Pieces of a Woman

 Pieces of a Woman

Em dado momento de Pieces of a Woman, Sean (personagem de Shia LaBeouf) explica sobre a ressonância, apontando que quando a vibração externa se iguala à vibração interna de um objeto sólido, acontece este evento que pode ser tão grande a ponto de derrubar uma ponte. O personagem fala de forma literal, pois trabalha com construções, mas no fundo, sua informação tem um valor narrativo interessante, pois é possível identificar que a obra de Kornél Mundruczó é exatamente sobre isso, mas de uma forma metafórica. É um filme sobre os relacionamentos amorosos e familiares, as pontes que construímos na vida. E sobre o desabamento destas diante de adversidades fora do nosso controle.

A “ressonância” em questão é um evento traumático que ocorre com o casal Martha (Vanessa Kirby) e Sean. A partir daí, a obra passa a explorar o relacionamento que a dupla tem um com o outro, mas também com as pessoas ao redor, principalmente a mãe de Martha, interpretada por Ellen Burstyn. E conforme o roteiro deixa claro que as “pontes” entre os personagens caíram, vemos a direção de Mundruczó isolando-os cada vez mais. Há diversos planos onde diálogos são conduzidos com cenas que separam os personagens em planos distintos, ou mesmo que enquadram mais dois ou mais personagens, mas utiliza a profundidade de campo para deixar claro a separação instaurada naquela família.

Pieces of a Woman

Há também um outro tópico que permeia o filme, envolvendo a personagem de Molly Parker, que é bastante interessante, mas não toma muito tempo na narrativa — dar mais detalhes seria também adentrar em alguns spoilers —, embora pudesse levar a debates intrigantes. O foco, entretanto, é de fato explorar os “pedaços de uma mulher”, no caso Martha, após o incidente, algo que Mundruczó e a roteirista Kata Wéber fazem com bastante delicadeza, expondo feridas abertas e sua lenta recuperação que, entretanto, nunca se dará por completo, pois Martha jamais retornará a mesma mulher de outrora. Para isso, Vanessa Kirby se entrega através de uma das atuações mais fortes dos últimos anos, transmitindo uma dor imensurável por olhares sem esperança, uma voz vacilante e um ímpeto dramático que explode na melhor cena do filme, momento que a atriz divide com Ellen Burstyn, não menos ótima.

No elenco, é a interpretação de LaBeouf que pesa em Pieces of a Woman. Não bastasse dividir a maioria de suas cenas com as excelentes Kirby e Burstyn, o ator não parece encontrar um meio termo para externar a dor de seu personagem. Assim, vemos o ator fechando-se em um homem ríspido e marido abusivo, ou indo a extremos ao verbalizar, em meio à lágrimas, a própria angústia. Ao sempre recorrer a arquétipos mais passionais — mas sem encontrar a emoção necessária —, o ator não consegue sair do automático ou, quando o faz, não soa genuíno. Além disso, não havendo um desenvolvimento próprio do casal no decorrer da obra, LaBeouf quase sempre soa à parte, deslocado dos demais.

Pieces of a Woman

Essa ausência do desenvolvimento do casal em si acarreta em uma certa lentidão na obra, que não condiz com a incrível e intensa meia hora inicial do filme, movida através de um plano-sequência quase contínuo. Além disso, apesar de outra mudança de ritmo, os minutos finais são bastante tocantes, principalmente — mais uma vez — pela atuação impressionante de Vanessa Kirby. Nenhum desses focos é, necessariamente, problemático, mas nota-se a flutuação da urgência, empregada majoritariamente no primeiro ato. Na sequência, temos um segundo ato mais lento e contemplativo, e por fim uma conclusão bastante emocional, mas que toma rumos distintos do que fora apresentado antes. A montagem faz um bom trabalho em unir todas as “subtramas”, mas a mudança brusca de foco no ato final pode desagradar ou, ao menos, causar certa estranheza.

Pieces of a Woman passa longe de cair por terra por causa de alguns problemas na condução, mas fica claro que Kornél Mundruczó poderia extrair mais de sua proposta caso decidisse focar sua narrativa nos personagens principais. Ao abrir o drama para terceiros, a obra se embaraça um pouco e perde força, resgatando-a apenas próximo ao final às custas de uma mudança brusca que, por sua vez, só se mantém no lugar pela força da protagonista. E se o roteiro obriga que a personagem de Vanessa Kirby permaneça em pedaços durante a maior parte do filme, não há nada que fragmente sua atuação, que faz cada minuto valer.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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