Crítica | O Diabo de Cada Dia

 Crítica | O Diabo de Cada Dia

Constatar que existe um certo nível de esperança plantado no meio do pessimismo dominante de O Diabo de Cada Dia (The Devil All the Time) é curioso. De fato, a adaptação do livro de Donald Ray Pollock pelas mãos de Antonio Campos, que co-escreve o roteiro ao lado do irmão Paulo Campos, chama atenção pelas guinadas que parecem brincar com o destino dos personagens. Uma narração seca — do próprio Ray Pollock — que beira o cinismo completa a sensação. E ainda assim, é fascinante como a obra torna-se tão envolvente mesmo que em sua maior parte, ela basicamente diga — grite — ao espectador como o mundo é um lugar cada vez mais tóxico.

Logo em seus minutos iniciais, o filme introduz alguns dos personagens que irão permear as pouco mais de duas horas da obra. Alguns, pois o roteiro trata de abordar diversos núcleos — e no decorrer de tempos distintos, com o passar dos anos, mas também com pontuais flashbacks —, mesmo que alguns não soem orgânicos à trama como um todo a princípio. Neste início, a trama se posiciona no ex-soldado Willard (Bill Skarsgård) e trata de delinear bem alguns dos temas que a obra irá desenvolver, como as cicatrizes psicológicas deixadas pela guerra e a relação do homem com sua fé. Tais aspectos seguem conforme a trama passa a focar em Arvin, filho de Willard e interpretado por Tom Holland nesta que talvez seja sua melhor atuação até então.

O Diabo de Cada Dia

Roteiros com múltiplos personagens costumam ter dificuldades para agregar tudo de forma coesa, principalmente quando as subtramas exigem certo tempo para serem desenvolvidas. Mas aqui, os co-roteiristas acertaram, principalmente considerando a temática religiosa e seu impacto em cada um, mostrando desde o fanatismo até o ateísmo na obra. É este nível de detalhes nas jornadas individuais que enriquecem o desenvolvimento e motivações dos personagens. Por exemplo, após entendermos como Arvin e Lenora (Eliza Scanlen) se relacionam em suas crenças, suas reações ao primeiro sermão ministrado pelo reverendo Preston Teagardin (Robert Pattinson) tornam-se não apenas compreensíveis, mas esperadas. Não de uma forma previsível, a ponto de estragar quaisquer viradas de roteiro, mas sim evocando familiaridade, como se a certa altura do filme, o espectador já fosse próximo a eles.

Esta rica construção é também o que torna a atmosfera pessimista da obra crível. O diabo de cada dia do título mostra-se em todo lugar e vindo de qualquer um, como se os pecados de outrora ainda estivessem intoxicando o meio em que estas pessoas vivem. De tal forma que aqueles que adentrarem este mundo corrompido, aos poucos irão ceder à sua própria corrupção, seja em busca de dinheiro, sexo ou qualquer outro tipo de satisfação particular. Para isso, novamente podemos citar o personagem de Pattinson como um dos mais interessantes da trama, já que sua jornada reflete justamente os que usam o nome de Deus de forma extrema e egoísta, expressando os próprios desejos e princípios, mas cuja autoridade — reconhecida por aqueles a seu redor — é tida como inquestionável. Definitivamente, um dos maiores “diabos de cada dia” da obra.

O Diabo de Cada Dia

A mesma fragmentação que permite estes méritos, entretanto, também abre margem para alguns problemas. A exemplo da jornada de Sandy (Riley Keogh) e Carl (Jason Clarke), por vezes alheios à trama principal, o casal possui momentos chave que empurram a história. Se por um lado, a dupla representa o acaso — que pode ser realmente surpreendente às vezes —, por outro suas ações soam quase convencionais demais. O mesmo pode-se dizer do personagem de Sebastian Stan, cuja participação no filme mal se justifica até os minutos finais. Não que tais personagens sejam irrelevantes na trama, mas fica a impressão de haver algum ruído durante a adaptação, que os impediu de serem melhor encaixados na trama do filme como devem ser na obra original. Mas felizmente, isso não chega a afetar o bom ritmo aqui, graças a boa montagem de Sofía Subercaseaux, que inclusive transita entre tempo e espaço sem tornar a obra confusa em nenhum momento.

Além disso, dada a minuciosidade do texto, o voice-over do narrador por vezes tende a tornar-se demasiadamente expositivo em momentos específicos, por vezes até descrevendo o que já está sendo mostrado em tela. Na maioria das vezes, a narração é bem-vinda — em uma obra que trata de religião, esta consciência soa quase como um ser divino, observando tudo com certo desprezo pelos seres irrelevantes e seus objetivos fúteis que assistimos —, mas em alguns momentos, incomoda pela redundância, já que algumas cenas se fazem entender pelo que está sendo mostrado em tela, sem a necessidade de explicação. Neste aspecto, a escolha de trazer o próprio autor da obra como narrador soa quase como um capricho criativo por parte dos roteiristas.

O Diabo de Cada Dia é certamente um dos grandes destaques do ano. Embora tenha alguns problemas, sua narrativa envolvente e ácida, além do elenco escolhido com uma excelência pouco comum — todos estão muito bem em seus papéis, principalmente Tom Holland que apresenta uma atuação madura e diferente de seus outros papéis, talvez com seu personagem mais complexo até então — são suficientes para criar uma experiência impactante. E quase paradoxalmente, em meio a um cenário inebriante de pessimismo e desilusão, cria-se uma jornada que aponta para uma vida com mais esperança, onde justamente aqueles que menos tem necessidade de reafirmar sua fé, são os que têm mais chance de sobreviver à todos os diabos ao redor.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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