O Poderoso Chefão — Desfecho: A Morte de Michael Corleone

 O Poderoso Chefão — Desfecho: A Morte de Michael Corleone

Para o melhor ou pior, O Poderoso Chefão — Parte III não é o grande desastre que muitos dizem por aí. Embora haja uma queda significativa de qualidade no terceiro em comparação aos seus dois antecessores, a obra individualmente ainda é um ótimo filme. Entretanto, quando se fala de Francis Ford Coppola, é um esforço inútil tentar evitar certa empolgação, mesmo que seja pelo fato do diretor retornar à sua maior obra para consertar algo que nunca esteve verdadeiramente quebrado. Dessa forma, ao revisitar a terceira parte da história de Michael Corleone, o cineasta — que garante buscar realizar algo mais próximo da ideia original —, da vida à O Poderoso Chefão — Desfecho: A Morte de Michael Corleone (The Godfather — Coda: The Death of Michael Corleone). Este sendo o título pensado originalmente e que carrega bastante significado, representando muito bem o espírito de um filme que não se limita a ser uma simples continuação, mas se apresenta desde seus minutos iniciais como a conclusão genuína para a trilogia. 

Em suma, sim, Desfecho é a mesma história que já fora vista em O Poderoso Chefão III, mas com algumas notáveis diferenças. Ainda é a jornada de Michael (Al Pacino, dispensando maiores apresentações) já mais velho, mas não menos impetuoso, como o atual Don que ainda se esforça para limpar todos os negócios da família, deixando para trás o passado criminoso da família Corleone definitivamente. Dessa vez, entretanto, Coppola emprega o uso de novas cenas — algumas totalmente novas, outras apenas reeditadas ou em momentos diferentes na trama — para redesenhar sua narrativa quase completamente, ainda que alterando tudo de forma mínima. Ou seja, enquanto a história contada permanece a mesma, o ritmo se mostra bastante diferente. Coppola dá uma aula de direção ao recriar sua obra basicamente com o mesmo material, mas fazendo dela algo muito mais marcante e fluída.

O Poderoso Chefão — Desfecho: A Morte de Michael Corleone

Pode parecer pouca coisa, mas eis aqui o grande trunfo do diretor. Aí assumir que o problema do filme não necessariamente consistia em sua história, o cineasta volta seus olhos para problemas menores que apenas impedem que a obra original faça jus como conclusão. Sem inventar moda como outros diretores fariam nesta mesma oportunidade, Coppola reencena o filme para que ele seja algo maior. Assim, enquanto a Parte III original soa como “mais uma continuação”,  aqui a intenção de realizar um verdadeiro desfecho — como pontuado no título nacional — é sentida durante todo o decorrer da obra, que pontua o filme com fotos, diálogos e até cenas que remetem com certo carinho do primeiro filme ao mesmo tempo que lembram o público de que aquela é a última vez que verão estes personagens.

Uma das grandes diferenças aqui é como Coppola abraça a oportunidade de utilizar as cenas para contextualizar melhor as jornadas paralelas à de Michael. Assim, coadjuvantes como Vinnie (Andy Garcia), Connie (Talia Shire) e Mary (Sofia Coppola) ganham um pouco mais de profundidade e coerência dentro da trama maior. Está última, inclusive, é quem sai ganhando mais, já que sua performance é ainda hoje criticada por muitos como um dos principais pontos negativos da obra. Ainda que não fosse muito possível que sua atuação fosse “consertada”, vale apontar que Mary é desenvolvida melhor aqui, suavizando os problemas na atuação enquanto sua personagem ganha mais valor junto ao público. Algo importante para acentuar a sequência final do longa, que permanece quase a mesma, mantendo os acertos e erros de antes, tal como a sensação apressada da cena final.

Outro personagem que ganha certa presença aqui, em comparação a obra original, é o próprio Vito Corleone. Não, Coppola não trouxe o ótimo Marlon Brando de volta, tampouco Robert DeNiro, que fora igualmente brilhante no segundo filme. Entretanto, enquanto originalmente era possível sentir o vazio deixado pelo imenso personagem, agora é quase como se Vito estivesse presente, relembrado diversas vezes durante a obra, seja através dos diálogos, seja através de pequenas referências. A cena utilizada para abrir o filme, por exemplo, ainda que já estivesse presente antes, é ressignificada ao ser movida para a sequência inicial, pois cria uma certa rima visual que imediatamente remete à icônica abertura do filme de 72, protagonizada por Bonasera e pelo então padrinho, Vito.

O Poderoso Chefão — Desfecho: A Morte de Michael Corleone

Ainda que não represente uma releitura completa do terceiro capítulo, O Poderoso Chefão — Desfecho: A Morte de Michael Corleone impressiona tanto pela qualidade da remasterização quanto pelo trabalho executado por Francis Ford Coppola, que utilizando o mesmo material base reconstrói sua narrativa melhorando-a em ritmo e desenvolvimento de personagens, fazendo jus não apenas ao protagonista Michael Corleone, quanto a outros personagens que também possuem um grau de importância para a história e cujas jornadas inevitavelmente também irã se encerrar por aqui. Outros possíveis elogios para a nova versão — como a performance do elenco ou a inesquecível trilha sonora de Nino Rota — soam redundantes, já que são pouco afetadas pelo novo corte, que de fato é superior à Parte III.

Independente dos novos acertos — ou velhos erros —, o mais importante é que Coppola novamente realiza uma obra de arte digna de atenção, que acima de tudo soa como um presente para o espectador que 30 anos depois, deseja mais uma vez estar na presença de Don Corleone.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também