver seu pai ser transformado em pedra, a jovem parte em busca de Sisu, o último dragão (dublada por Awkwafina) e única criatura que pode ajudá-la a consertar as coisas. É interessante notar que a personagem não deixa para trás apenas o arquétipo de princesa cujo final feliz está atrelado a acabar nos braços de um príncipe encantado, mas também o conceito do herói idealista, já que Raya não está verdadeiramente interessada em consertar um mundo cada vez mais próximo da destruição completa, ou mesmo unir as nações, mas sim em salvar seu próprio pai.

Raya e o Último Dragão

Apesar disso, Raya é verdadeiramente carismática e prende a atenção do espectador com facilidade, não apenas pelo ótimo trabalho de Marie Tran na dublagem, mas também por sua personalidade: assombrada pelo que houve no passado, Raya carrega consigo a desconfiança e o medo da traição, além de se culpar pelo que houve com o pai. Ou seja, é uma personagem longe da perfeição, e muito mais humana que tantos outros que protagonizam narrativas do estúdio — um novo padrão que pode ser observado com Elsa em Frozen, Hiro em Big Hero 6 e Moana em seu filme homônimo —, de personagens que carregam consigo inseguranças ou mesmo certa resistência em aceitar o destino imposto a eles. Já Sisu surpreende pela figura cômica sem tornar-se caricata demais, com Awkwafina dando voz a uma personagem com uma personalidade oriunda de um mundo onde humanos e dragões viviam harmoniosamente, desenhando um bem-vindo contraste com a desconfiada Raya.

A jornada de Raya e Sisu se dá em um universo com uma mitologia bastante interessante, que lembra alguns aspectos da animação Avatar: A Lenda de Aang. Infelizmente, os 100 minutos da obra não são suficientes para aprofundá-la de forma satisfatória — planos para uma série no streaming da Disney, talvez? — o que pode incomodar parte do público. Os diretores Don Hall (Big Hero 6) e Carlos López Estrada (do excelente Summertime) optam também por não inserir musicais na obra, decisão um tanto surpreendente, embora coerente com a personalidade da protagonista — Raya não parece o tipo de pessoa que sairia cantando suas emoções por aí, mesmo para os padrões Disney —, enquanto a história segue uma progressão coerente, ainda que um tanto óbvia, tornando possível antever como se dará a conclusão. Entretanto, a jornada é tão interessante e divertida que antever o desfecho não chega a impactar negativamente a experiência.

Raya e o Último Dragão

Apesar de todos os pontos positivos citados, o que mais chama atenção em Raya e o Último Dragão é, sem dúvidas, a parte visual de sua animação. Verdadeiramente impressionante, a obra é o ápice de diversos “estudos” realizados nas animações anteriores, principalmente na física da água, elemento retratado com cada vez mais fidelidade e que aqui possui uma função narrativa, principalmente no ato final. Além disso, o próprio visual dos personagens que evidenciam a herança asiática — como o traço dos olhos levemente puxados, ou as vestimentas de Raya — e a estética da obra, que esbanja detalhes suficientes para que o espectador possa identificar claramente cada uma das cinco regiões, seja pela geografia dos lugares — a devastada Cauda ou a floresta cheia de gelo em Espinha —, seja pelo estilo de vestes e armas dos personagens. É um trabalho verdadeiramente rebuscado e que nos deixa com ainda mais vontade de ver a mitologia de Kumandra ser aprofundada.

De muitas formas, Raya e o Último Dragão foge às regras da princesa clássica e funciona como ponto sem retorno do estúdio, que depois de entregar algo tão interessante quanto esta não poderá simplesmente recorrer às narrativas de outrora. Se em 2013, Elsa já começava a evidenciar essa mudança de postura com certo ‘deboche’, Raya é a consolidação destas ideias, protagonizando uma história bastante madura sobre confiança, sacrifício e união. Mais do que simplesmente pregar uma lição de moral, Don Hall e Carlos López Estrada nos apresentam a princesa e heroína que o mundo de hoje precisa. E o fazem em um filme com dragões, deixando tudo ainda melhor.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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