Crítica | Por Que Você Não Chora?

 Crítica | Por Que Você Não Chora?

Não há jeito fácil — e muito menos confortável — de falar sobre suicídio ou doenças psicológicas, embora alguns autores optem por vertentes menos agressivas. Apesar dos riscos de haver uma romantização do ato — provavelmente este é o maior receio dos diretores dessas obras —, abordar a temática da saúde mental tem se tornado cada vez mais comum, algo importante dada a relevância que a pauta ganha cada dia mais. Afinal, a cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio. E esta informação pontua bem o roteiro de Por Que Você Não Chora?, escrito por Cibele Amaral que também dirige o filme. 

O roteiro segue a história de Jéssica (Carolina Monte Rosa), estudante de psicologia que precisa realizar um estágio, acompanhando Bárbara (Bárbara Paz), uma mulher com transtorno de personalidade limítrofe (ou síndrome de Borderline). Embora o texto deixe claro quem é a “médica” e quem é a “paciente”, não tarda para que a obra demonstre que a linha que separa estas duas mulheres é bastante tênue, já que elas guardam mais similaridades do que possam notar à primeira vista e é justamente esse equilíbrio que toma lugar central do filme. É como se, não querendo apenas trazer os temas já citados para a obra, a diretora também estivesse interessada em debater os gatilhos do dia-a-dia em todos, através de situações aparentemente inofensivas.

Há, por exemplo, diversos momentos onde Cibele Amaral trata de isolar Jéssica. Isso por meio de diálogos ou enquadramentos que, apesar de óbvios, são efetivos. Principalmente nas sequências que vemos a garota em suas aulas, como em uma cena em que a câmera se afasta, mostrando-a em um canto mais afastado da sala enquanto os outros alunos interagem, muitas vezes empolgados, ao contar sobre seus próprios “pacientes”. Da mesma forma, a garota é constantemente pressionada nestas mesmas sequências, já que todos seus avanços com Bárbara remetem a um vínculo proibido, algo reforçado mais de uma vez com frases como “a relação de vocês tem prazo de validade” ou “você não é amiga nem familiar dela”.

Ao mesmo tempo que Jéssica é constantemente filmada através de ângulos e cenários pequenos — e até sufocantes em alguns momentos —, a personagem de Bárbara é mostrada muitas vezes como uma válvula de escape. Apesar de sua imprevisibilidade, dada a seu quadro — há um momento logo no começo do filme que remete diretamente à Lisa, personagem de Angelina Jolie em Garota, Interrompida, que trata de temas semelhantes —, os takes da dupla sempre são realizados em cenários abertos e bem mais claros e coloridos. Há vida em Bárbara, mesmo que esta não enxergue uma vida para si própria. “Eu quero morrer” diz a personagem a certa altura, apenas para pontuar em seguida “Eu não quero morrer, só queria saber que essa possibilidade existe”. Essa ligação entre a dupla vai se intensificando no decorrer do filme através de detalhes.

Estes detalhes também dão um aspecto interessante, principalmente quando observadas as cores que geralmente são utilizadas: azul e amarelo. Cores opostas e que criam um contraste claro, ambas tem significados bem comuns quando utilizado em paletas de cores, representando respectivamente a tristeza e a alegria. Em uma cena específica, é possível notar que ambas utilizam as duas cores, com o azul sendo a cor de uma peça utilizada por cima de outra amarela. Quase apontando que a alegria está lá em algum lugar, apenas coberta por uma fria camada de tristeza que as impede de viver ao máximo.

Enquanto esta parte técnica é inteligente e funciona para que o espectador capte a mensagem, incomoda que haja diversos personagens secundários cuja única função é enfatizar o que já está em tela. Ainda mais utilizando frases prontas que pouco agregam à trama — “todos somos neuróticos” —, como a orientadora da faculdade de Jéssica, interpretada por Cristiana Oliveira. Essa opção por seguir um lado mais simples, até reducionista, do tópico é o que agrava o terceiro ato, que perde a pouca sutileza do restante do filme. Não apenas isso, mas algumas decisões criativas do ato final soam apressadas e até bruscas, a fim de encaminhar a trama para um final que já era possível antever, mas que até aí não era anunciado de forma tão óbvia até então.

O roteiro se beneficia muito da sua dupla principal. Tanto Carolina Monte Rosa quanto Bárbara Paz possuem bastante presença em tela, principalmente a segunda, cujas emoções à flor da pele apenas não soam mais intensas do que os gestos contidos e a voz baixa que a atriz utiliza para mostrar a enorme fragilidade de sua personagem, principalmente nas cenas relacionadas à guarda do filho. E a diretora Cibele Amaral apresenta uma boa direção, bastante segura e consciente de como utilizar diversos aspectos técnicos para fortalecer sua narrativa. 

Os pecados do roteiro de Por Que Você Não Chora? podem incomodar durante a obra, mas não fazem com que ela seja ruim. É até possível justificá-los como uma forma de evitar que o filme se tornasse algo romantizado, como comentado no começo do texto. Ainda assim, a obra tem seu valor ao tratar de um tema tão difícil de uma forma consciente e que, mesmo com falhas, exerce um impacto no espectador.

Filme visto online durante o 48º Festival de Cinema de Gramado em setembro de 2020.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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