Os Inventados

 Os Inventados

Os Inventados (Los Inventados) é um filme, à sua própria maneira, muito desafiador. Não que seja difícil de entender, na verdade nem se faz. É uma narrativa simples com um plot simples que mostra-se bastante instigante a princípio, mas cujo desenvolvimento se dá de forma tão banal que é difícil permanecer investido quando, aparentemente, nem os envolvidos na produção estão. Não suficiente, a obra oferece uma quebra de expectativa bem distinta, o que é até compreensível quando você descobre que a direção do filme foi realizada em trio. Nicolás LonginottiLeo Basilico e Pablo Rodríguez Pandolfi dirigem um filme, portanto, que acaba soando como se a trinca realizassem obras distintas para, apenas depois, atá-las em um único fio narrativo.

O resultado é intrigante o suficiente, ainda que não funcione em sua totalidade. Na obra, acompanhamos Lucas (Juan Grandinetti), ex-ator mirim que tenta manter-se na área realizando testes nos quais não aparenta sentir-se totalmente à vontade. Para tentar dar uma virada na carreira e conseguir a relevância de outrora — ainda que nunca fique totalmente claro se ele fora um ator mirim de muito sucesso —, ele se inscreve em um tipo de workshop de atuação. Tudo vai bem até que, eventualmente, os outros participantes desaparecem sem deixar vestígios ou memórias, como se nunca estivessem presentes ali.

Há claramente um exercício metalinguístico dentro da premissa, já que sua trama possui uma ambiguidade nata: é tudo fruto da imaginação do jovem ator ou realmente existe algum tipo de “abdução” ocorrendo no local? Ou é tudo um simples e muito bem elaborado estudo de atuação, buscando levá-lo a uma situação extrema para que ele exponha todo o sentimento latente que parece adormecido no rapaz? A curiosidade, força-motriz de um primeiro ato cheio de questionamentos para o protagonista e espectador, é bem construída. Além de, claro, ser divertido perguntar-se quem irá sumir na sequência e quais serão as consequências disso no comportamento de Lucas.

Eis então a primeira falha de Os Inventados: Lucas, que aparentemente carece da paixão necessária em seu ofício, não parece verdadeiramente abalado com os desaparecimentos. Seu comportamento limita-se a se questionar e aceitar tudo aquilo como parte da experiência que se inscreveu. Na ausência de um personagem que busque a verdade, que se incomode com o conflito à espreita, o roteiro — escrito pela mesma trinca da direção — acaba, lentamente, estagnando. Logo, não importa o que está acontecendo no local, o que está no centro da narrativa é um pseudo-romance entre o protagonista e uma outra participante do workshop. Ao mover este foco para uma relação que caminha a passos lentos, a trinca de diretores acaba nublando o maior trunfo que tinham em mãos.

Os Inventados

Se logo no início os personagens precisam criar personas para si próprios, a narrativa desacelera conforme as máscaras vão, pouco a pouco, sendo retiradas. É uma ideia interessante, que permeada com a fotografia Jonatan Plat ganha ares muito mais teatrais, propositalmente fajutos, exaltando a experiência e ajudando na imersão. Mas perde força devido ao exagero na apatia, já que a situação segue em frente com os desaparecimentos sem que Lucas tenha uma reação que soe verdadeira. Não parece ser do interesse dos diretores que a obra caminhe com o protagonista até seu limite, mas apenas gire em torno de seu eixo. Existe uma premissa — os desaparecimentos — e apenas isso. Não há consequências, questionamentos ou conflitos maiores, o que torna toda a segunda metade da obra um tanto frustrante, já que passamos a aguardar vidrados que alguém tenha alguma reação.

O termo “perde-se no personagem” cabe bem aqui, já que aparentemente o próprio Lucas vai perdendo-se na máscara inventada para si a ponto de não conseguir reagir como um ser humano normal o faria naquela situação desesperadora. Ao mesmo tempo, a trinca de diretores aparentemente soltam as rédeas se sua narrativa, passando a impressão que não sabiam exatamente para onde levá-la e deixando os rumos serem tomados ao acaso. Diálogos, questionamentos e até mesmo algumas pistas deixadas aqui e ali — como os constantes lapsos de memória que relembram ao espectador o passado do protagonista — vão perdendo-se em um desenvolvimento que abraça a apatia. No final, nada realmente importa e, talvez em um tipo de autoconsciência do caminhar da própria história, Os Inventados opte por encerrar sua narrativa. Não sem antes beirar uma quebra de quarta parede ao encarar o espectador, em um dos únicos momentos em que honra algum traço inerente de si próprio: a metalinguagem.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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