Pânico

 Pânico

Possivelmente, o cinema nunca foi uma arte tão pertencente a seus fãs quanto nos últimos anos. O público de hoje detém uma parcela gritante de uma pseudo-autoria, a ponto de serem “responsáveis” pelo redesign de personagens computadorizados, mudanças de roteiro de última hora e até mesmo pela realização de versões do diretor que executivos juram não existir. E coitados dos diretores, roteiristas ou atores e atrizes que, de alguma forma, “destroem” as memórias afetivas do espectador — nas palavras deste — ao mexer no legado de obras ou franquias amadas. Conscientes disso, a dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett (do divertido Casamento Sangrento) sabia que tinha uma tarefa espinhosa em mãos ao brincar com um dos maiores legados do cinema de terror: a franquia Pânico, uma das raras — talvez a única — franquia do gênero a ser conduzida pelo seu criador em todas as continuações. E quando o diretor em questão é um Mestre do gênero como Wes Craven, tal projeto se torna ainda mais complexo. Afinal, como revirar um legado tão forte sem despertar a ira dos fãs, caso não fizessem jus ao trabalho de Wes?

Como possivelmente algum personagem de uma franquia tão metalinguística quanto esta diria: existem algumas regras. Não desrespeitar o legado é a primeira destas, ou seja, a dupla de diretores precisaria entender o legado e prezar pelo que fez Pânico tão especial para seus fãs, mas ao mesmo tempo evitar cair na armadilha de fazer um filme que apenas prezasse pelo original. Nenhuma das continuações limitou-se a ser uma repetição, tampouco abriram mão da ousadia, sempre surpreendendo o público ao revirar sua própria fórmula e encontrando, de alguma forma, maneiras distintas e autênticas de atuar em cima do próprio legado. E para a surpresa — e alívio — dos fãs de Wes Craven, sim: o novo Pânico (Scream) — assim mesmo, sem um “5” na frente — honra o legado do diretor. Sem abrir mão do tom e da atmosfera da franquia, a dupla realiza algo que condiz tão bem com a franquia, que arrisco-me a dizer que eu consigo enxergar Wes usando a metalinguagem da mesma forma que fora empregada aqui.

A trama da vez se passa uma década depois dos eventos de Pânico 4 e não há muito ineditismo neste aspecto: um novo Ghostface surge para atormentar um novo grupo de adolescentes. A novidade, entretanto, é que dessa vez tudo parece conectar-se ao original — “nestas continuações, é sempre sobre o original” —, mas não necessariamente com Sidney Prescott (Neve Campbell), já que há um peso diferente nos crimes. Embora o nome da scream queen seja citado desde a sequência de abertura — sempre marcantes —, a atmosfera dos novos ataques soa diferente, voltada ao legado dos crimes originais de modo geral, apresentando ligações com ambientes, personagens e fatos relacionados à Dewey (David Arquette) e Gale (Courteney Cox), mas também com Randy (Jamie Kennedy) e até a dupla de assassinos originais, Billy Loomis (Skeet Ulrich) e Stu Macher (Matthew Lillard). Tudo isso é feito de forma pouco óbvia, ainda que a primeira vista, passe a impressão de que o filme está indo para uma direção já esperada.

Pânico

Uma das sacadas mais brilhantes da franquia, a meta-franquia Facada, mostra-se como uma das maiores ferramentas narrativas da obra. É por meio dela que a dupla de diretores estabelece uma nova conexão com o público, contextualizando a direção e o tom de Pânico enquanto, ao melhor estilo Wes Craven, tecem um comentário ácido sobre si próprios e sobre o que estão fazendo com o novo filme. Não só isso, mas Facada permite que os co-diretores possam olhar de fora para dentro da franquia Pânico, estabelecendo a metalinguagem da vez, não se referindo a outros filmes ou franquias, nem aos filmes anteriores em si, mas ao passado. São novos personagens olhando para os personagens originais através da meta-franquia que representa, para aquele universo, os crimes históricos ocorridos em Woodsboro. Isso possibilida a criação de uma nova dinâmica que lembra o clima de refilmagem de Pânico 4, mas que não é igual, pois o quinto filme não quer refilmar o original, mas homenageá-lo enquanto faz uma sequência.

