Permissão para Matar

 Permissão para Matar

Mesmo após 15 filmes, a figura de James Bond nunca fora construída de forma passional, sempre havendo um distanciamento entre o espião e os coadjuvantes com quem interage — incluindo aí as Bondgirls com quem se relaciona —, talvez com uma exceção: a secretária Moneypenny, por quem Bond parece nutrir uma amizade verdadeira e recíproca, em qualquer versão. Logo, é interessante que após a comedida estreia de Timothy Dalton sob direção de John Glen em Marcado Para a Morte, a dupla retorne com Permissão Para Matar (License to Kill) e continue realizando uma construção diferente do espião, deixando-o menos frio e lhe atribuindo uma carga emocional inédita até então.

Já em sua sequência de abertura, Permissão Para Matar introduz um Bond versão “padrinho de casamento”, estabelecendo laços do espião que funcionam narrativamente para criar uma motivação palpável, além de reforçar um lado mais humano ao qual não estamos acostumados no personagem. Glen aproveita esses minutos iniciais para apresentar ao espectador o vilão da vez, Franz Sanchez (Robert Davi) e se a essa altura o espectador já não espera muito dos vilões para tentar evitar a decepção, o diretor consegue surpreender logo de cara ao instituir o nível da ameaça representada pelo traficante colombiano — inspirado livremente em Pablo Escobar — que lança Bond em uma missão muito mais pessoal que qualquer outra mostrada nas obras anteriores.

Talvez por não ser uma adaptação tão direta dos livros de Ian FlemingPermissão Para Matar possua uma atmosfera bastante distinta de outros filmes do espião, incluindo a obra anterior já protagonizada por Dalton. Sua narrativa é muito mais visceral e elementos trazidos para a trama — a ambientação colombiana, a violência da obra — alimentam um tom muito mais sombrio, apoiando-se principalmente na autonomia do agente, que pela primeira vez está totalmente por conta própria. É uma diferença sentida desde os primeiros minutos, quando a trilha sonora de Michael Kamen entra em cena, anunciando para o espectador desavisado que este filme é ligeiramente diferente dos demais. A subversão é bem-vinda e veste muito bem a versão de Dalton para Bond, intensificando a já presente ruptura no tom observada em Marcado Para a Morte quando comparado aos filmes protagonizados por Roger Moore.

Outro fator interessante é observar John Glen tomando certa distância dos conflitos com soviéticos e alemães, comuns à franquia. Com a ameaça ligada diretamente a um cartel na república fictícia de Isthmus, constrói-se uma ameaça que foge do óbvio ao passo que a liga com uma temática presente em produções da época, o tráfico de cocaína, fazendo com que Bond 16 remeta diretamente à outra obra famosa da década de 80, Scarface de Brian De Palma — lançado seis anos antes, no mesmo ano que Octopussy —, que possui uma atmosfera bastante diferente dos filmes de Bond, sendo que até então era praticamente impossível imaginar que algum filme do espião pudesse, ainda que eventualmente, trazer algo semelhante para dentro da franquia. Tudo isso é intensificado pela narrativa proposta ser uma história de vingança, outro aspecto que causaria estranheza se feito alguns filmes atrás, mas que aqui funciona pelo trabalho de direção e interpretação do protagonista, que já detinha um bom equilíbrio entre a frieza de Bond com seu lado humano, sem privá-lo completamente de sentimentos.

A crueza de Bond 16 estende-se até mesmo a suas interações com as Bondgirls da obra, já que embora existam os habituais flertes do personagem — ora com Pam Bouvier (Carey Lowell), ora com Lupe Lamora (Talisa Soto) —, em boa parte do filme tais interações funcionam para mostrar como Bond está alterado por estar agindo fora de seu tradicional modus operandi, no caso, por estar cego de vingança. Já as sequencias que Bond enfrenta os capangas dos vilões, geralmente utilizadas para multiplicar as cenas de ação, ganham contornos de violência mais explícita aqui, como quando Bond precisa lidar com Dario (um jovem Benício Del Toro cheio de presença) à beira de um triturador. Um confronto que resulta em um momento carregado de tensão a ponto do espectador respirar aliviado.

Bem dirigido, com um bom vilão e trazendo uma atmosfera única para a franquia, Permissão Para Matar prova-se uma obra devidamente distinta para marcar a versão de Timothy Dalton para o papel, já que nesta segunda vez dando vida à Bond o ator já construía uma marca clara dentro do legado do personagem, construindo uma versão muito mais humanizada do agente através de uma interpretação passional, mas sem distanciar-se por completo do que fora realizado por seus antecessores. Além disso, eleva bastante os acertos da obra anterior, abrindo portas interessantes para a franquia trilhar nos vindouros anos 90, mostrando que é possível levar James Bond à novos ares sem a necessidade de descaracterizar a própria franquia para isso.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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