Olga

 Olga

Assim como tantos gêneros e subgêneros, o “filme de esporte” acaba por possuir suas próprias lógicas internas, geralmente acompanhando personagens obstinados em trajetórias de superação — seja superando obstáculos, algum rival, ou os próprios limites, etc — que podem ou não levar a uma vitória grandiosa em sua conclusão. Portanto, não tarda para que o espectador perceba que o trabalho de Elie Grappe no sueco Olga vai muito além da simples narrativa esportiva. Desde sua surpreendente sequência inicial — que possui um momento que remete àquela cena de Filhos da Esperança — até seu terceiro ato, a obra trabalha de forma a impactar seu espectador enquanto cria uma atmosfera que beira ao terror psicológico de sua protagonista.

A trama segue Olga (Anastasia Budiashkina), uma jovem ucraniana e promissora ginasta que é exilada na Suíça enquanto manifestações na Ucrânia implodem, colocando-a numa posição conflituosa entre seguir sua ambição enquanto deixou familiares e amigos para trás. Este fio-condutor poderia ser interessante pela questão do dilema da personagem, o que torna o filme tanto uma obra esportiva quanto uma narrativa política, mas se isso por si só não for suficiente, Grappe consegue trazer ao filme um diferencial de fato no que tange à execução técnica da obra, principalmente nas sequências de treinamento — um clichê de qualquer obra focada em esportistas — da protagonista, já que o modo como conduz sua câmera, passeando pelo cenário, aliada a uma sensacional mixagem de som, tornam todas as cenas do tipo em momentos verdadeiramente claustrofóbicos.

Olga

É divertido — e um tanto assustador — notar como Grappe converte Olga aos poucos, nunca deixando de lado o subgênero esportivo — ao menos não completamente —, mas trazendo para si aspectos do cinema de horror, mesmo que o filme nunca se caracterize, especificamente, como um filme do gênero. Isso porque o diretor trabalha com sua protagonista em dois campos específicos, como consequências do conflito pessoal desta. Em outras palavras, ao passo que Olga precisa lidar com o medo de que alguma pessoa próxima a ela se machuque em decorrência das manifestações, ela também precisa manter-se fisicamente apta ao máximo, para poder participar e se sair bem nas competições. Com isso, o diretor trabalha duas vertentes diferentes do horror: o psicológico e o body horror, alternando entre elas para evidenciar ao espectador o impacto exercido pela pressão em torno da protagonista.

Tal construção, entretanto, fica em segundo plano por boa parte da obra, já que aproximadamente pela metade do segundo ato, cria-se uma barriga de roteiro que poderia ser melhor aproveitada, ou para aprofundar ainda mais as questões internas da protagonista, ou para elaborar melhor a situação da Ucrânia, algo que faz um pouco de falta para o espectador, já que é um tanto difícil entender totalmente o contexto. Se o filme não perde-se por completo, é — novamente — pela atmosfera bem construída pelo diretor. Neste aspecto, vale ressaltar ainda como a mixagem de som ajuda o público a entrar na obra, já que é quase possível sentir todas as quedas ou impactos sofridos no corpo de Olga. Budiashkina, neste sentido, exalta ainda mais todo o trabalho com uma atuação suficientemente consistente, entregando muito bem toda a aflição de sua personagem devido à preocupação com sua mãe, sem necessariamente cair no lugar comum ao retratar o esforço enquanto ginasta.

Olga

Para uma obra com um cunho político tão forte, é importante notar que Grappe consegue trazer uma boa dose da emoção tradicionalmente sentida em filmes de esporte, auxiliado por uma montagem eficaz em dar ritmo sem deixar de lado o aspecto esportivo da narrativa, mostrando bastante cuidado ao elaborar as cenas de ginástica sem que estas se tornassem genéricas. O diretor sabe posicionar sua câmera para criar boas sequências, potencializando a tensão, como nos momentos em que Olga treina um movimento específico no qual apresenta certa dificuldade. Quando cai, o impacto é sentido, mas quando esta consegue, há uma exaltação genuína por parte do diretor, ao passo que também desperta um alívio do espectador em não vê-la caindo no chão. A construção é semelhante ao que se espera de um bom jumpscare, já que cria a devida antecipação em um acordo silencioso entre diretor e público, ambos como torcedores da ginasta, torcendo pelo melhor, mas temendo pelo pior.

Com tanto a dizer, Olga ainda tem espaço para que o diretor crie um terceiro ato suficientemente denso, de deixar o grito preso na garganta. Para uma estreia, é surpreendente o controle que Grappe demonstra sobre sua narrativa, elevando-a quando necessário, mas mantendo-se de forma firme ainda que aposte no seguro, construindo sua obra por caminhos familiares e destacando-se mesmo no que tange à execução. Seu final pode deixar um pouco a desejar, pois soa um tanto anticlimático após a resolução do terceiro ato, funcionando quase como um epílogo, mas ao menos rende uma conclusão satisfatória para uma jornada tão sufocante quanto a apresentada. Uma obra complexa e suficientemente intrigante para surpreender o espectador que se deparar com ela, além de uma estreia bastante cativante para o diretor.

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também