O Esquadrão Suicida

 O Esquadrão Suicida

Em 2008, o Coringa (Heath Ledger, gigante) já afirmava ser o próprio agente do caos. Sua presença representava, para o Batman, uma incapacidade de controlar Gotham e, portanto, tornando-se vulnerável ao caos que o vilão trazia consigo. Já James Gunn, diretor e roteirista de O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad), mostra que também pode ser chamado de agente do caos. Diferente do filme de 2016, sua obra é caótica, mas também engraçada, surpreendente e dotada de uma estranha beleza que apenas sua mente poderia conceber. E acima de tudo, é uma ode à galhofa.

A trama é familiar: Amanda Waller (Viola Davis) comanda remotamente a Força-Tarefa X, um grupo de criminosos condenados que, para diminuírem suas penas, participam de missões perigosas e, geralmente, fora do radar. Reunidos em campo sob direção de Rick Flag (Joel Kinnaman), a equipe deve destruir o projeto Estrela-do-Mar, escondido em Corto Maltese, país onde uma guerra civil está prestes a estourar. Embora O Esquadrão Suicida — foco no artigo, único elemento do título para diferenciar este do filme de 2016 — não seja uma continuação direta, James Gunn não ignora totalmente a obra anterior e, além de Viola Davis e Kinnaman, traz de volta Jai Courtney como Capitão Bumerangue e, claro, Margot Robbie como Harley Quinn.

Todos os outros personagens são adições novas ao universo DC, e não são poucos. Afinal, James Gunn quis assegurar que teria um numero grande de personagens que pudesse eliminar — as mortes são realmente numerosas, algumas até surpreendentes — e fazer jus ao título, que indica a periculosidade das missões atribuídas ao grupo. Um elemento realmente fascinante já que Gunn parece realmente esforçado para pensar em maneiras diferentes de exterminar o grupo, o que gera momentos morbidamente divertidos e até uma morte a la Mortal Kombat, com direito à um “raio-x” do estrago. É tudo deliciosamente horrendo como nunca feito pelo estúdio, ou mesmo no subgênero de super-heróis, que geralmente tende a realizar obras menos explícitas, mesmo as restritas ao público adulto.

O Esquadrão Suicida

Gunn rege sua obra como um verdadeiro maestro, sem negar o senso de ridículo que existe em personagens que, originalmente, surgiram em uma revista em quadrinhos para o público infantil. Pelo contrário, o diretor abraça este fator e o traz para o filme em cada um de seus aspectos, como nos trajes dos personagens — o ridículo das roupas do Pacificador (John Cena), o inconcebível e conveniente traje de batalha do Sanguinário (Idris Elba), etc —, em suas personalidades ou mesmo nos exageros que vestem a própria narrativa, como no clímax quando o esquadrão precisa lidar com a ameaça final. São fatores que, em uma obra com um tom mais pé-no-chão, talvez destoassem de forma incômoda, afastando o espectador. Mas aqui é apenas a cereja de um bolo onde o caos e a galhofa são os ingredientes principais.

É curioso notar inclusive como Gunn é efetivo ao cruzar diversas referências contraditórias de forma tão efetiva enquanto mantém uma identidade própria para sua obra. Principalmente no que tange ao seu trabalho com Arlequina, respeitando o que fora estabelecido em Esquadrão Suicida, mas principalmente em Aves de Rapina. Não apenas aprofundando toda a “fantabulosa emancipação” em um diálogo da personagem, mas também incorporando a estética criada por Cathy Yan nas cenas da personagem — e apenas nela —, mostrando como a mente de Harley funciona e gerando um dos melhores momentos do ano. Vale o reconhecimento para o diretor, mas é essencial reconhecer ainda mais o trabalho de Cathy Yan, que compreendeu tão bem a personagem com que trabalhava junto de Margot Robbie, que produziu Aves de Rapina e mostra-se como o casting mais acertado da DC desde Christopher Reeves.

E embora fosse óbvio que a personagem teria uma atenção forte no roteiro por sua relevância enquanto uma marca da DC, Gunn entrega um texto com um desenvolvimento bastante equilibrado mesmo lidando com uma dezena de personagens, aprofundando-os à medida que a obra pede, evitando uma armadilha comum em filmes de equipe, que é tentar desenvolver todos os personagens igualmente, mas não desenvolvendo nenhum de forma satisfatória. Com isso, Gunn pode também trabalhar alguns conflitos entre os protagonistas, aspecto mandatório para filmes de equipe que precisam brigar entre si antes de unirem-se, mas novamente sem seguir uma cartilha já esperada — como a “competição” entre o Sanguinário e o Pacificador que não vale a pena detalhar para não estragar a surpresa — e optando por destacar personagens surpreendentes. É a prova que um bom roteiro e direção podem tanto elevar o potencial de personagens ridículos quanto destruir os maiores heróis dos quadrinhos em uma adaptação pouco inspirada.

O Esquadrão Suicida

Esse trabalho com os personagens costura-se diretamente com o decorrer da trama, onde a palavra-chave é, novamente, “caos”. O roteiro do filme é escrito de tal forma que os eventos abordados se desenrolam de forma natural, com o mote principal dividindo-se e convergindo enquanto Gunn vai e volta no tempo, tudo para encaminhar seus esquadrão suicida a um clímax bastante distinto, para dizer o mínimo. Caótico, sim, mas não difícil de acompanhar e sem deixar a diversão de lado por levar-se a sério demais, um dos principais erros cometidos por Ayer em 2016. Isso não significa que os personagens de agora não sejam complexos ou tenham seu próprio peso dramático, mas sim que a abordagem das obras diferem quanto à forma de de integrar isso ao decorrer da narrativa e à própria essência do esquadrão: a equipe não é a Liga da Justiça nem os Vingadores, eles não salvam o mundo de uma forma gloriosa, apenas sujam as mãos limpando bagunças que ninguém quer lidar. Característica importante e que o diretor usa sabiamente para tecer uma crítica pertinente ao governo estadunidense e sua forma de lidar com a “guerra ao terror” fora do solo americano.

Sem receio de fazer uma obra que cause estranheza, James Gunn realiza em O Esquadrão Suicida algo realmente divertido e bizarro, que mistura tons de ridículo com um bem-vindo caos, o mínimo esperado para os personagens que compõem este grupo. Sem nenhuma intenção de realizar algo minimamente padrão dentro do subgênero, Gunn bebe de obras anteriores ao cinema contemporâneo de super-heróis — puxando obras da década de 70 e 80 — e presenteia o espectador com uma narrativa sangrenta, surpreendente e absurda em cada aspecto possível. É como se o espectador, acostumado aos filmes-família da Marvel ou ao “sombrio e realista” que dominou boa parte das obras da DC, abrisse uma história em quadrinhos e caísse para trás com uma explosão de loucura totalmente bem-vinda para sacudir um pouco o cinema de heróis, subgênero que frequentemente se leva mais a sério do que deveria.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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