Os 7 de Chicago

 Os 7 de Chicago

Aaron Sorkin é inegavelmente um dos roteiristas mais interessantes de se acompanhar na atual Hollywood. Responsável pelo exímio roteiro de A Rede Social, o roteirista estreou na direção com o interessante A Grande Jogada e agora retorna a cadeira de diretor em Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7), obra que revisita um marcante acontecimento da história americana nos anos 60 — o julgamento de sete ativistas acusados de conspiração —, mas que reflete com facilidade a realidade mundial de hoje.

Movido majoritariamente por diálogos — sejam eles no julgamento em questão ou em flashbacks que contextualizam o acontecimento e a luta travada —, Os 7 de Chicago começa como um filme “vítima” de seu gênero. Filmes de júri tendem a possuir uma estrutura de roteiro bastante limitante, seguindo uma lógica de debates que irão culminar em um clímax envolvendo, é claro, a sentença. Felizmente, como bom roteirista, Sorkin possui um bom domínio da arte dos diálogos, utilizando momentos chave para fazer incisões precisas e evitar que a obra caia no marasmo — um exercício hercúleo, dadas as mais de duas horas do filme —,  mas ainda assim lhe falta algo enquanto diretor que faça com que a obra funcione em seu máximo.

O diretor-roteirista acerta, por exemplo, na apresentação de seus protagonistas e o desenvolvimento de alguns destes: dos sete réus, há dois bem desenvolvidos (interpretados por Eddie Redmayne e Sacha Baron Cohen), além de um oitavo personagem (Yahya Abdul-Mateen II) — também sendo julgado — que não parece ter lugar certo na narrativa, e também uma dupla de advogados que, embora possuam papéis bastante burocráticos — o empenhado defensor do grupo, vivido por Mark Rylance e o advogado “antagônico” a eles, mas correto e de bom coração, interpretado por Joseph Gordon-Levitt —, funcionam bem não apenas pela dinâmica como por suas ótimas atuações. Existe um bom número de personagens, que são facilmente identificáveis e nunca confundem o espectador, pois suas motivações, ideologias e personalidades ficam bem claras logo no ato inicial.

Os 7 de Chicago

Entretanto, mesmo que todos estes personagens estejam concentrados em uma única trama, Sorkin demonstra certa dificuldade ao trabalhar as diversas pautas que escolhe trazer para dentro de sua obra, fragmentando o enredo e o ritmo do filme. Com uma trama principal já bastante complexa, sobra pouco tempo para o roteiro desenvolver alguns dos tópicos abordados da forma merecida, embora fossem relevantes para a obra, tanto por sua importância social — racismo, violência policial, abuso de poder — quanto pela retratação da época em questão. Um exemplo disso é a forma que o filme aborda Bobby Seale (personagem do já citado Abdul-Mateen II), co-fundador do Partido dos Panteras Negras e único réu negro retratado na obra.

Em dado momento, o personagem grita a plenos pulmões que “não é parte dos sete de Chicago”, e de fato, ele não é. Enquanto sua presença é necessária para salientar o racismo da época no julgamento, é incômodo constatar que Sorkin nunca sabe exatamente como encaixar o personagem — e sua própria luta — dentro da trama, resultando em cenas que isoladamente são fortes, mas não fluem com o restante. Ao passo que a narrativa principal, que trata da acusação de conspiração por parte dos sete réus após um conflito violento entre manifestantes e a polícia local, acaba polarizada entre o mais flexível Abbie Hoffman (Redmayne) e o debochado Tom Hayden (Baron Cohen). Do mesmo lado e lutando a mesma luta, é fascinante ver como a dupla pode ser tão diferente, algo que Sorkin expõe brilhantemente através do texto e dos enquadramentos.

O diretor-roteirista é eficiente também ao demonstrar o impacto do julgamento na sociedade logo nos minutos iniciais, quando um dos personagens questiona se haverá um público muito grande. Antes da cena ser cortada, já é possível ouvir a multidão gritando o que veio a ser o slogan dos protestos da época: “o mundo inteiro está assistindo” — frase que, inclusive, embalou muitos dos protestos atuais relacionados ao movimento Black Lives Matter —, deixando claro como o público estava reagindo ao julgamento. A cena — e o uso da frase durante o filme — também reforça a ideia da relevância da imprensa no caso, outra forma de Sorkin fazer a ponte entre os eventos da época com momentos atuais, além de complementar o debate que existe na obra se os réus estavam sendo vítimas de um julgamento político ou não.

Os 7 de Chicago

Para um filme de tribunal, o diretor-roteirista se sai incrivelmente bem fugindo dos aspectos mais clichês enquanto, através de flashbacks, compõe uma montagem fluída e constrói um ápice dramático bastante interessante, envolvendo o personagem de Redmayne. Este, por sua vez, entrega uma atuação bastante sólida, mesmo sem recorrer aos tiques e maquiagens comuns de seus últimos papéis. É Baron-Cohen, entretanto, que destaca-se pelo seu timing cômico e também pela entrega que dá a seu personagem, algo que Sorkin valoriza tanto nas sequências do ator no tribunal, quanto nas pontuais cenas do personagem executando uma espécie de stand-up comedy. Momentos estes que trazem uma bem-vinda dose de ironia, não necessariamente transformando a obra em uma comédia, mas funcionando para aliviar a tensão constante do filme. 

Embora Os 7 de Chicago possa não atuar em seu máximo potencial dada a dificuldade de conciliar tudo e todos, vale apontar que Aaron Sorkin demonstra grande segurança como diretor — embora ainda esteja longe de atuar tão bem nesta cadeira como o faz enquanto roteirista —, construindo uma narrativa que não cansa, embora careça de certo polimento. As similaridades das denúncias mostradas na obra com diversos problemas que são vistos ainda hoje é impressionante, e Sorkin utiliza todos os recursos a seu alcance para potencializar o impacto, realizando um interessante retrato de uma sociedade que pouco evoluiu nos cinquenta anos que separam os eventos mostrados no filme dos dias atuais.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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