44ª Mostra de SP | O Tremor

 44ª Mostra de SP | O Tremor

Filmes que usam unicamente a sugestão como força-motriz da trama não são novidade, principalmente dentro do gênero do terror. Obras como A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project) e Atividade Paranormal (Paranormal Activity) criaram uma legião de fãs e fizeram muito dinheiro, além de assustar o público sem mostrar nada — ou quase nada —, apenas utilizando uma direção criativa enquanto evita algo explícito. No caso, tais filmes apenas sugerem e descrevem ameaças, mas a trajetória faz com que o espectador se torne vítima da própria mente e tema, ainda que sem saber exatamente o que. O Tremor (Nilanadukkam), obra indiana do diretor Balaji Vembu Chelli não é bem uma obra de terror, mas cria um efetivo suspense ao saber trabalhar os elementos enquanto cria uma narrativa bastante enigmática.

No filme, acompanhamos um fotojornalista interpretado por Rajeev Anand que vai realizar uma reportagem sobre um vilarejo destruído por um terremoto na região de Kookal. Essa jornada começa curiosa pela expectativa do que ele irá encontrar no lugar, principalmente após uma cena — realizada em primeira pessoa — mostrar um rastro de destruição, porém não tarda para que o suspense domine o tom da obra. Montanha acima, vemos o personagem encontrar alguns moradores, mas nenhum que saiba lhe informar de fato sobre alguma catástrofe ocorrida no lugar. A trilha sonora — que sugere que existe algo assustador ou pregando peças no protagonista à espreita —, aliada aos constantes planos onde vemos uma névoa densa tomando conta da região, tornam a jornada ainda mais intrigante.

Tremor

Usando de artifícios tão simples quanto estes, o diretor aos poucos constrói uma frustrante narrativa de paranóia, com o personagem andando em círculos persistindo em sua busca que não rende frutos nem respostas. Conforme o filme avança, Chelli desenvolve ainda mais as sugestões já presentes desde o primeiro ato, criando cada vez mais perguntas e alimentando a sensação de que algo ou alguém simplesmente está brincando com o protagonista. Tudo se parece com uma elaborada farsa, mas sem que um propósito claro exista — ou ao menos seja explanado ao espectador — e à medida que outros moradores surgem na trama, reagindo ao repórter com certa hostilidade, cogita-se até que exista algum segredo no lugar que sequer esteja relacionado ao terremoto. De toda forma, a ausência de respostas instiga somente a sensação de frustração. Não de forma ruim, pois há um mérito pela forma quase minimalista com que o diretor constrói esse sentimento, através de planos simples e sequências silenciosas, quase sempre pontuadas pela já citada trilha sonora melancólica.

Para um filme de 70 minutos — relativamente curto —, a repetição cobra o preço e faz com que a trama soe cansativa em certo ponto. É possível que seja proposital — para incutir no espectador a mesma sensação do protagonista —, mas a impressão é de que um curta daria conta do recado, preservando a experiência cinematográfica, mas tornando-se menos maçante. À certa altura, a obra flerta com o fantástico ao sugerir uma possível resolução envolvendo o sobrenatural, o que permitiria sair da estrutura repetitiva — entra no carro, sobe a montanha, tenta descobrir algo —, mas não o faz. A tensão se mantém, principalmente pela sensação de tempo esgotando conforme a névoa sobe — ainda que nada sugira algum perigo nisso — e “apaga” as paisagens. Mas ainda assim, a sensação de cansaço persiste.

Tremor

Mesmo com essa questão no ritmo, O Tremor ainda é uma obra bastante interessante, principalmente pela sua forma de cativar o espectador através da frustração, colocando-o lado a lado com o fotojornalista enquanto dividem tal sentimento. O suspense é bem construído e a curiosidade é mantida até os minutos finais, quando o diretor Balaji Vembu Chelli sugere uma resolução para todo o caso, mas mantendo-se fiel à sua proposta e recusando respostas óbvias. Com um final bastante sensorial, o filme pode incomodar ou provocar o espectador, de forma que a experiência acaba sendo bastante pessoal para cada um. Mas como dizem, o que vale é a jornada.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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