Noite Passada em Soho

 Noite Passada em Soho

Com obras como Em Ritmo de Fuga e Scott Pilgrim contra o Mundo no currículo, não é de se surpreender que Noite Passada em Soho (Last Night in Soho) fascine o espectador já nos seus primeiros minutos. Edgar Wright, diretor responsável por todas estas obras citadas, comanda a obra com seu estilo bastante autoral, misturando mistério e terror com uma atmosfera encantadora e uma estética impecável, como esperado tendo em vista sua filmografia.

Wright é um diretor que não tem o costume de trabalhar com o mesmo gênero no cinema, restringindo-se à repetir seu estilo de humor na chamada Trilogia Cornetto, onde mistura comédia com outros gêneros — terror de zumbis, ação policial e ficção-científica, mais especificamente —, mas sempre priorizando narrativas que deem vazão para seu estilo visual mais inventivo. Suas obras sempre contam com sua assinatura, mas acabam se tornando distintas entre si, formando uma rica e divertida filmografia para o espectador conforme este vai descobrindo os novos estilos explorados pelo diretor. Desta forma, mesmo considerando trabalhos anteriores de Wright, Noite Passada em Soho é sua primeira incursão genuína dentro do gênero de terror, um gênero bastante versátil por si só.

Com isso, é no mínimo curioso observar como o diretor lida com o gênero, construindo pacientemente uma narrativa que demora a dar sinais de terror, partindo de uma premissa que mescla os dias de hoje com a década de 60. Não à toa, o diretor utiliza sua predileção por truques visuais elaborados para evocar o cinema de gênero da década, brincando com a perspectiva do espectador ao empregar o uso dos espelhos nos cenários e um jogo de câmera ao trabalhar com suas duas atrizes principais em cena, Anya Taylor-Joy e Thomasin McKenzie. Com isso, o diretor constrói momentos visualmente interessantes — e até surpreendentes para o espectador que tiver se privado de assistir aos trailers —, com destaque para o momento em que introduz Sandie na obra, personagem vivida por Taylor-Joy.

É curioso como Wright, diretor que sempre carrega para seus filmes o contraste do presente com o passado, trabalha a dinâmica das personagens/atrizes em Noite Passada em Soho. Se em Scott Pilgrim e Em Ritmo de Fuga, Wright trabalha este fator de forma mais gratuita — visualmente, empregando a estética de videogames retrô no primeiro, ou optando por uma trilha sonora de músicas clássicas no segundo —, aqui o diretor fundamenta essa dualidade desde a trama principal, no roteiro que co-escreve ao lado de Krysty Wilson-Cairns (1917) até os aspectos visuais da obra, seja nos figurinos, seja nos cenários. Assim, McKenzie e Taylor-Joy alternam o protagonismo, cada qual com a moda e os trejeitos de sua própria época: se a Sandie de Taylor-Joy surge com salto-alto, Wright evidencia os tênis de Eloise (McKenzie). Sandie entra em cena com seu elegante vestido de festa, enquanto Eloise aparece com um vestido de papel, fantasiando ser uma estilista famosa. Já o penteado de Sandie, não. Este é atemporal. Assim como as músicas que compõem a trilha sonora do filme.

Esta alternância, que o diretor usa e abusa na composição de seus quadros, acaba sendo aspecto-chave da obra, estética e narrativamente. A iluminação, que remete à chamada iluminação bissexual — que mescla tons de azul com vermelho — e as duas versões da canção Downtown — entoadas por Anya Taylor-Joy — também servem a esta premissa. Já no que tange à narrativa, o contraste e o presente funcionam na veia do terror, elaborando certa claustrofobia ao tocar em um assunto delicado: abuso/assédio. Com isso em mente, esta temática — na qual presente e passado não oferecem contraste, já que pouco parece ter mudado de fato — dá forma aos conflitos principais de Noite Passada em Soho, não apenas motivando a curiosidade da personagem vivida por McKenzie como também servindo de principal fio-condutor para que o diretor crie as maiores situações de terror propostas pela obra. Não é um terror tão diretamente catártico — como em Corra! ou O Homem Invisível, por exemplo —, mas funciona diante da premissa, com Wright criando momentos que o próprio passado do lugar ganha forma de assediador para com Eloise.

Embora este subtexto ganhe muita força no decorrer do segundo ato, Edgar Wright demonstra alguns problemas no que tange ao fechamento da narrativa, com algumas reviravoltas que, embora bem-vindas, não se encaixam totalmente com a premissa elaborada até então. Neste aspecto, o diretor acaba esvaziando parte de seu discurso, como que na intenção de fazer seu filme mudar de escopo uma vez mais — como acontece na virada do primeiro para o segundo ato —, mas sem conseguir trabalhar suficientemente seus personagens para que as conclusões propostas sejam verdadeiramente efetivas. Isso, somado a certa previsibilidade da obra — acima de tudo, uma boa reviravolta precisa ser surpreendente —, faz com que Noite Passada em Soho perca força justamente na conclusão, mesmo oferecendo um final devidamente provocador no que tange ao desfecho de Eloise.

Enquanto Taylor-Joy carrega consigo uma boa experiência no cinema, não apenas na arte em si, mas dentro do gênero de terror — a atriz despontou em A Bruxa e co-protagonizou Fragmentado —, demonstrando uma boa construção de personagem nas facetas de sua Sandie, Thomasin McKenzie é quem surpreende, com uma interpretação sólida e que funciona como base principal para a construção emocional do filme. A atriz sabe muito bem transitar entre o fascínio e o desespero de sua personagem, externando o amadurecimento de Eloise sem recorrer a uma atuação demasiadamente exagerada. Já o insípido Matt Smith faz o que pode, pois embora acerte no tom de seu personagem, não há muito texto para trabalhá-lo, fazendo com que o ator desapareça diante da dupla principal.

Sob as luzes de neon — um “novo clichê” do cinema de terror? —, Edgar Wright faz de seu Noite Passada em Soho uma viagem esteticamente forte e igualmente fascinante, ainda que com dificuldades em amarrar tudo diante de um clímax controverso e bagunçado. Seu estilo próprio dá o tom do terror, fazendo com que o filme não seja uma obra convencional do gênero — não espere ver aqui algo ao estilo de James Wan, por exemplo —, embora não negue suas inspirações nos clássicos. Clássico, aliás, define bem as aspirações da obra, da trilha aos figurinos até a referência à 007, tudo no filme parece escolhido a dedo para que ele se torne, por si só, atemporal. Uma referência às obras que irão sucedê-lo. Se vai dar certo, não saberemos tão cedo, mas o cinema só tem a ganhar enquanto diretores como Edgar Wright se permitirem criar obras tão deliciosamente distintas quanto esta. E Londres também, afinal, poucas vezes a cidade foi tão apaixonante quanto vista aqui.

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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