44ª Mostra de SP | Nova Ordem

 44ª Mostra de SP | Nova Ordem

Uma noiva no dia de seu casamento, curtindo a festa com seus pais em convidados na casa da família de classe alta. Um ex-funcionário, enfrentando dificuldades para conseguir realizar uma cirurgia de urgência em sua esposa. E uma manifestação de níveis cada vez mais alarmantes ocorrendo nas ruas da cidade. É a receita do caos promovido em Nova Ordem (Nuevo Orden), do mexicano Michel Franco, filme que já é apresentado como “polêmico”. Com todas as razões, já que é uma daquelas obras que deixa claro o desejo de colocar o dedo na ferida. Talvez até demais.

Com essa premissa básica — descrever muito mais pode estragar a experiência, principalmente a do ótimo primeiro ato —, Franco constrói um filme que não está muito preocupado em explicar causas ou delinear consequências. De nada importa, por exemplo, os motivos que fizeram estourar a manifestação. Ou mesmo como as coisas irão se desenrolar após os créditos finais surgirem em tela. Suas intenções não vão muito além de expor, através de uma trama com altos e baixos, a fragilidade de uma democracia. E esta mensagem é bem clara no filme.

É notável a forma como Franco utiliza os elementos para criar uma atmosfera de tensão crescente. A tinta verde, por exemplo, é utilizada pelos manifestantes e uma vez que isso é estabelecido, a presença dela em cena torna-se um gatilho para a curiosidade, como no momento em que uma das convidadas do casamento chega suja, após terem acertado seu carro na rua. Da mesma forma, essa tinta verde e, por consequência, a manifestação, são as únicas coisas que ligam núcleos tão distintos quanto o da noiva Marianne (Naian González Norvind) e do ex-funcionário Rolando (Eligio Meléndez). A noiva é sempre filmada em planos abertos, coloridos e bem iluminados, já ele surge em uma cena que contrasta por suas cores escuras em um plano quase claustrofóbico. 

A tensão persiste até culminar em uma virada inesperada, quase satisfatória — se não satisfaz, é justamente pelo nível de violência do momento —, onde a temática do conflito social ganha as vias de fato. Mas como já dito, este não é o interesse verdadeiro de Nova Ordem e logo a obra abraça o cinismo da proposta, partindo para uma cinematografia muito mais crua. Apesar de manter-se ideologicamente interessante, a abordagem do diretor pesa à certa altura, soando demasiadamente gratuita em alguns aspectos — uma cena específica da segunda metade soa completamente desnecessária, dado que a gravidade da situação já está clara neste ponto da trama —, funcionando apenas para manter o choque instaurado ao fim do primeiro ato.

Além disso, ocorre uma bem-feita imersão proposta pela desinformação, já que o espectador acaba tão perdido na trama quanto os próprios personagens desta. De certa forma, o público é tão refém dos acontecimentos quanto os protagonistas. A maior perda da obra, entretanto, é o fator de imprevisibilidade. Se o primeiro ato instiga o espectador justamente pela curiosidade, já que não é possível imaginar os desdobramentos a seguir, o segundo ato toma algumas decisões que, aos poucos, vão apontando claramente para uma única conclusão possível. Apontá-lo como previsível não é exatamente correto, mas cabe admitir que imaginar uma conclusão diferente do que ocorre seria simplesmente não prestar atenção às intenções de Franco. 

Da mesma forma, é facilmente entendível o choque causado pelo filme. Em uma época onde diversos governos ao redor do mundo flertam com o facismo, uma obra como Nova Ordem não é apenas chocante, mas assustadora. Parte da experiência de assistí-lo é entender que a narrativa escrita por Michel Franco não é tão impossível assim. Não é uma distopia como tantas outras no cinema que, apesar de incômodas, soam ficcionais. Pelo contrário, é uma obra que olha o espectador de volta e praticamente grita uma mensagem de despertar. Ou tenta fazê-lo, já que essa mensagem pode-se perder na tentativa de chocar a todo custo.

Com uma boa montagem, uma narrativa constantemente provocativa — por vezes apenas chocante — e um grito de alerta para algo que deveria ser óbvio — ditaduras são ruins para todos, exceto para quem está no comando —, Nova Ordem surge como um dos filmes mais interessantes, ainda que controversos, do ano. Sem nenhuma intenção aparente de realizar algo brando, Michel Franco pode até ter realizado algo cujo choque seja, artisticamente, gratuito. Mas que talvez seja apenas uma resposta à altura ao mundo de hoje, não havendo outra forma de passar sua mensagem. E constatar a necessidade de tamanha violência para se fazer entender, por si só, já é suficientemente assustador.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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