44ª Mostra de SP | O Problema de Nascer

 44ª Mostra de SP | O Problema de Nascer

Tal como julgar um livro pela capa, alguns filmes atraem o espectador pelo seu título curioso, que exercem a função de chamar atenção entre tantas obras que chegam aos cinemas e streaming. Nessa linha, uma das obras cujo título fisgou minha atenção foi O Problema de Nascer (The Trouble with Being Born), da austríaca Sandra Wollner. Refletindo sobre o significado do título, imaginei que “morrer” seria o problema óbvio, mas o roteiro co-escrito por Wollner e Roderick Warich trabalha em outros aspectos tão ou mais filosóficos quanto buscar o sentido da vida e da morte.

Na obra, conhecemos Elli (Lena Watson) e seu pai (Dominik Warta), dupla que vive isolada enquanto passam os dias quentes na piscina. Há uma sugestão de que o relacionamento dos dois seja mais íntimo que o de pai e filha, algo não confirmado explicitamente, mas que é suficientemente reforçada por diversos aspectos — alguns questionáveis — a ponto de tornar-se bastante incômodo. Essa sensação ganha novos contornos quando é revelado que Elli na verdade é uma andróide — um ser robótico com aparência humana —, o que levanta algumas questões, mas explicita respostas.

O Problema de Nascer

Desde que o sci-fi existe enquanto gênero, diversas perspectivas sobre a evolução da robótica foram exploradas. Existem inteligências artificiais que questionam seu propósito, que desejam ser humanos, ou mesmo que se revoltam quanto a seus criadores — o monstro de Frankenstein, ainda que não seja um exemplo de robô, já refletia sobre como a criação pode pagar o preço pelos erros de seus criadores. O Problema de Nascer não está buscando trabalhar novamente esses aspectos, mas usa do histórico do gênero para criar sua provocação: uma vez que a função básica de uma ferramenta criada pelo homem é auxiliá-lo, que motivações podem levar a criação de uma robô com traços femininos e infantis?

As intenções da diretora não ficam claras, mas sua direção permite diversas interpretações, todas igualmente desconfortáveis. Por exemplo, enquanto temática da obra, a questão da pedofilia não é muito aprofundada — e por isso mesmo não passa de uma sugestão, como já apontado —, mas faz parte de uma provocação maior. Elli não tem controle sobre si mesma, nem mesmo sobre seus pensamentos — suas memórias são artificiais, servindo aos propósitos do seu suposto pai — e, embora aja com certa naturalidade, tudo indica que ela não passa de um objeto. Além da conotação sexual clara da relação, exposta geralmente pelo modo como os personagens são enquadrados — além da presença do vermelho em alguns momentos, cor relacionada a paixão —, também é sugerido que a personagem esteja ali substituindo alguém — provavelmente a filha do homem, que um dia desapareceu, provavelmente fugindo —, e suas memórias parecem guiá-la pelo mesmo caminho.

Esta forma submissa com que Elli é abordada no filme cria uma sensação de conexão entre o espectador e a garota, que já não parece tão “artificial”. Não por sua aparência, mas por ficar claro que ela tem seus próprios anseios e traumas, gerados pelas lembranças de outra pessoa — uma pessoa de verdade, se é que essa separação possa ser feita — em prol de satisfazer o desejo de seu “pai”, ignorando as consequências psicológicas causadas por isso. É praticamente impossível permanecer alheio à sua dor conforme a obra retrata Elli como vítima, um brinquedo isolado pelos planos de Wollner enquanto a atenção é direcionada aos outros a seu redor, seja pelo enquadramento, seja pelos diálogos em voice off. E ao passo que ela é mostrada como escrava dos desejos de outrem, ela também é — em suma — humana.

O Problema de Nascer

Ao provocar esse questionamento sem necessariamente fazer da trama ser sobre “robô que deseja ser humano”, Wollner demonstra um grande controle da narrativa, embora fosse possível — e provavelmente seria interessante — se a diretora e roteirista optasse por aprofundar melhor tais questões. Em vez disso, a trama tem uma guinada no segundo ato que abre margens para novas discussões, enquanto deixa outras de lado. Essa virada não apenas é um tanto confusa como leva a um desenvolvimento pouco menos interessante do que a primeira parte do filme. A relação humano/máquina torna-se mais central à trama, que recorre à diálogos mais expositivos, e cria sequências silenciosas e contemplativas, que refletem muito bem a artificialidade das relações que cultivamos. Afinal, de que vale impor memórias a outro ser, insignificantes para ele, apenas para colocá-lo no lugar de um ente querido que já faleceu? 

Entre essas e outras reflexões, Sandra Wollner conduz uma obra interessante e devidamente incômoda, mas peca por não permitir que sua obra se aprofunde em seu tema. A sua própria maneira, O Problema de Nascer é para a diretora como os próprios andróides da obra: uma vez submetidos às vontades de outros, nunca alcançam seu verdadeiro potencial. Uma pena, pois é possível vislumbrar muito mais em ambos os casos.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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