44ª Mostra de SP | Pari

 44ª Mostra de SP | Pari

Histórias onde o protagonista parte em uma jornada de reencontro não são novidades no cinema. Até mesmo Dory, a peixinha azul de Procurando Nemo partiu em uma história de autodescoberta em um filme infantil, mas maduro. Longe de ser tão ‘inocente’ quanto uma animação da Pixar, Pari obra dirigida pelo iraniano Siamak Etemadi também é uma jornada de busca, em diversas maneiras.

Na obra, Pari (Melika Foroutan) e seu marido Farrokh (Shahbaz Noshir) partem do Irã para a Grécia, em uma visita à seu filho Babak que está estudando no país. Entretanto, o rapaz não aparece no aeroporto para recebê-los como haviam combinado. Ao tentar descobrir o paradeiro dele, Pari se depara com um lugar com uma cultura completamente diferente da sua e que, de certa forma, a colocará em busca de sua própria libertação.

Pari

O primeiro ato da obra é dotado de um bom suspense, estabelecido com cuidado por Etemadi, que dirige e escreve o roteiro. Conforme algumas informações são reveladas, aprofundando o mistério sobre onde pode estar Babak, cria-se uma atmosfera interessante que instiga o espectador sem provocá-lo demais. Isso devido a precisão que o diretor-roteirista possui do texto, que aos poucos vai direcionando o público para o verdadeiro foco da trama. Utilizando-se de simbolismos literais — como o “batismo de fogo”, que queima parte das vestes de Pari —, Etemadi passa a desconstruir a protagonista.

Com uma texto tão transformador e emocional, Foroutan entrega uma das atuações mais marcantes do ano. Cheia de sutilezas, a atriz cativa pela forma como transmite sua dor e angústia, através de seu olhar pesaroso e um sotaque carregado. A atriz rouba a cena e é impossível desviar o olhar da personagem, que instiga uma empatia quase imediata com o espectador. Simpatizamos com sua causa e tememos por ela em boa parte da obra. Vide a cena dos manifestantes, onde Etemadi enquadra o caos que está ocorrendo enquanto a personagem parte em sua direção, para logo em seguida isolá-la pela primeira vez na jornada. A princípio, existe uma angústia na cena, um perigo constante, mas a subversão oferecida pela sequência exerce efeito também no espectador, que entende que o caminho da protagonista se desviou.

Essa quebra de expectativas e o choque que vai ajustando o curso de Pari é bem definido pela direção, bastante estilizada. Vide os momentos em que Etemadi desfoca o cenário, priorizando a personagem em primeiro plano, quase sempre em um momento que irá representar uma mudança abrupta na jornada de Pari. É o diretor assentando a protagonista em sua jornada após as alterações bruscas ocorrerem, como quando uma luz acende em um quarto escuro e os olhos levam segundos para se acostumar. A cinematografia de Claudio Bolivar também é eficiente ao brincar com uma paleta de cores bem forte, ressaltando a ideia do ambiente completamente novo para Pari.

Pari

O roteiro, entretanto, comete alguns deslizes ao elaborar demais o mistério. Uma vez que é entendido que a jornada não é em busca de Babak, mas sim da própria Pari, alguns momentos em que o mistério segue se aprofundando soam simplesmente gratuitos. Por exemplo o modo como um personagem que conheceu Babak insinua que ele mudou e que talvez não quisesse mais contato com os pais. Mudou como? E por que? É uma trama que é colocada em segundo plano e funciona apenas para enviar Pari do ponto A para o ponto B, mas que ainda é tratada como se fosse o mote principal da obra, o que pode levar a uma certa frustração conforme tais perguntas vão sendo — propositalmente — deixadas de lado.

Com a boa direção de Siamak Etemadi e uma atuação intensa de Melika Foroutan, Pari é uma obra fascinante e tecnicamente bem-feita, traduzindo visualmente a angústia causada pelo choque-cultural em uma situação já delicada — desaparecimento do filho —, além de conseguir criar um melodrama que evita clichês, ao passo que constrói uma narrativa universal: a busca pela própria libertação.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também