O Espião Que Me Amava

 O Espião Que Me Amava

Quando escrevi sobre The Man with the Golden Gun, eu havia deixado claro o desejo de que a série reencontrasse sua qualidade. Bom, fico feliz de dizer que 007: O Espião Que Me Amava (The Spy Who Loved Me) me surpreendeu bastante positivamente. Resta saber dos próximos.

Mas falando sobre o décimo Bond, a mudança de diretor realmente fez a diferença aqui. Sai o aparente cansado Guy Hamilton e entra Lewis Gilbert, que sabe exatamente como dosar a autoparódia dos filmes protagonizados por Roger Moore, com o charme de outrora. Moore, aliás, em sua terceira vez dando vida ao icônico espião, surge bastante à vontade aqui, ainda que — como eu havia apontado anteriormente — lhe falte o charme de Connery.

Felizmente, esse déficit de charme é compensado pela presença de Major Anya Amasova (interpretada pela bela Barbara Bach). A “bondgirl” da vez não se limita a ser o par romântico do protagonista e surge dotada de personalidade — algo que ainda falta à Moore, que na pele de Bond me soa como um ótimo boneco Ken —, injetando carisma na obra. A atriz rouba as cenas mesmo diante do herói e possui um ótimo timing cômico. Além disso, por também interpretar uma espiã, Bach tem a oportunidade de brincar com alguns clichês da obra, virando o jogo contra Bond e surpreendendo o espectador, que a esta altura está acostumado a ver o espião no controle da situação — quase — sempre. De fato, os melhores momentos de O Espião Que Me Amava são os de Anya.

O Espião Que Me Amava

O décimo Bond também se beneficia por dar novos ares à sua trama com alguns recursos inéditos, como por exemplo a aliança anglo-soviética que é forjada para enfrentar um inimigo em comum. Forçar Bond a trabalhar em dupla funciona melhor do que o esperado, novamente pela ótima presença de Barbara Bach em cena. A química da dupla também funciona bem, o que gera bons momentos que remete ao ‘subgênero’ de buddy cops. É algo que não funcionaria sem que houvesse espaço para a atriz trabalhar sua personagem, como o que acontece em O Homem da Pistola de Ouro ou mesmo com tantas outras Bondgirls no decorrer da franquia. Infelizmente, ao menos até aqui, Anya é um ponto fora da curva, e também a prova de que o desenvolvido das personagens femininas só tem a agregar na narrativa.

Sem abrir mão do tom cômico que a franquia ganhou nos últimos filmes, é bem interessante ver como Gilbert consegue criar um sentimento de urgência na obra sem necessariamente abrir mão de clichês, como a sequência final com um tempo delimitado para Bond resolver os problemas. Além disso, outra tradição da franquia a ser seguida aqui é a do vilão apagado com capanga marcante, neste caso, o imponente Jaws (Richard Kiel), o brutamontes com dentes de ferro. Enquanto o confronto final de Bond com Stromberg (Curd Jürgens) chega a ser bobo, seus conflitos com Jaws são sempre divertidos de assistir, com destaque para a cena do deserto e também para o momento com o — outro clichê — tanque de tubarões.

Se O Espião Que Me Amava não traz o Bond de outrora, ao menos rende uma sessão muitíssimo divertida e que, se fosse hoje, com certeza geraria derivados protagonizados pela Major Anya de Barbara Bach. Mas sendo um filme de quase 50 anos atrás, vamos ter que nos contentar em rever esta aventura que, pelo menos até então, é o ponto alto de Roger Moore no papel. E que ele não tenha tanto a ver com isso, é apenas um mero detalhe.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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