Pânico 3

 Pânico 3

Metalinguagem. Esta é a palavra-chave que fez Pânico se diferenciar de tantos outros filmes do gênero. Mas o que alça a franquia a um patamar de excelência é que Wes Craven nunca se contentou em simplesmente fazer uma obra metalinguística somente. Pânico 3 (Scream 3) surge, portanto, para finalizar a trilogia, novamente abusando de elementos que fizeram o sucesso dos filmes anteriores — metalinguagem, ironia, autorreferências —, mas usando-os de forma única, em vez de optar por repetir o que foi feito em Pânico e Pânico 2. E se o segundo filme já abusava do aspecto teatral, cuidadosamente inserido na trama para não soar gratuito, o “capítulo final” recorre ao único ambiente ainda mais autorreferente para um filme do que um teatro: um estúdio de Hollywood.

Três anos após os eventos de seu antecessor, Pânico 3 nos leva diretamente para o centro de Hollywood, durante as filmagens de Facada 3: Retorno à Woodsboro, o final da trilogia que teve início na sequência de abertura de Pânico 2. Um pouco complexo, mas incrivelmente divertido e eficaz para que Craven possa pôr em prática seu jogo de referências e concluir a narrativa de sua heroína, Sidney Prescott (Neve Campbell). Vivendo isolada de todos enquanto ainda lida com traumas do passado, a protagonista se vê obrigada a encarar o que a persegue de uma vez por todas quando novos crimes passam a ocorrer com os envolvidos na produção de Facada, e que aparentemente possuem uma ligação direta com o que ocorreu com Maureen Prescott antes dos eventos do primeiro Pânico.

Tomando como base os dois Pânico anteriores, é possível afirmar que Facada 2 adaptou os eventos de Pânico 2 — principalmente pela fala que indica que os fãs ficaram bravos com a morte de Randy —, logo, isso traz um clima inédito para a narrativa do terceiro Pânico, já que a trama se desenvolve ao mesmo tempo que Facada 3 é sendo produzido — sem uma contraparte “factual” para adaptar —, permitindo uma nova abordagem para a narrativa, com piadas que não se referem mais aos filmes já lançados. Em outras palavras, a metalinguagem deste terceiro filme ocorre “em tempo real”, não se referindo a nenhum filme anterior, mas sempre brincando consigo mesmo. Um dos maiores exemplos é a reclamação de uma das personagens — que vive uma atriz de Facada 3 — quanto a dificuldade de decorar falas quando o roteiro do filme é reescrito o tempo inteiro, já que Pânico 3 teve seu texto reescrito mais de uma vez durante a produção.

Por conflitos de agenda, Kevin Williamson, roteirista dos dois primeiros filmes, não pode retornar, deixando o roteiro de Pânico 3 nas mãos de Ehren Kruger. O constante processo de reescrita — Kruger não era tão familiarizado com a franquia, de modo que Craven precisou reescrever boa parte do texto — cobra seu preço quando fica claro que o roteiro do filme é bastante inconstante, principalmente na elaboração da reviravolta final, pois diferente dos dois anteriores, a revelação no clímax deixa pontas soltas, uma vez que diversas pistas jogadas pelo filme podem ser vistas como “pistas ambíguas”, enquanto anteriormente tudo ficava encaixado de uma forma muito mais orgânica e autêntica. Até mesmo o retorno do além de Randy, motivado para a explicação das regras da vez, soa um tanto forçado, ainda que não seja nem de longe a decisão mais questionável do filme. Não bastasse isso, a produção ainda enfrentou problemas em como desenvolver uma narrativa violenta para um país que ainda estava sensibilizado pela violência na vida real: o filme foi lançado menos de um ano após o Massacre de Columbine, ocorrido no estado do Colorado nos EUA.

Todas essas questões acabam contribuindo para que Pânico 3 tenha um tom inesperadamente caricato. Ainda que a franquia em si possua uma veia cômica forte, o humor físico das perseguições dos filmes anteriores nunca foram realmente engraçadas, mas aqui existem alguns momentos que realmente desafiam o tom geral da obra — como quando Ghostface atira uma faca em Dewey (David Arquette) —, o que é no mínimo incômodo, já que o filme possui o subtexto mais “sombrio” da trinca, utilizando a narrativa metalinguística para tecer comentários críticos à cultura do estupro de Hollywood — na dúvida, verifique quem são os produtores do filme — sem clamar para si um tom de denúncia que pudesse fazer com que a produção fosse boicotada. Quando o filme se propõe a desenvolver isso e explorar a faceta traumatizada de Sidney, o resultado acaba ficando ainda mais desbalanceado, perdendo o equilíbrio delicado de Pânico 2 ao trabalhar com extremos: Pânico 3 ora é uma comédia que encobre seu tom crítico com sequências caricatas, ora é um drama psicológico que se aprofunda no suspense.

Diferente do texto, o elenco mostra-se afiado, com a trinca veterana — de sobreviventes — Campbell, Arquette e Courteney Cox concluindo o desenvolvimento de seus personagens, enquanto o elenco jovem — os personagens que dão vida aos atores de Facada — seguram o tom cômico consigo e potencializam a metalinguagem do filme. Parker Posey, que dá vida à contraparte “fictícia” de Gale em Facada 3 destaca-se não apenas pelo seu tempo de tela, mas pela ótima dinâmica que exerce ao lado de Cox e Arquette, que finalmente conseguem um desenvolvimento maior do que apenas as faíscas — do conflito ou do flerte — visto nos dois filmes anteriores. Já Neve Campbell e sua Sidney Prescott já se misturam com facilidade, com a atriz explorando muito bem os traumas da personagem, com sua melhor atuação na trilogia. Sua cena final no filme é intensa, transmitindo um enorme sentimento em apenas um olhar.

Com uma abordagem inédita para o uso da metalinguagem, cujas possibilidades já pareciam esgotadas com o filme anterior, Pânico 3 encerra a trilogia com altos e baixos. A ideia da narrativa paralela com Facada 3 é legal e se sustenta bem no decorrer do filme, mas ainda é uma obra que esmaece quando comparada ao que veio antes. Seu maior mérito é encerrar o arco dos personagens dignamente, apresentando um bom amadurecimento e sem soar repetitivo, mas seu texto confuso, pistas ambíguas e comicidade fora de tom prejudicam o conjunto, sem deixar algum traço positivo que o torne verdadeiramente marcante. Felizmente, a direção de Wes Craven impede que Pânico 3 torne-se esquecível — e que está longe de ser um filme ruim —, mas a impressão que fica é de este terceiro capítulo não será o filme de terror favorito de ninguém. 

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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