Pânico 4

 Pânico 4

Ao revitalizar o terror nos anos 90, Pânico realizou um feito interessante: redefiniu seu gênero ao passo que também encapsulou, em um único filme, os clichês da época, declarando-os abertamente enquanto subvertia as ideias por si só. Suas continuações fizeram o mesmo, falando das regras de uma continuação e as aplicáveis no caso de não ser uma sequência qualquer, mas sim final de uma trilogia. E após encerrar o arco de Sidney Prescott (Neve Campbell), o diretor Wes Craven deixou sua franquia em paz para embarcar em novos projetos. Sua protagonista, afinal, encontrou a paz e a libertação que merecia após passar por todo o sofrimento de uma trilogia de terror. Entretanto, metalinguístico como tal, Pânico não poderia resistir a uma nova onda de slashers que retornam ao palco uma década depois do final da trilogia, com remakes — refilmagens — surgindo constantemente, chegou a hora de Sidney Prescott sair da escuridão. 11 anos desde o — até então — capítulo final, a protagonista e o público retornam à Woodsboro com Pânico 4 (Scream 4).

Se a trilogia, entre erros e acertos, construiu um bom arco para Sidney, de uma refém do passado — mesmo antes dos crimes que vimos em Pânico começarem — até uma mulher que finalmente deixou seus traumas para trás, é curioso notar como o tempo entre Pânico 3 e Pânico 4 afetou a protagonista. Sidney havia deixado sua cidade para trás na tentativa de fugir, inutilmente, de seu passado — o segundo filme se passa em Ohio, e o terceiro em Hollywood —, portanto seu retorno à cidade é significativo por si só. Entretanto, sua presença — no aniversário do massacre original — não recebe as melhores boas-vindas que poderia, pois é justamente quando a protagonista retorna para lançar seu livro, que um novo Ghostface surge em Woodsboro, para atormentar um novo grupo de adolescentes, dentre eles Jill Kessler (Emma Roberts), prima de Sidney. Não tarda para que Dewey (David Arquette) — agora o xerife da cidade — e Gale (Courteney Cox) se envolvam na investigação dos crimes cujo objetivo parece ser devolver Sidney ao status de vítima.

Pânico 4

Seguindo o padrão de sequências iniciais icônicas, Craven opta por uma abertura bastante metalinguística que utiliza a meta-franquia Facada para comentar sobre a onda de refilmagens que tomou a década, com até mesmo seu A Hora do Pesadelo refilmado em 2010. A brincadeira é divertida e ainda serve para que o público entenda o status da meta-franquia, cujo terceiro filme teve as filmagens interrompidas — durante os eventos de Pânico 3 —, mas depois foi filmado do zero. Depois da “trilogia original” — baseada na vida de Sidney —, Facada decidiu se reinventar com diversas continuações que “perderam a essência”, com filmes que incluem até viagem no tempo. Além de ser uma sequência divertida, que já presenteia o espectador com algumas mortes violentas, sugere a necessidade de reinventar-se. Ou seja, se as refilmagens estão na moda, o novo Ghostface quer fazer uma refilmagem do massacre original? 

Ainda que Pânico 4 não seja uma refilmagem — metalinguísticamente falando, já que o número 4 evidencia que o filme é uma continuação —, Wes Craven dirige diversos momentos em uma autorreferência clara para com a trilogia, com atenção especial ao primeiro filme. Ou seja, o filme em si não é um remake, mas vários de seus momentos prestam uma homenagem direta, como a ligação na qual uma das personagens precisa responder perguntas no telefone enquanto outra pessoa está amarrada do lado de fora, pronta para ser morta pelo novo Ghostface. Mas dessa vez, a pergunta está ligada às refilmagens da década, e não aos slashers originais surgidos entre os anos 70 e 80. Da mesma forma, o grupo de adolescentes introduzido são como versões 2.0 dos personagens originais, assumindo suas “funções” no novo filme. Ou seja, se Jill é a vítima principal — uma nova Sidney —, há também um novo namorado suspeito — Trevor (Nico Tortorella) —, um novo cinéfilo que dá as regras do jogo — Charlie (Rory Culkin) —, uma nova melhor amiga — Kirby (Hayden Panettiere) —, por aí vai.

Contar com a ideia de uma refilmagem abre um precedente perigoso para a franquia Pânico, pois os fãs já sabem o final dessa história, e previsibilidade nunca foi um defeito dos filmes da franquia. Felizmente, Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson — que retorna após sua sentida ausência em Pânico 3 — manejam sua nova narrativa evitando percorrer o óbvio, com uma das revelações finais mais divertidas e intrigantes dentre os quatro filmes. Além de surpreender, a obra resgata um nível de ousadia que as demais continuações não havia conseguido alcançar, trazendo certo protagonismo do novo elenco enquanto continua desenvolvendo a relação entre o trio clássico, ao mesmo tempo que explana as novas regras para um novo público, com mortes mais sangrentas e filmadas — o fã mais sedento por sangue certamente sairá satisfeito —, além de tomar o inesperado como clichê. Ou seja, Craven e Williamson entregam, novamente, uma atmosfera tão bem construída que o público realmente torne a temer pela vida de Sidney, ainda que a protagonista tenha conseguido escapar viva da trilogia.

Pânico 4

A presença de Sidney em Pânico 4 acaba se tornando um dos grandes diferenciais da obra, pois seu arco estava completo e com um final satisfatório junto da trilogia. Portanto, vê-la retornar a Woodsboro acaba sendo interessante pelo fato de que a personagem que retorna não apenas é uma versão mais madura do que aquela na qual o público se despediu anos atrás, mas também é diferente de todas as interpretações que Campbell trouxe para a franquia. Basta notar a reação de Sidney ao encontrar com o novo Ghostface pela primeira vez no filme, partindo para tentar ajudar outra vítima e descobrir quem está por trás da máscara. Definitivamente a mulher traumatizada ficou para trás há muito tempo. Já Dewey e Gale ganham um desenvolvimento mais pessoal, relacionado ao relacionamento da dupla que perdurou durante todos os anos entre Pânico 3 e Pânico 4, diferente do relacionamento dos atores na vida real, o que rende uma piada tão pontual quanto a metalinguagem do filme permite, dizendo que um relacionamento como o deles durar tanto realmente “parece coisa que só é possível no cinema”.

Ousado, Pânico 4 consegue ser divertido o suficiente para justificar sua existência, abrindo um final que fora devidamente fechado. Reintroduzindo a franquia para novas gerações, Wes Craven mostra porque é um Mestre do terror enquanto reconhece que o seu público já não é mais o mesmo, mas nunca subestimando-o. Possuindo um dos melhores usos da metalinguagem dentro da obra — perdendo apenas para a brincadeira narrativa com Facada —, o quarto filme passa longe de ser apenas um exercício inteligente de autorreferências, injetando a dose certeira de ironia para uma época onde refilmagens sem personalidade própria tornaram-se cada vez mais comuns. E se não revoluciona o gênero como seu predecessor original fez, ao menos chacoalha o status-quo do terror contemporâneo, mostrando que é possível ser original sem descaracterizar sua própria história, se consagrando como a mais divertida das sequências do filme de 1996. O que, sejamos francos, não é pouca coisa.

Avaliação: 5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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