Pai em Dobro

 Pai em Dobro

É comum haver certo preconceito com comédias nacionais estreladas por atores globais que pipocam excessivamente nos cinemas. E embora esse sentimento seja muitas vezes justificável, o cinema nacional está longe de resumir-se a isso. Assim, Pai em Dobro surge como uma opção alternativa a este padrão, apresentando uma trama até mais inspirada do que o esperado, mas com uma execução que, infelizmente, não acompanha tal sentimento.

A obra é o primeiro projeto de Maísa Silva na plataforma Netflix, embora esteja longe de ser a primeira empreitada da garota como atriz. A jovem interpreta Vicenza, habitante de uma comunidade hippie que sonha em conhecer seu pai biológico, segredo guardado a sete chaves por sua mãe Raion (Laila Zaid), que reforça inúmeras vezes que “ainda não é a hora certa” para a filha já nos primeiros cinco minutos de filme. Aliás, é claro que não é necessário mais do que isso para que o espectador saiba que o enredo não irá se desenrolar conforme a vontade de Raion. Originalidade não parece ser a intenção da diretora Cris D’amato (É Fada, Sai de Baixo: O Filme), que tem consciência dos clichês da história e prefere ditar o tom de sua obra por um viés muito mais acolhedor, fofo, com direito — é claro — a final feliz e uma lição de moral.

Pai em Dobro

Por sinal, esta energia good vibes, a la conto de fadas brasieiro, é exatamente o tom que a diretora e os roteiristas Thalita Rebouças e Renato Fagundes pretendem dar para a jornada de Vicenza, que à certa altura da obra declara que suas aventuras sempre dão certo, “é só seguir o coração”. Não existem, de fato, muitos contratempos que aparecem em seu caminho, o que causa certa estranheza dada a facilidade — e as coincidências — que levam ela a encontrar seu possível progenitor. Aliás, não apenas um, mas dois possíveis pais, como o título já deixa claro. É de se impressionar também a facilidade com que os dois personagens simplesmente a abraçam como sua filha — provavelmente motivados pela lembrança da mãe, pois apenas ouvir o nome de Raion é suficiente para despertar olhares apaixonados de ambos — sem necessariamente haver um conflito desenvolvido aí, embora exista uma sugestão disso quando a garota se encontra com o “primeiro” pai, Paco (Eduardo Moscovis). Entretanto, nada que não seja resolvido duas ou três cenas depois.

Daí em diante, a obra desenrola-se de forma clichê, seguindo através de montagens da garota com Paco e Giovanne (Marcelo Médici) enquanto os conhece e reflete sobre qual deles é seu pai de fato. Como o roteiro estabelece poucos conflitos e não tem muita atenção para os coadjuvantes — que estão organizando uma festa beneficente que não poderia ser menos importante para a trama —, não existem muitas possibilidades para trabalhar em um terceiro ato que soa bastante previsível. Neste meio tempo, aspectos minimamente interessantes se perdem, como por exemplo o desenvolvimento dos pais, personagens bastante distintos entre si: um é um pintor em crise, com bloqueios criativos, o outro é um homem de negócios dono de um banco e com um casamento fracassado. Apesar de tão diferentes, as cenas de Vicenza com a dupla são, basicamente, as mesmas, resultando em um repeteco cansativo no segundo ato.

Pai em Dobro

Há também algumas possibilidades que o roteiro cria, mas opta por não desenvolver ou o fazem sem muito zelo. A representação de Raion, por exemplo, é feita com certo deboche, quase uma caricatura da comunidade hippie apresentada e que, por sua vez, é deixada de lado logo no início do filme. Ao mesmo tempo, Paco é um personagem bastante interessante à primeira vista, justamente por ser inserido em um contexto urbano — se comparado à vila de Vicenza e Raion —, mas que foge do estereótipo do tipo, sendo um homem muito mais ligado às artes, ao sentimento e à natureza. Ou seja, é pouco “urbano”, ainda mais se comparado à Giovanni — que é praticamente seu oposto, no modo de se vestir, morar, etc —, mas não chega a ser tão hippie quanto Raion e Vicenza. Algo que poderia ao menos gerar alguns diálogos divertidos, mas é ignorado completamente. Ao invés disso, a obra prefere inserir um sem-fim de piadas envolvendo o choque cultural da protagonista, das quais poucas funcionam de fato, enquanto algumas são apenas pejorativas.

Com uma montagem esquisita — é realmente necessários tantos cortes para um diálogo entre dois personagens? — e uma coleção de clichês e estereótipos, empilhados como um castelo de cartas prestes a ruir, Pai em Dobro não vai muito longe além de apresentar uma premissa que poderia ser interessante se trabalhada de outras formas. É legal ver uma obra que permita-se sair do padrão e abordar temas como família e amor de formas diferentes do que estamos acostumados a ver, mas falta certa ousadia para fazer com que o filme vá além de boas intenções e do exuberante carisma da protagonista. Afinal, diferente da vida de Vicenza, seguir o coração nem sempre é suficiente, principalmente quando se trata de fazer bom cinema.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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