Pânico

 Pânico

O terror é um gênero incrivelmente versátil. O espectador pode decidir permanecer adepto apenas a ele e ainda assim irá encontrar um universo tão vasto e com obras tão distintas entre si que pode até duvidar de que tudo aquilo pertence ao mesmo gênero cinematográfico. E mesmo assim, o terror em seus subgêneros consegue, volta e meia, ser momentaneamente esgotado. Nos anos 90 isso aconteceu com as franquias de filmes slasher, aqueles que traziam assassinos em série cujas vítimas principais eram adolescentes, até que em 1996, Wes Craven — diretor que já havia oferecido ao gênero o filme A Hora do Pesadelo, cuja franquia a esta altura estava entre as que se esgotaram, com diversas continuações sem o mesmo brilho do original — juntou-se ao roteirista Kevin Williamson para realizarem aquele que seria o responsável por revitalizar o terror da época: Pânico (Scream).

Longe de ser o filme mais assustador de todos os tempos — até por que esse tipo de mérito é meramente subjetivo —, Pânico destaca-se por outros aspectos, que o tornam um filme divertido sem abrir mão dos elementos comuns ao gênero. Estão lá as mortes, a tensão, uma boa dose de sangue, uma boa protagonista e muitos coadjuvantes que funcionam para aumentar a contagem de corpos de um assassino mascarado. E é por saber lidar com “elementos comuns” que Wes Craven faz com que sua obra ganhe um diferencial, já que a obra utiliza uma veia metalinguística bastante nítida ao reconhecer os clichês dos slashers da época. Não apenas abraçando-os, mas também os subvertendo, criando um filme autoconsciente de sua premissa a ponto de desdenhar de si mesmo em um texto deliciosamente irônico. Craven já havia feito algo parecido em O Novo Pesadelo — sétimo capítulo da já mencionada franquia A Hora do Pesadelo e a única sequência que contou com o retorno do diretor —, mas de forma menos sutil do que a demonstrada aqui.

Pânico

Pânico leva o espectador à pequena cidade de Woodsboro, onde crimes chocantes começam a acontecer, aparentemente com relação a um outro crime que havia chocado a cidade um ano antes. A polícia e a mídia local correm para tentar descobrir quem é o assassino com máscara de fantasma — Ghostface — enquanto os crimes continuam ocorrendo e parecem girar em torno de uma única pessoa: Sidney Prescott (Neve Campbell). Rapidamente, Craven trata de apresentar a protagonista e seu grupo de amigos, notavelmente composto por adolescentes, ao público. Partindo da premissa simples — e eis aí o brilhantismo da coisa —, o diretor e o roteirista permitem-se trabalhar a obra a partir das expectativas regidas pelo clichê do gênero, até mesmo com o cuidado de construir o fascínio dos personagens pelo próprio cinema de terror. Se na primeira cena, o mascarado faz referências à Sexta-Feira 13 e ao próprio — olha ele novamente — A Hora do Pesadelo, não tarda para que os personagens estejam debatendo entre si as próprias influências do assassino, zombando dos clichês de um filme do gênero.

Com isso, toda a metalinguagem que é o principal mandamento da obra é inserida e gerida de uma forma orgânica e sem parecer uma saidinha esperta para fazer o filme parecer mais inteligente do que é. E neste aspecto, embora simples, o texto da obra mostra-se realmente sagaz, ao incorporar as regras do gênero e segui-las enquanto, deliberadamente — mas sem tornar-se incomodamente expositivo —, explica estas ao espectador menos assíduo do terror através de Randy (Jamie Kennedy). O personagem é um fã do gênero e funciona quase como um alter-ego de Craven, dizendo literalmente que o grupo está “em um filme de terror”. Um dos melhores momentos do filme é justamente aquele em que, enquanto um grupo de pessoas assiste a Halloween de John Carpenter — a maior referência do diretor aqui —, Randy o toma de exemplo para explicar os clichês que o próprio Pânico segue meticulosamente. As regras do terror, que os protagonistas precisam seguir para sobreviver, e que foram fundamentadas pela obra de Carpenter.

Craven e Williamson, entretanto, são cuidadosos para que Pânico não seja apenas uma colagem eficiente de referências. Isso porque o texto do filme trata de construir sua narrativa envolta de sua própria mitologia. Existem fatos anteriores à narrativa que o espectador está acompanhando que são expostos aos poucos, e que possuem suas próprias consequências, de modo que seus personagens, ao explorarem tais informações, ganham uma profundidade maior. Não é preciso um número excessivo de diálogos para que entendamos as diferenças entre Sidney e Gale (Courteney Cox), por exemplo. Da mesma forma, nosso interesse pelos personagens surge com facilidade, nos envolvendo na trama de modo que não tarda para que nós, enquanto público, brinquemos de detetive tentando encaixar as pistas e descobrir quem está por trás das mortes. E neste aspecto, o diretor não subestima o espectador, entregando uma série de dicas de quem pode ser o Ghostface e potencializando a atemporalidade da obra, já que o espectador irá acabar com vontade de ver e rever para conseguir notar todas as pistas deixadas pelo caminho.

Pânico

Essa construção de mitologia, que carrega seus próprios signos — a faca do assassino, os telefones, a máscara de fantasma — funciona para alimentar uma atmosfera de suspense que permeia todo o filme, enquanto desenvolve os próprios personagens dentro daquele universo crível. Ao se deparar com Pânico, o espectador não está conhecendo personagens em um filme, mas praticamente vendo a si próprio dentro de uma obra de terror. O grupo de protagonistas dá voz aos anseios do público, questionando a si próprios e a lógica ao qual estão presos, apontando uns aos outros com argumentos e contra-argumentos sobre quem poderia ser o assassino ou a próxima vítima. Em vez de se comportarem como personagens, eles brincam de espectador, fazendo com que a dinâmica de Pânico seja, possivelmente, única. É uma metalinguagem menos óbvia e muito mais difícil de se construir, que faz o público sentir-se dentro de uma obra na qual seus próprios personagens não parecem estar.

Pânico é um terror atemporal que pode não perturbar seus espectadores usando vilões imparáveis ou sobrenaturais, mas se destaca pela sagacidade de um texto que reconhece suas limitações e, justamente por isso, consegue ir além das obras semelhantes do gênero. Tecnicamente impecável — a montagem é incrível e a trilha de Marco Beltrami é marcante e sutil, como um grito se esvaindo de um pulmão esfaqueado —, o filme consegue ser um produto de seu tempo, efetivo ao sintetizar o terror da época enquanto o redefine a partir daí. A revitalização do gênero não poderia vir pelas mãos de alguém melhor que Wes Craven, cujo legado encontra em Pânico seu ápice, e também uma bela síntese, encapsulando em seus 112 minutos a genialidade de um diretor cuja filmografia o sustentará perpetuamente como um dos Mestres do Horror. 

Avaliação: 5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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