O Tigre Branco

 O Tigre Branco

A narrativa do conflito de classes pode ser tão velha quanto o próprio cinema, mas existe algo magnético nas histórias de ascensão social onde alguém de classe baixa alça o topo da sociedade, seja por meio de seus próprios esforços, sorte ou por quebrar as regras de modo que alguns não estejam dispostos. Dentro e fora da sétima arte, tal narrativa permanece universal e, se bem contada, pode render mais que um bom entretenimento. O Tigre Branco (The White Tiger), do diretor Ramin Bahrani surge como um bom aspirante a este tipo de obra, revelando-se como algo instigante e poderoso já nos minutos iniciais que, entretanto, acaba diluído em um enredo exageradamente maniqueísta e caricato.

Bahrani adapta para os cinemas o livro homônimo escrito por Aravind Adiga, que conta a trajetória de Balram (Adarsh Gourav), protagonista de origem humilde que agarra a primeira oportunidade que vê para conseguir deixar sua realidade para trás e alçar vôos mais altos. Balram, que ainda criança fora chamado por seu professor de “tigre branco” por sua raridade — no caso, o garoto é raro por sua capacidade de ler inglês, algo que o difere das outras crianças e lhe garante uma bolsa de estudos —, é apresentado em dois pontos distintos de sua vida: em um, como um empreendedor de aparente sucesso, em outro, como passageiro no carro dirigido pela personagem de Priyanka Chopra. Ao estabelecer um ponto de partida e um de chegada, Bahrani cria um vínculo de curiosidade imediata, que faz com que o espectador embarque na história.

O Tigre Branco

O que vemos a partir daí é uma narrativa mais linear, com pontuais interrupções do próprio protagonista no presente narrando seus fatos — a trama ocorre em forma de flashback — e colocando sua visão na obra, enviesada e compreensivelmente não-confiável. Balram é aquele tipo de narrador cuja versão dos fatos atrai pela humildade e sinceridade, não hesitando em elogiar um dos chefes por este ser minimamente decente com ele, da mesma forma que expõe seus pensamentos diversos quanto à Pinky, que demonstra certa inclinação para ser uma “salvadora” ao vir dos EUA para a Índia e, portanto, enxergar os erros da sociedade de castas do lugar. Aliando esta sinceridade com certa inocência — ainda que diversas vezes demonstre consciência das dificuldades que aquela sociedade lhe reserva —, Balram conquista o espectador, que pode se identificar com o personagem com certa facilidade, perdoando inclusive seus deslizes no decorrer da história.

O Tigre Branco

A atuação de Gourav, neste sentido, é um aspecto central para O Tigre Branco funcionar, pois não seria possível comprar a ideia da trama se o ator não conseguisse passar com fidelidade esse olhar inocente que Balram possui do mundo. Além disso, através de certo ‘endurecimento’ no olhar, o ator transmite com perfeição a transformação do personagem no decorrer da história. Apesar disso, o maniqueísmo contido em sua jornada incomoda e não o faz da melhor forma possível. Não é um incômodo genuíno, despertado pela desigualdade gritante mostrada na história, e sim por uma sensação quase fabricada meticulosamente pelos personagens em cena. Por exemplo, se o chefe principal de Balram é minimamente simpático com o protagonista, seu irmão é o completo oposto a ponto de irritar apenas por aparecer em tela. Quase como se a Índia e sua população pudessem ser resumidos na dinâmica do “tira bom, tira mau“.

Ao criar tal caricatura do país e de seus habitantes, O Tigre Branco peca por simplificar demais um enredo com camadas que são perceptíveis, porém inexploradas. E ainda que possa defender-se ao estabelecer que a ótica utilizada é o ponto de vista de Balram, permanece a sensação de que Bahrani não soube como conduzir o enredo em sua segunda metade, levando a um segundo ato destoante do todo e uma conclusão apressada, que recorre ao recurso da quebra da quarta parede, coroando com sucesso o tom caricatural que o filme assume da metade para o final. O resultado é interessante, sim, mas com certeza não é uma experiência tão fora do comum quanto o felino que traz em seu título possa sugerir.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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