O Beco do Pesadelo

 O Beco do Pesadelo

Poucos diretores possuem uma mão tão boa quanto Guillermo del Toro para encontrar a beleza no macabro — ou o macabro dentre o que é belo —, fazendo isso em uma filmografia que costumeiramente brinca com elementos do horror, mas nunca satisfeito em trazer apenas isso à tona, pois busca sempre se aprofundar no sombrio para buscar algo mais. É assim em seu Labirinto do Fauno e em seu A Espinha do Diabo, sendo uma característica que persiste até no lado mais “estadunidense” de sua obra, em filmes como Hellboy e no oscarizado A Forma da Água. Esta busca por um significado maior do que aqueles demonstrados à primeira vista persiste em sua produção mais recente, O Beco do Pesadelo (Nightmare Alley), sendo este, entretanto, o menos fantasioso de seus filmes até então.

Publicado originalmente em 1946, o livro O Beco das Ilusões Perdidas já havia ganhado uma adaptação para o cinema pelas mãos de Edmund Goulding em 1947. Agora, sob o comando do diretor mexicano, a trama do mentalista charlatão tomado por suas ambições ganha uma nova roupagem, seguindo de perto o trabalho de Goulding, mas trabalhando com uma curva dramática muito mais acentuada do que na década de 40. Afinal, o cinema de del Toro não é tão comedido, ainda que trabalhe com diversas nuances, o que faz com que seu O Beco do Pesadelo consiga extrair uma trama muito mais minuciosa a partir da mesma narrativa de outrora. Se no original, Stan Carlisle já surge em cena esbanjando ambição — e ganância —, a versão vivida por Bradley Cooper parece se contaminar com o vislumbre de sucesso. Assim, nas mãos de del Toro, O Beco do Pesadelo torna-se muito mais uma obra sobre a degradação psíquica de seu protagonista do que seu antecessor.

O Beco do Pesadelo

A diferença fica ainda mais clara quando a duração de ambas as adaptações são comparadas: são 150 minutos da versão de del Toro contra 110 do filme de Goulding. Esse tempo “extra” é bem utilizado pelo mexicano não apenas para elaborar ainda mais a atmosfera mística do circo na primeira parte do filme, mas também para aprofundar a relação dos personagens. É curioso como, para o público que não conhece a história, o flerte com o macabro proposto por del Toro se materializa em tela através da suspeita: enquanto inseridos no cenário circense, tudo e todos parecem cabíveis de dúvidas sobre suas respectivas índoles — com exceção, talvez, de Molly (Rooney Mara), única personagem que transborda uma ingenuidade aparentemente genuína —, configurando muito bem as intenções do diretor em conversar com cinema noir, estilo clássico bastante popular no cinema entre as décadas de 40 e 50.

Del Toro é feliz em capturar e imprimir em seu O Beco do Pesadelo a mesma atmosfera do cinema noir, conhecida por ser uma atmosfera “suja”, com personagens altamente corruptíveis. Isso é bem demonstrado, por exemplo, no trabalho de fotografia de Dan Lausten — que trabalhara com o diretor em A Forma da Água —, que opta por criar um efetivo jogo de sombras ao dessaturar as cores dos cenários circenses, criando um aspecto nebuloso que veste muito bem a obra. Por sua vez, na segunda metade, as cores polidas e o design de produção de luxo não apenas funcionam para criar o contraste desejado — expor mais a fundo poderia revelar detalhes da trama —, mas também condizem com o desenvolvimento do protagonista, ao passo que combina bem com as intenções do personagem, transparecendo-as. De certa forma, o trabalho de Lausten e del Toro fazem com que o cenário seja uma extensão de Carlisle, ao passo que também soem como um ambiente que o impregna, enchendo-o com as mais diversas intenções e tentações.

Essa dualidade não é apenas bem-vinda como faz com que o novo O Beco do Pesadelo ganhe em charme quando comparado ao antecessor, que soa muito mais direto ao ponto, pois as nuances criam uma experiência ambígua, mas também distinta e original, na medida do possível. Quando a narrativa começa a desenrolar uma subtrama que flerta com o místico — algo que havia sido estabelecido, mas pouco explorado no decorrer do primeiro ato —, a lógica do ambiente que conduz o protagonista — e vice-versa — mostra-se efetiva por conceder um ar singular dentro da própria filmografia do diretor, cujas histórias não costumam se focar na origem de demônios internos, mesmo quando as narrativas giram em torno de demônios literais. Aqui, por outro lado, permanece a sensação de que somos conduzidos por del Toro através da psique de Carlisle, ainda que o filme brinque com elementos fantásticos sem abraçar tal viés fantasioso.

O Beco do Pesadelo

Talvez por uma condução tão funcional de seu cenário que del Toro acabe deixando a conclusão da obra um tanto previsível, ainda que a jornada até este desfecho seja bastante envolvente e surpreendente em certa medida. O espectador mais atento será capaz de juntar algumas informações citadas no primeiro ato — através de diálogos que a princípio não parecem dizer muito — e entender para onde a trama está se encaminhando, ainda que isso não chegue a atrapalhar a experiência. Afinal, esta se apoia — acertadamente — no magnetismo criado através dos personagens principais, vividos por Bradley Cooper e Rooney Mara, e também à adição da sempre incrível Cate Blanchett durante o decorrer do segundo ato, sendo esta uma peça-chave para o clímax. Enquanto Cooper encontra o tom certo para um personagem que transita entre extremos, Mara e Blanchett funcionam através de uma dualidade, com cada qual representando um polo distinto da trajetória do protagonista.

Tamanha imersão faz com que Guillermo del Toro alcance algo inusitado com sua refilmagem, transformando seu O Beco do Pesadelo em uma experiência fascinante tanto para os espectadores já familiares à trama, quanto para aqueles que irão adentrar esta narrativa pela primeira vez. Sua natureza ambígua, que carrega consigo a atmosfera do noir, faz com que a nova versão se torne ainda mais intensa que a original, conduzindo o público para dentro daquele ambiente até que este próprio esteja tão impregnado que não possa mais sair. Não à toa que sua cena final soe quase como um alívio — mas paradoxalmente, desesperadora —, permitindo o espectador voltar a respirar após um clímax suficientemente sufocante, enquanto se desenrola como um grito — ou choro — que finalmente pode ser externalizado depois de um bom tempo preso na garganta. É o tipo de experiência que somente um cineasta acostumado a abordar a natureza humana com tanto fascínio poderia conseguir.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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