Quatro Dias Com Ela

 Quatro Dias Com Ela

O ‘cinema de gênero’ é chamado desta forma por contemplar estilos de filmes que possuem fórmulas mais restritas que acabam agradando a um tipo de público específico, como comédia ou terror. O drama, embora seja um gênero de várias vertentes, acaba possuindo alguns estilos mais específicos também, cuja estrutura narrativa segue o esperado dependendo da temática abordada, como biografias ou, no caso de Quatro Dias Com Ela (Four Good Days), do diretor Rodrigo Garcia, filmes que abordam um relacionamento turbulento devido o envolvimento com drogas. E talvez, considerando este filme e Era Uma Vez um Sonho, trazer Glenn Close para o elenco acabe se tornando uma das premissas deste subgênero também.

A veterana — que sempre eleva o nível das obras em que se faz presente — vive Deb, uma mãe que tenta ajudar sua filha Molly (Mila Kunis) a passar pelos últimos quatro dias de recuperação antes de se submeter a um processo experimental que pode ajudá-la com o vício. Diferente de sua personagem no drama co-protagonizado por Amy Adams, entretanto, Close tem um papel muito mais vulnerável e menos “casca-grossa” dessa vez, o que faz com que suas interpretações sejam completamente contrastantes de um filme para o outro, mesmo em narrativas contextualmente semelhantes. Já Kunis, egressa de comédias românticas — a atriz chegou a flertar com gêneros fantásticos, mas não foi muito além —, surpreende pela intensidade aplicada no papel, ajudada por uma boa maquiagem que ressalta o potencial dramático sem cair em armadilhas comuns de papéis do tipo.

Sendo baseado em fatos, Quatro Dias Com Ela apoia-se — com a dramaticidade cabível — em uma trama que possui ares hollywoodianos por si só. A narrativa do filme é baseada no artigo de Eli Saslow — que co-escreve o roteiro ao lado de Garcia — sobre Amanda Wendler, chamado “How’s Amanda? A Story of Truth, Lies and an American Addiction” (algo como “Como está Amanda? Uma história de verdade, mentiras e um vício americano”), que aborda o período necessário de quatro dias sóbria para que Amanda possa tentar o novo tratamento em sua 15ª tentativa de superar o vício. Durante esse tempo sóbria, a abstinência abre margem para conflitos mal resolvidos entre Amanda e sua mãe, Libby, conflitos estes que, sob a lente de Garcia, acabam potencializados pela performance das duas protagonistas.

A dinâmica entre as duas atrizes é realmente o grande chamariz dentro da obra de Garcia. Com uma narrativa bastante sensível, o diretor demonstra bastante cuidado para não diminuir ou tratar a situação de forma irresponsável, mas também não dramatizá-la a tal ponto que o espectador possa se sentir coagido — a empatia é um aspecto importante para este tipo de narrativa e, quando forçada, pode arruinar toda a experiência —, encontrando um equilíbrio saudável para preservar o impacto emocional. Garcia acerta também ao delinear os momentos de impacto com outros mais leves, mas preservando certa tensão advinda dos possíveis gatilhos que a personagem de Kunis possa ter, como em uma cena envolvendo um videogame que consegue causar aflição com pouco.

A potência das atrizes também é compreendida pelo diretor, que separa momentos para que elas brilhem juntas ou separadas. Se a dinâmica entre ambas funciona bem por quase todo o filme — os conflitos são críveis e as performances valorizam isso —, há cenas específicas onde cada uma das atrizes tem espaço para roubar a cena para si, como na cena em que a personagem de Glenn Close conversa com o marido ou o desabafo de Molly enquanto conta sua história para evitar que outros cometam os mesmos erros que ela. Entretanto, alguns desses momentos acabam perdendo um pouco de força graças à estrutura padrão de dramas do tipo, ganhando um tom motivacional que pode afastar alguns espectadores, pois este tom “lição de moral” não apenas fica evidente como parece simplificar algumas coisas, diminuindo o peso de certos conflitos.

Quatro Dias Com Ela peca também por não conseguir explorar tais conflitos para além da relação mãe-filha que é o foco da obra. Há diversas pessoas e momentos do passado dessa relação que vem à tona durante o desenvolvimento da narrativa, mas não ganham desenvolvimento suficiente para que soem relevantes para a história contada, servindo apenas para pontuarem cenas que irão alavancar a interpretação de Close ou Kunis. E quando não o fazem, tornam-se completamente irrelevantes, sendo que o mesmo se aplica aos aspectos técnicos do filme como a fotografia ou a trilha sonora, que surgem com pouco brilho.

Voltado às performances principais, Quatro Dias Com Ela se vale do desenvolvimento cuidadoso e respeitoso em relação ao tema delicado que aborda. Para além disso, traz uma nova performance brilhante vivida por Glenn Close — somando-se a tantas outras — e abre espaço para uma Mila Kunis surpreender com uma interpretação madura e diferente de tudo que fizera antes. O texto firme, entretanto, não corresponde a uma direção insípida, que consegue encontrar o tom exato para exaltar suas atrizes principais, mas não para elevar o restante da obra para tamanho patamar. Com isso, as limitações da narrativa transparecem com maior facilidade, desmerecendo todo o conjunto e evitando que a experiência do filme seja verdadeiramente marcante.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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