44ª Mostra de SP | O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes

 44ª Mostra de SP |  O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes

Para quem — assim como eu — nunca assistiu a uma ópera, a experiência de O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes (Nos Ili Zagovor Netakikh), animação russa de Andrey Khrzhanovsky pode soar como uma experiência completamente nova. Mas mesmo sem esse aspecto musical, o filme ainda é bastante peculiar, já que a obra mistura live-action, uma animação bem diferente com a música de ópera e até mesmo cenas que parecem ser o making-off (!) da obra.

A animação é baseada na ópera O Nariz, que por sua vez é baseada no romance homônimo de Nikolai Gogol, que traz a história bem surrealista de um homem que perdeu — literalmente — seu nariz e parte para encontrá-lo. Separada em dois atos, a obra parte da história do “nariz” e, na segunda metade, estabelece uma crítica direta ao regime Stalinista. Se o estilo único enche os olhos e cativa a atenção do espectador quase que imediatamente, estabelecer a obra como um musical — uma ópera, de fato — torna tudo um pouco cansativo. E não bastasse isso, ainda tem o problema das referências.

Sempre que uma obra — de qualquer gênero ou estilo — surge nos cinemas, existe uma questão importante de contextualização. O Nariz… peca justamente neste aspecto, já que boa parte da experiência depende diretamente de um contexto cultural e histórico russo, o que pode ser um problema para a maioria dos espectadores que não estiverem familiarizados. Para os amantes do cinema, momentos como a cena da escadaria — vista originalmente em O Encouraçado Potemkin, mas referenciada em diversas outras obras audiovisuais — remetendo ao cineasta Serguei Eisenstein podem saltar aos olhos, mas tantas outras referências passam batidas. Ainda que a obra chame a atenção para elas, há pouco ou nenhum significado para o espectador.

Com este problema em mãos, a necessidade de embarcar na obra torna a experiência um pouco mais cansativa do que poderia, ainda que a segunda metade contenha uma acidez interessante ao lidar com o período Stalinista. Nesse aspecto, a animação se sobressai pelas possibilidades narrativas que oferece, abraçando o surrealismo. Ao perder a paciência e gritar com um subalterno, a cabeça de Stalin dobra de tamanho, por exemplo. Ao mesmo tempo, quando outro subordinado se sente humilhado por ele, é mostrado encolhendo na cena. São artifícios simples, mas divertidos de assistir, principalmente dado o fato de que o grande mérito da obra é realmente visual.

O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes deve agradar aos amantes de animações, já que conta com um estilo muito próprio e que transmite uma atmosfera de um teatro. Além disso, a montagem e até mesmo uma bem inserida metalinguagem aplicada de forma sutil — talvez o único aspecto sutil da obra — também são méritos. Entretanto, devido à trilha sonora que transforma a obra em uma ópera animada, certo apreço pela teatralidade em si é fator crucial na experiência, somado à necessidade de certa bagagem para entender as inúmeras referências. De toda forma, Andrey Khrzhanovsky compõe uma obra bastante interessante, que deve render uma experiência bastante singular para o espectador, seja pelo texto crítico que carrega consigo, seja pela técnica peculiar.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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