Pânico 2

 Pânico 2

Sequências são, por definição, inferiores” dispara Randy (Jamie Kennedy) a certa altura de Pânico 2 (Scream 2). A fala é parte de um diálogo onde ele, um dos sobreviventes do “Massacre de Woodsboro” — como os crimes do primeiro filme ficaram conhecidos — debate com outros alunos de um curso de cinema sobre como continuações são inferiores por si só. Há algumas exceções, como O Exterminador do Futuro 2 e O Poderoso Chefão: Parte II, é claro, mas o consenso é simples: não se supera o filme original. É a forma “carinhosa” que Wes Craven encontra de satirizar a si próprio e à sua obra que, seguindo a metalinguagem estabelecida um ano antes em Pânico, já nasce autoconsciente de sua própria limitação enquanto um filme inferior ao que veio anteriormente, já que continuações — quase — sempre limitam-se a ser uma versão “maior e pior” do filme original.

O início de Pânico 2 é emblemático por diversos motivos, mas de cara destaca-se por expandir a já funcional metalinguagem da obra original. Craven e o roteirista Kevin Williamson, em uma das maiores sacadas da continuação, abrem o filme apresentando a estreia de Facada (Stab), um “filme dentro do filme” que adapta, para aquele universo, os acontecimentos do primeiro Pânico. Se antes, a obra olhava para trás em busca de construir referências, agora ela estabelece um “olhar à frente”, se tornando o objeto a ser referenciado, ainda que por si mesmo. Assim, a abertura da continuação reapresenta o assassinato de Casey Becker (agora vivida por Heather Graham dentro de Facada) enquanto apresenta novos personagens e aproveita para tecer um comentário crítico sobre o racismo da indústria. Algo emblemático, já que existe a problemática das pessoas negras morrerem primeiro em filmes de terror, além de explicitar a própria falta de representatividade do primeiro Pânico.

Pânico 2

Nesta primeira cena de Pânico 2, Craven e Williamson dão um gostinho do que a sequência será, ligando o lançamento de Facada com uma nova onda de crimes onde, supostamente, um novo assassino “está tentando realizar uma sequência”. A forma cíclica como tudo vai se conectando cria uma dinâmica simples, mas prática, para reintroduzir os sobreviventes do massacre anterior — Sidney (Neve Campbell), Gale (Courteney Cox), Dewey (David Arquette) e Randy — enquanto apresenta os novos rostos da continuação, sem tomar muito tempo para explicar quem é quem e desenvolver suas personalidades — algo importante para a obra, visto que o espectador precisa entender e comprar as motivações do assassino, cuja revelação precisar seguir a lógica do primeiro: crível o suficiente para que o espectador possa juntar as peças, mas sem que se torne óbvia a ponto de perder a graça. Para tanto, além de introduzir um “novo namorado”, vivido por Jerry O’Connell, a obra insere uma nova repórter, Debbie Salt (Laurie Metcalf) e também traz às telas Cotton Weary (Liev Schreiber), que fora apenas mencionado no primeiro filme como um inocente que foi preso pelo assassinato de Maureen Prescott.

Cada um destes agrega uma nova dinâmica para os protagonistas, de forma óbvia ou não. Salt, por exemplo, surge em tela criando certa rivalidade com Gale. Já o personagem de O’Connell é um suspeito quase óbvio de estar por trás dos crimes, ainda que não óbvio demais: a continuação pode estar repetindo o primeiro — um “novo Billy Loomis” — ou tentando subverter a si mesmo, surpreendendo neste aspecto. Já Cotton entra em cena com motivação suficiente para querer a cabeça de Sidney, já que foi o testemunho dela que o colocou na prisão injustamente. Conforme Pânico 2 se desenrola, apresentando motivações e retirando suspeitas enquanto aumenta a contagem de corpos — afinal, esta é uma das regras de continuações: aumentar a carnificina —, aprofunda o jogo de detetive já bem estabelecido no primeiro filme, ao passo que reitera que todos ali são suspeitos, mas também vítimas em potencial.

Além de toda a construção da metalinguagem através de Facada, com direito a cenas do filme sendo exibidas aqui e ali e durante a obra, com gags espertas como a menção a David Schwimmer — co-estrela de uma sitcom famosa ao lado de Courteney Cox e outros quatro amigos —, Craven faz da teatralidade um elemento central de Pânico 2. De forma metafórica ou literal, o teatro está muito presente na continuação, principalmente quando se refere ao desenvolvimento de Sidney. A personagem tem sua vida explorada pela mídia, como se fosse um grande palco para as atrocidades que a cercam, sendo impedida de viver normalmente e, de muitas formas, impedida de ser ela mesma. Cursando teatro, Sidney precisa constantemente se reafirmar, como no momento em que repete sobre ser uma lutadora — quando, aparentemente, passa a duvidar sobre si mesma —, ao passo que o palco do teatro a acolhe e se transforma em “arma” durante o clímax do filme. Uma temática forte e relativamente propícia para uma franquia cujo ato final sempre gira em torno de máscaras caindo.

Pânico 2

Embora inferior ao primeiro filme — seguindo a “regra” da continuação nunca ser melhor —, é nos detalhes que Pânico 2 se engrandece, como utilizar o argumento “ele é fã de Tarantino” para apontar o possível assassino, debatendo — com a ironia característica do diretor — um questionamento já pincelado no primeiro filme, sobre a violência na arte ter alguma relação com atos cometidos na realidade. Uma discussão ainda presente e que já soa datada quando apresentada aqui. Temos também o brilhante uso da trilha sonora de Marco Beltrami, que já fora suficientemente marcante no filme anterior, tocando Sidney’s Lament — a música tema da obra — somente no instante em que a protagonista precisa encarar que tudo está, de fato, acontecendo novamente. O enquadramento solitário da protagonista, aliado à melodia, cria um momento emblemático e arrepiante, representando um ponto de ruptura para a personagem que já ensaiava deixar seus traumas para trás, mas que ali encara a realidade de que talvez ela nunca se liberte desse horror que teima em persegui-la, deixando um rastro de sangue e corpos pelo caminho.

Encontrando o equilíbrio entre renovação e respeito à obra original, Wes Craven realiza em Pânico 2 um terror de alto nível, que não supera o anterior — e talvez nem devesse, já que continuações não fazem isso —, mas faz jus ao que havia sido construído. Com um texto tão interessante quanto o do primeiro Pânico, a sequência é um dos raros casos em que um segundo filme não se limita a continuar o antecessor, funcionando como uma expansão deste ao agregar novas camadas, informações e personagens. Construindo uma mitologia séria, mas que não se leva a sério, Craven reforça os pilares que fizeram o primeiro Pânico tão bom sem se restringir a imitar a fórmula, evitando as duas maiores armadilhas de uma continuação: refazer o que deu certo de forma “maior” ou subverter de forma negativa, descaracterizando a franquia, consagrando Pânico 2 como uma das melhores continuações do cinema. Digno de suceder a obra responsável pela revitalização do gênero um ano antes.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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