Incrivelmente conscientes de que não são Wes Craven, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett optam por realizar o tal filme-homenagem que não esquece fazer parte de uma franquia, ao passo que brincam com a expectativa — ou seria medo? — de um reboot. Por meio de Mindy (Jasmin Savoy Brown), o “Randy” da vez, os diretores declaram estar cientes de que “reboots não funcionam mais”, e sem uma aparente intenção de reinventar ou reiniciar a franquia de forma original, realizam a sequência-legado. Ou seja, partem de um novo ponto de partida, mas conectando-se ao passado da obra, sem intenção de deixá-lo de lado, usando a nostalgia como lenha para reacender a franquia. É um modus operandi que Hollywood vem usando há algum tempo — Star Wars: O Despertar da Força e Jurassic World são apenas dois de inúmeros exemplos possíveis — para fazer com que fãs antigos retornem às suas propriedades intelectuais preferidas enquanto novos fãs também sejam conquistados. E é utilizando este conceito que Pânico 5 estabelece suas próprias regras.

É interessante notar que os co-diretores reconhecem as ironias de Craven — a piada com a regra do original que diz que nunca se deve dizer “eu já volto”, por exemplo —, mas nunca o fazem com um tom de deboche. Não existe uma necessidade de colocar a obra original e suas sequências como um conjunto obsoleto para conseguir destacar-se como uma novidade, uma revitalização. Neste aspecto, o novo Pânico se questiona a todo instante se há algo que possa fazer para honrar o original, em um surpreendente limiar de um reboot. Isso porque os diretores inserem conceitos inéditos na franquia, com cuidado para não se tornarem o tipo de continuação que criticam — através dos diálogos — o tempo inteiro. Se considerarmos que Pânico 4 foi realizado em 2011, antes da onda dos terror arthouse, o quinto filme ganha ainda mais força por conseguir trazer esta divisão do público — que costuma diminuir algumas obras do gênero em detrimento de produções mais “rebuscadas” — para seu próprio texto. Afinal, um filme da franquia não conseguiria seguir as regras deste tipo de terror sem descaracterizar a si próprio no processo.

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Com isso, os diretores não apenas trabalham diálogos para contrapor filmes slasher — em uma representação do terror mainstream — com este outro estilo mais “sério”, mas brincam com o contraste justamente nas cenas de morte, atribuindo a tais cenas um toque bastante peculiar. No geral, são mortes bem filmadas — uma morte em especial deve estar no ranking de melhores assassinatos da franquia —, mas que se apresentam de formas distintas, com momentos de morte súbita — um tiro na cabeça que beira a um jumpscare puro e simples — e outros construídos de forma mais meticulosa, com um trabalho de fotografia e de trilha sonora conjunto para exaltar a sequencia. Ambos os casos resultam em bons momentos, que talvez não sejam mais impactantes pelo fato de alguns personagens não conseguirem estabelecer o vínculo necessário com o espectador. Neste aspecto, a obra original segue invicta com as mortes mais emocionalmente impactantes, ainda que possua a menor contagem de corpos da franquia.

No elenco, Melissa Barrera é uma das adições mais intrigantes. Peça-chave para a trama do quinto Pânico, a atriz tem uma química muito boa com Arquette, além de ter a oportunidade de explorar bem os conflitos de sua própria personagem. Jenna Ortega, Jack Quaid e a já citada Jasmin Savoy Brown também funcionam bem, cada um agregando uma boa dinâmica para a obra. Dentre os veteranos, Arquette destaca-se em uma interpretação mais pessimista, mas também mais obstinada de Dewey, enquanto Neve Campbell e Courteney Cox mantém o mesmo tom de suas personagens no filme anterior, equilibrando drama e comicidade em sua dinâmica, que apesar de não soar inédita, é eficiente o bastante para funcionar no novo filme. Por detrás das câmeras, a falta mais sentida é a do compositor Marco Beltrami, pois embora a trilha de Brian Tyler funcione bem na obra, não possui a mesma presença das composições para os filmes anteriores. 

Pânico não é o melhor filme da franquia — sequer parece tentar ser — e não impõe-se com tanta força perante as demais continuações, mas prova-se como uma sequência digna ao legado de Wes Craven de forma respeitosa e divertida, com decisões ousadas e grandes cenas de morte. Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett mostram-se empenhados em compor um exercício metalinguístico que faça jus à franquia e também aos dias atuais, com momentos incríveis que não fariam sentido se adotados por alguma das sequências anteriores, mas que caem como uma luva para uma época onde o próprio gênero parece ser testado a cada novo lançamento. Mas principalmente, acertam ao brincar com a expectativa do fã, cujo maior medo causado pela franquia provavelmente será ver um Pânico sem Wes Craven no comando. Para este, a revelação final talvez seja a mais surpreendente dentro da franquia, levando a metalinguagem além de tudo que Pânico já fez e honrando o legado de Wes como ninguém imaginaria ser possível.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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